Já ouviu falar em Anna Pimenta? A senhora que foi morta sufocada por suas escravas em Campos

Um misto de bondade e maldade, ela tornou-se símbolo da sociedade campista escravocrata

Suposta imagem de Anna Pimenta, restaurada por Diogo Monteiro, com base na Fotopintura de Anna Pimenta, colorida à mão, Séc. XIX. Acervo de Gisella Barrozo Muylaert de Menezes Chalita Hissa.

Ao amanhecer do dia 20 de setembro de 1873 (há exatos 146 anos), foi divulgada a noticia de ter sido assassinada Dona Anna Joaquina Carneiro Pimenta, senhora maior de 70 anos. Sua morte foi providenciada pelas suas escravas, que lhe sufocaram durante a madrugada. Foi assim que essa senhora entrou para a história de nossa cidade.

Cabe descrever melhor quem foi a então conhecida Dona Anna Pimenta. Para tanto, a fonte mais acessível em busca de sua história tem sido os livros dos memorialistas, sendo o Julio Freydit e o Gastão Machado os que fizeram o relato de seu assassinato com pinceladas de suspense, tratando do assunto como um conto histórico. Por meio destes autores, traço um pouco do perfil desta senhora, fazendeira e possuidora de escravos.

Dona Anna Pimenta era considerada um misto de bondade e maldade. Segundo os relatos dos memorialistas, nossa personagem histórica era prestativa e generosa com várias instituições religiosas e filantrópicas da cidade de Campos dos Goytacazes, prestando ajuda através de doações financeiras, chamadas de “esmolas”. Porém, com seus escravos o trato era diferenciado. Cabe apontar que sua estirpe é uma junção de famílias nobres da cidade, como os Carneiros (descendentes do Visconde de Araruama – José Carneiro da Silva).

Proprietários rurais acostumados com a escravidão e com o que esse sistema de trabalho exploratório proporcionou. Sendo estes os maiores defensores do cativeiro e de suas práticas de domesticação, com o uso de instrumentos de suplícios (palmatórias, chicotes, grilhões, gargantilhas e vira-mundos), comuns na prática de imobilização e de castigos corporais aos escravos. Objetos estes que faziam parte do cenário das fazendas de Dona Ana Pimenta, demostrando que a prática de castigo aos seus escravos era exercitada diariamente.

Sua morte é consequência da forma como Anna Pimenta tratava seus escravos, principalmente suas escravas domésticas, importantes personagens históricas, fortes e complexas, que dormiam todas as noites presas no sótão de sua residência, trancadas e acorrentadas. Um dia após sofrerem castigos corporais, a escrava Letícia instigou as demais escravas, Cecília, Virgínia e Cherubina, para cometer o crime de homicídio contra sua senhora.

Suposta Fotopintura de Anna Pimenta, colorida à mão, Séc. XIX. Acervo de Gisella Barrozo Muylaert de Menezes Chalita Hissa.

Para isso simularam trancar os cadeados de suas algemas e entregaram para outra escrava de confiança de sua dona, a escrava Hortência. O plano de execução ocorreu conforme o combinado, as escravas se soltaram e se dirigiram até os aposentos de sua senhora, e a morte se deu por estrangulamento ao apertarem a garganta e o nariz, e segurarem os braços de Anna Pimenta, garantindo o interrompendo do fluxo de oxigênio para o cérebro. Após ter certeza da morte de sua senhora as escravas arrumam a cena do crime colocando tudo em ordem, inclusive o corpo de sua senhora em estado normal na cama, para dar o entender que teria sido morte natural.

No entanto, os gritos de Anna Pimenta teriam despertado os moradores da residência, incluindo o filho da vítima, o Tenente Coronel Pimenta, que convocou de imediato o delegado de polícia Thomé José Ferreira Tinoco, que interrogou todos os presentes. Os indícios apontavam para as quatro escravas e, ao serem pressionadas, confessaram o delito de ter assassinado sua dona, justificando ese ato por se cansarem dos maus tratos e por serem mantidas sempre presas aos grilhões.

Sedentas de justiça e vingança, essas escravas cometeram tal crime. Apenas mais um dos crimes de uma longa lista de ocorrências em nossa historiografia regional acerca de escravos contra aos seus senhores, que contribuíram para questionar as torturas praticadas contra aos escravos de nossa região pelos seus donos.

Sendo esse crime julgado no Tribunal do Júri da nossa cidade (no salão dos fundos do solar sede do Museu histórico de Campos dos Goytacazes), no qual sentenciou as escravas à Cadeia (localizada aonde hoje se encontra o Chafariz Belga, na Praça das Quatro Jornadas). A escrava Letícia, por sua vez, foi sentenciada não só a Cadeia, como também à pena de 500 açoites e gargantilha de ferro no pescoço, acusada de ser a principal autora, responsável por toda conspiração e influência sobre as demais escravas. Letícia morreu ainda presa na Cadeia de infecção pulmonar.

Diversas histórias são reproduzidas até hoje em relação a essa personagem histórica – Dona Anna Pimenta, sempre com um tom carregado por maldade, tornando-se símbolo de uma sociedade campista escravocrata e que causa um enorme sentimento de vergonha.

Graziela Escocard – Historiadora e Diretora do Museu Histórico de Campos dos Goytacazes
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