Ao meu pai, até breve – Tiago Abud

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Artigo
Por Redação
19 de junho de 2022 - 5h00

A língua inglesa não encontra significado para a palavra saudade. Durante uma vida fiquei sem entender essa omissão. Hoje penso que talvez estejam certos os ingleses e americanos, porque só quem vive tal sentimento sabe a sua representação e, portanto, tem autoridade para defini-lo. A morte de meu pai veio de modo abrupto e inesperado. Apesar de idoso, apresentava-se saudável.

Como uma punhalada no peito, a dor da perda descortinou a saudade e aí, onde o dicionário estrangeiro não encontrou sinônimo, passei a vê-la em todos os atos do cotidiano. Do som do carro que não chega, da buzina que não toca, do entra e sai na casa que não mais acontece, os dias se desenrolam na ausência. É quando resta à mesa no canto, a sala, o jardim e o silêncio de seu bandolim, como eternizou Sérgio Bittencourt.

Aprender a transformar a dor da vida, essa dor tão doída, em exemplo daquele que virei fã, é a saída possível. Agradecer pelo tempo que passei ao seu lado, ameniza o sofrimento da partida, transformando-o em até breve e se afigura como receita do espírito para a dor da alma.

Dos exemplos reiterados que ficaram- os quais guardo na memória e hoje sei de cor- ouvi sobre uma vida de grandes e silenciosos gestos. Alguém que teve fome e ele saciou. O favelado a quem ele ajudava, que chorou sua morte no portão da minha casa, como um órfão. O auxiliar de serviços gerais inábil, a quem ele amparava fraqueando imerecidas oportunidades de trabalho,que no seu enterro olhava incrédulo para um caixão que teimava em se fazer presente. São tantas as histórias que as testemunhas farão o trabalho de irradiá-las.

Gostar de gente e viver na simplicidade talvez tenha sido o seu grande legado. É nele que me inspiro. Mas há ainda o amor encarnado e incondicional pelos seus filhos, que tento passar aos meus. Caso um dia consiga ser um pouco do ele foi para mim, terei sido um bom pai. Aí, por certo, não terá sido em vão. Clarice Lispector dizia sentir saudades de quem não se despediu direito e das coisas que deixou passar. Esses hiatos não se preenchem, porque sempre faltarão o abraço e o beijo não dado ou aquilo que ficou para depois. Talvez aqui esteja a beleza da vida, tanto pelas possibilidades vividas, que posso rememorar, como pelas faltas, que transformam a saudade em esperança, na fé inabalável de serem sanadas no grande encontro que teremos um dia e que motivam a dizer um até breve.

Tiago Abud – Articulista e Defensor Público