Triste passado: número de escravos colocou Campos dos Goytacazes no topo do cenário escravocrata regional

Neste dia 13 de Maio, Abolição da Escravatura completa 134 anos

História
Por Thiago Gomes
13 de maio de 2022 - 7h45
Peças do período da escravidão expostas no Museu Histórico de Campos (Foto: Silvana Rust)

Há exatos 134 anos, com sua assinatura em um documento, a Princesa Isabel pôs fim ao sofrimento direto infligido à população negra pela escravidão. Era a “Lei Áurea”. Como diz o ditado popular: “antes tarde do que nunca”. Começavam ali, porém, outros desafios para os ex-cativos abandonados à própria sorte, como sobreviver sem emprego e sem política pública voltada para este grupo. E isso causou reflexos que duram até hoje. De acordo com estudiosos do período, Campos dos Goytacazes se destacava no cenário escravocrata por sua quantidade de mão-de-obra negra. Para que suas fazendas de café e engenhos de cana-de-açúcar funcionassem, o hoje município, outrora Vila de São Salvador, chegou a ter o maior número de escravos da província do Rio de Janeiro.

Rafaela Machado é historiadora

Em levantamento histórico contido em sua dissertação “O negro e seu mundo: Vida e trabalho no pós-Abolição em Campos dos Goytacazes (1883-1893)”, a historiadora e coordenadora do Arquivo Público Municipal Waldir Pinto de Carvalho, Rafaela Machado, conseguiu, com base em relatos de escritores da época e outros estudiosos, estimar o quantitativo da população escrava na cidade:

 “A partir dos dados fornecidos pelo escritor Teixeira de Mello, pudemos observar que todo o município de Campos contava em finais de 1880 com uma população de 91.880 indivíduos, sendo que, destes, 35.668 escravos e 56.212 livres, aí computados 10.266 ingênuos. Assim, a população escrava representava 38,82% da população. Ao considerarmos apenas o conjunto da população da Vila de São Salvador, do total de 19.400 habitantes, 40,77% compunha-se de escravos, isto é 7.910 indivíduos. Lana Lage da Gama Lima afirma que era este o maior número de escravos da província do Rio de Janeiro, que possuía nesse período 289.239 escravos, concentrando Campos 12,33% desse total”. (Ingênuos são crianças livres nascidas de mães escravas após a Lei do Ventre Livre, de 1.871).

A historiadora e coordenadora do Museu Histórico de Campos dos Goytacazes (MHCG), Graziela Escocard, relata que tão grande quanto a população escrava do município era o medo dos senhores de engenho que, em menor quantidade, reprimiam os cativos com violência, a fim de evitar rebeliões.

Foto: Ilustrativa/Arquivo

 “No século XIX, tivemos um alto índice de escravizados na região para abastecer o mercado de trabalho, principalmente na produção açucareira, que foi a responsável pelo crescimento econômico da nossa cidade naquele período. Nessa época, a população negra era bem superior, o que gerava também medo nos grandes produtores rurais, que reprimiram os escravizados com violência. Tentando doutriná-los por meio da violência simbólica e física. Como vestígios desse passado, possuímos no Museu Histórico de Campos, instrumentos de tortura, conhecidos também como instrumentos de suplício, utilizados aqui na região como formas de castigo corporal”, comenta.

Entregues à própria sorte

Após a Lei Áurea, os negros libertos foram buscar moradia em regiões precárias e afastadas dos bairros centrais das cidades. Não houve orientação ou preocupação com o destino daquela população que acabara de deixar as senzalas. E em Campos não foi diferente. Trata-se de uma triste realidade que reverbera até hoje.

Simone Pedro é socióloga

Para a socióloga Simone Pedro, se os ex-escravos tivessem recebido apoio na época, a realidade da população negra no Brasil teria tomado rumo diferente.

“Não dá para dizer que seria muito próxima da ideal. Mas, com toda certeza, a situação do negro em nosso país seria diferente. O país que talvez mais experimentou a dignidade, a cidadania no pós-Abolição foram os Estados Unidos. Mas, ainda assim, a população negra de lá enfrenta problemas muito sérios. Está aí o movimento ‘Black Lives Matter’ para mostrar pra gente que o racismo ainda é uma questão muito presente no cotidiano do norte-americano. Mas, com certeza, com política pública de apoio lá atrás, teríamos hoje uma desigualdade racial bem menor porque hoje seríamos grupo de interesse do mercado e da política”.

