Edinho Black – Um mestre em transformar a madeira em arte

Aos 59 anos, Edinho está sempre envolvido em algum projeto em seu ateliê, no bairro da Coroa; Suas peças de madeira ganharam o mundo

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Por Girlane Rodrigues
6 de junho de 2022 - 0h04

Poucas palavras resumem a riqueza de uma vida dedicada ao trabalho do artesão Edinho Black. Há três décadas esculpindo madeira para imprimir sua arte peculiar, as peças decoram as mais requintadas casas de Campos, do estado do Rio de Janeiro, do Brasil e do exterior. São luminárias, caixas decorativas, bancos, cadeiras, mesas que já chegaram às principais exposições de arquitetura de interiores, aos mais diversos ateliês, às principais páginas de revistas e a cenários de novelas globais. Tudo assinado por Edinho Black, campista de 59 anos que, em sua simplicidade, se denomina ‘operário que gosta de gente’. Ele trabalha de domingo a domingo em sua oficina, no bairro Coroa.

“Faço várias coisas ao mesmo tempo: corto a madeira, entalho, dou acabamento, envernizo. Produzo mais de uma peça por vez. Não gosto de ficar parado. O trabalho e a busca pelo aperfeiçoamento dão sentido à minha vida. Nada me falta. Tenho muitos amigos a quem sou grato por terem me levado a lugares que nunca imaginei. Recebi proposta para morar e trabalhar fora do Brasil. Estes amigos acreditam no meu trabalho e na minha arte e me dizem que eu faria sucesso em qualquer lugar do mundo, mas eu gosto daqui. São as minhas peças que têm que ir. Gosto de ver meus produtos nos eventos”, afirma.

Avesso a entrevistas, Edinho abriu exceção para o Jornal Terceira Via. Entre sua produção atual, está a moderna Cadeira Mole, sucesso no mundo e projetada pelo arquiteto e designer brasileiro Sérgio Rodrigues. “Me inspiro em algumas peças, mas dou o meu toque, meu acabamento. Criador é Deus, eu reproduzo a partir da minha visão, da minha identidade e do meu processo manual”, diz o artesão.

Ferramentas
Em meio a tornos, formão, desempeno, esquadros, serrotes e lixas está a raspa, o mais importante instrumento usado por Edinho Black em suas peças. A raspa nada mais é do que uma lâmina de aço afiada. A partir dela e sob o olhar do artista, a madeira maciça vai ganhando brilho. Nas mãos de Edinho Black, a matéria-prima é comparada à pele humana. “Já imaginou o ser humano sem banho? A pele fica sem brilho. É a mesma coisa com a madeira, se ela não for raspada e lixada, fica sem vida”, comparou.

O sucesso
Edinho Black aprendeu o ofício com o tio, ainda na adolescência. Mas foi aos 30 anos que começou a atingir o sucesso, quando passou a imprimir sua identidade nas peças. A arte foi descoberta por arquitetos de Campos. “Quem entende de arte e arquitetura olha e conhece a relevância das peças e os detalhes do trabalho. Meu acabamento começou a atrair estes profissionais que me faziam encomendas para expor em eventos nacionais e assim eu fui crescendo cada vez mais”, conta. Apesar de realizado, Edinho lamenta que sua mãe – dona Zizi, falecida há anos – não tenha visto o sucesso dele. “Se tem algo que me falta, é isto, a presença da minha mãe. Ela foi o amor da minha vida, muito amável e feliz, era também muito amada por todos. Esta minha alegria de viver vem dela, que sempre me deu muito amor”, contou Edinho, emocionado.  

Rio Design
Peças de Edinho Black expostas na Mostra Rio Design alcançaram o Brasil. “O evento tem uma grande visibilidade e uma luminária minha exposta lá atraiu o olhar de uma equipe da Globo que adquiriu o produto para usar nos cenários de novela. Brasileiros que moram no exterior também já levaram peças minhas para fora do país. Para não dizer que “Santo de casa não faz milagre”, Edinho participou da Exposição Contrastes, no Sesc, em Campos, em 2015. No entanto, ele conta que em sua casa ainda não tem peças produzidas por ele. “Santo de casa não faz milagre. Para parar de dizer isso, estou criando uma mesa e uma estante para minha casa”.

Saúde
Trabalhar diariamente é uma das marcas registradas de Edinho Black. E, ao longo destes 30 anos de carreira, um câncer colorretal afastou o profissional de sua rotina por alguns meses em 2015. “Só deixo de trabalhar para cuidar da saúde. Graças a Deus tenho muitos amigos que me ajudaram a vencer esta doença. Eles encaminharam tudo para mim, a cirurgia, a quimioterapia, os exames. Hoje estou curado e, apesar da gravidade da doença, eu descobri logo no início. Enfrentei o tratamento sem perder a fé, a coragem e a alegria. Lembro-me de que no dia da minha internação, eu perdi a hora e não fui. Estava na igreja. Todos os meus amigos me procuraram na cidade inteira e não me achavam. Ficaram preocupados. Foi um dos poucos dias que não fui encontrado pelos meus amigos”, contou.