Hepatite aguda de causa desconhecida preocupa autoridades

A doença, que está em investigação, acomete crianças e adolescentes entre 0 a 17 anos

Saúde
Por Cíntia Barreto
16 de maio de 2022 - 5h01
Doença do origem ainda misteriosa tem acometido crianças e adolescentes (Foto: Divulgação)

A hepatite aguda grave de etiologia ainda desconhecida vem mobilizando autoridades de saúde do mundo inteiro, inclusive em Campos, onde a Secretaria Municipal de Saúde já está em alerta. O problema foi identificado em 5 de abril deste ano, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) foi notificada pelo Reino Unido sobre o acometimento da doença em  crianças com até 10 anos e previamente consideradas saudáveis. Desde então, outros países também identificaram vários casos desse tipo de hepatite, como Espanha, Estados Unidos, França, Bélgica e Brasil.

A Secretaria de Estado de Saúde (SES), por meio do Centro de Informações Estratégicas de Vigilância em Saúde (Cievs), emitiu um alerta aos 92 municípios do Estado sobre o registro de casos de hepatite aguda grave de causa desconhecida em crianças menores de 16 anos. A medida visa orientar as secretarias municipais sobre a notificação correta dos casos para que possam ser monitorados. No Estado do Rio já existem casos suspeitos e que estão em investigação.

Segundo o Ministério da Saúde, os pacientes com a síndrome relataram sintomas gastrointestinais, incluindo dor abdominal, indisposição, diarreia e vômito antes da apresentação de hepatite aguda grave e aumento dos níveis de enzimas hepáticas, mas a maioria dos casos não apresentou febre.

Drª Andreya Moreira

A doença, ainda pouco conhecida, está sendo estudada de forma aprofundada por diversos especialistas. “Desde abril, 12 países foram acometidos por uma hepatite viral que até então não se sabia a causa. Estudos foram realizados e conseguiram detectar, na maioria dos casos, uma relação direta com o vírus chamado adenovírus. Alguns casos estão relacionados a crianças transplantadas ou pacientes com o uso de imunossupressor, mas pode acometer também crianças e jovens saudáveis”, explicou a infectologista Andreya Moreira, que é coordenadora da Comissão de Controle de Infecção Hospitalar do Hospital Dr. Beda.

Ainda se tem muito a descobrir sobre essa hepatite aguda, mas médicos afirmam que é uma doença contagiosa, transmitida através de gotículas respiratórias.

“Estamos averiguando principalmente a associação dela, mas, até então, a grande maioria não está ocorrendo com associação a outras doenças, como a Covid-19, por exemplo, mas sim ao adenovírus puro. De qualquer forma, é preciso bastante atenção, principalmente com as crianças imunossuprimidas que já têm a imunidade baixa. Nessas crianças, a síndrome pode evoluir para uma insuficiência hepática, o fígado para de funcionar, e algumas delas podem até morrer. Então, pais e responsáveis devem estar atentos a qualquer sinal e procurar ajuda médica”, orientou a infectologista.

Número de casos já identificados no mundo e no Brasil

Segundo a OMS, até o dia 10 de maio, 348 casos de hepatite aguda de etiologia desconhecida foram notificados em 21 países. Dentre esses casos, 26 necessitaram de transplante e ao menos seis crianças morreram. Mais de 70 casos ainda estão com a classificação pendente em 33 países, a maioria na Europa. A origem ainda está em investigação.

Já no Brasil, até 11 de maio, foram notificados ao Cievs, 28 casos de hepatite aguda de etiologia desconhecida, distribuídos em sete estados: SP (8), RJ (7), MG (4), ES (2), PR (3), SC (2), PE (2). Destes, 13 são prováveis, 10 estão aguardando classificação e 5 foram descartados. Os casos prováveis seguem em investigação junto às vigilâncias epidemiológicas e Cievs locais.

Em Campos dos Goytacazes, até o fechamento desta matéria, na última sexta-feira (13), ainda não havia registrado nenhum caso suspeito da doença, mas os profissionais de saúde estão alertas.

“É uma hepatite de causa desconhecida, preocupa bastante a gente, e, por isso, fazemos um apelo aos profissionais de saúde e pais para que fiquem atentos. Por esse motivo também que nós mudamos o nome do nosso ‘Gabinete de Crise Covid-19’ para ‘Gabinete de Crise Covid-19 e de Doenças Emergentes e Reemergentes’, para que a gente possa continuar fazendo a vigilância dos casos na nossa cidade”, destacou o responsável técnico pela Vigilância do Departamento de Vigilância em  Saúde, da Subsecretaria de Atenção Básica, Vigilância e Promoção da Saúde de Campos, Charbell Kury.

Centro de Informações Estratégicas em Campos

Segundo a infectologista Andreya Moreira, coordenadora do Cievs, o Centro é de grande importância para o município porque visa captar as notificações de eventos que possam se configurar em uma emergência de saúde pública.

“Foi inaugurado em dezembro de 2020 em Campos. O Cievs faz parte de uma rede nacional e, a partir do momento que há uma preocupação com doenças tanto infecciosas quanto não infecciosas, ou até mesmo algum desastre, os Cievs são notificados e, a partir daí, a vigilância em saúde e a vigilância epidemiológica do município começam a fazer um monitoramento. Então essa é uma rede de resposta em alerta de todo território nacional”, finalizou.

Existem cinco tipos de hepatites conhecidas

A hepatite é uma doença inflamatória que acomete o fígado. São cinco cepas principais do vírus, referidas como tipos A, B, C, D e E. Embora todas causem doenças do fígado, elas diferem de maneiras importantes, incluindo modos de transmissão, gravidade da doença, distribuição geográfica e prevenção de métodos.

Em geral, os sintomas mais comuns são febre, fraqueza, dor abdominal, enjoo, náuseas, vômitos, perda de apetite, urina escura, olhos e pele amarelados (icterícia) e fezes esbranquiçadas.

Existe vacina para a hepatite A e B, que são oferecidas na rede privada e pública através do Programa Nacional de Imunização (PNI).