Escravos retratados pelo pintor Debret (Reprodução)

E a socióloga conclui: “É importante frisar que, desde a Abolição da Escravatura, o projeto de nação brasileira é o de ‘desafricanização’ do Brasil. A gente experimentou, inclusive, política de embranquecimento do país. É importante destacar isso porque o projeto de eliminação da população negra, ele se efetivou muito mais nas instituições, nas estruturas da sociedade do que um projeto propriamente de integração do negro na sociedade”.

“É na luta que a gente se encontra”

Conforme diz a letra do samba-enredo do ano de 2019 da Estação Primeira de Mangueira – História Para Ninar Gente Grande: “Não veio do céu, nem das mãos de Isabel. A liberdade é um dragão no mar de Aracati”. Ao contrário do que muitos pensam, a população negra não aceitava de bom grado o cativeiro e lutou por sua liberdade. Graziela Escocard confirma, por meio de pesquisas, que Campos dos Goytacazes possuiu um alto índice de rebeldia negra, ou seja, rebeldia dos escravizados contra seus senhores.

Graziela Escocard, historiadora (Foto: Arquivo/Carlos Grevi)

“Temos muitos casos na nossa historiografia de escravos que chegaram a matar seus donos. Um destes casos conhecidos que se tornou até lenda, é o caso da Ana Pimenta uma senhora muito bem vista perante à sociedade campista, entretanto, maltratava demais seus escravizados. Os maus tratos relatados pelas escravizadas foram o motivo pelo qual elas se reuniram e decidiram sufocar a Ana Pimenta na calada da noite (veja aqui). Essa história podemos encontrar em diversos livros sobre a história de Campos, através de memorialista que reproduziram esse caso para demonstrar como a sociedade do passado foi cruel com os escravizados”, ressalta Escocard.

E Rafaela complementa: “Há de se ressaltar, ainda, o aumento nos índices da criminalidade escrava na década de 1870, inaugurando uma nova fase da rebeldia negra, isto é, passava-se na contestação individual para os atos coletivos, que chegaram ao máximo já na década de 1880. O aumento das manifestações escravas indica o descontentamento dessa camada da população com a solução emancipatória gradualista e a recusa à ideia de consenso. Destaque-se, ainda, que o aumento da consciência escrava nesse período está intimamente associado à atuação do movimento abolicionista”.

Voltando à letra do samba-enredo da Mangueira, a agremiação foi campeã do carnaval carioca daquele ano.

Chegada pelo Porto de Manguinhos

Ossadas humanas localizadas em Manguinhos (Foto: Divulgação)

Parte dos cativos de Campos dos Goytacazes chegava pela Praia de Manguinhos em São Francisco de Itabapoana, conforme aponta a historiadora Graziela Escocard. Um negócio altamente lucrativo que movimentava uma rede de interesses fomentada pelos donos das grandes fazendas.

 “Quando falamos de tráfico negreiro, pensamos sempre nas grandes capitais do Brasil recebendo negros escravizados. Mas a nossa região foi também um grande foco deste tráfico de humanos. Temos relatos comprovados acerca deste tipo de negócio no Norte Fluminense. Na praia de Manguinhos (na atual cidade de São Francisco de Itabapoana), temos as ossadas de pretos novos (veja aqui). Eram negros capturados e trazidos para nossa região, que desembarcavam nesta praia deserta no passado, por meio da articulação do conhecido traficante de escravizados, André Gonçalves da Graça, oriundo de São João da Barra, descrito como receptor de escravos africanos em diversas documentações. Ele chamou a atenção da armada inglesa e de seus tripulantes que por aqui desembarcaram do navio Rose, em 1842, para apurar seu negócio lucrativo, vigorando desde o tráfico permitido ao tráfico clandestino, com a proibição imposta pela Lei de Eusébio de Queirós, de 1850”.

A historiadora lembra que vestígios arqueológicos comprovam a existência do Porto de Manguinhos, aonde chegavam diversos navios com seres humanos escravizados e outras mercadorias para abastecer as fazendas na região. “Muitos destes africanos colocados em condição de escravos chegavam enfraquecidos e acabavam morrendo devido a uma série de circunstâncias, entre elas as condições de viagem que eram extremamente desumanas. Eles eram, então, enterrados no local, em covas coletivas e rasas. Tudo indica que este local é um cemitério de escravos africanos recém-chegados ao país, os chamados ‘pretos novos’”, complementa.

Acervo do Museu Histórico de Campos