Não há que se falar em República onde milhões passam fome e o povo não decide seu destino

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Guilherme Belido Escreve
Por Guilherme Belido
18 de novembro de 2021 - 18h12

O início da semana marcou o dia da Proclamação da República, o que na realidade não representa nada além de uma data distante no tempo. Diz o velho clichê que uma imagem vale por mil palavras. Logo, basta olhar para a estarrecedora foto acima e concluir que o Brasil está bem distante do princípio republicano. 

Discordar dessa realidade catastrófica seria o mesmo que dar normalidade ao fato de que todos os dias milhares de crianças, talvez milhões, tenham que buscar comida em lixões, enquanto República, em seu conceito mais denso, é “coisa pública”, ou “coisa do povo”, ou, ainda, “forma de governo em que o povo exerce a soberania”. Pergunta-se: é soberano um povo cuja boa parte da população passa fome, frio e morre por falta de cuidados os mais elementares?

Dizendo de outra forma… se um país – apesar de republicano – tem o território do tamanho dos estados do Sergipe ou do Rio de Janeiro, não dispõe de terra fértil, de riquezas naturais ou é abalado por climas severos e extremos – enfim, por uma rotina de intempéries –, há de se reconhecer, infelizmente, que a população fique à mercê desses infortúnios. 

Contudo, passa longe disso o gigante-continental Brasil, 5º maior país do mundo, de diversificada flora e fauna, de infindáveis riquezas naturais – terra fértil e farta – de clima balanceado e dono da maior bacia hidrográfica do mundo. Logo, se apesar de toda essa abundância, a miséria assola duramente o povo, não resta dúvida de que os governos passam longe de fazer valer o ideal da República e, bem ao avesso, não cumprem, como servidores públicos, suas obrigações mais básicas.

História de longos períodos anti-republicanos 

Se no passado mais longínquo a república pós-instaurada (1889) não foi além de um golpe que lançou o Brasil numa ditadura militar – a chamada “República da Espada”, de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto – anos depois no Estado Novo – período ditatorial de Getúlio Vargas (1937-45) – e, em 1964, o golpe que deu início ao regime militar que desaguou em nova ditadura com duração de 21 anos – em tempos menos distantes o conceito republicano se fez mais ausente do que presente. 

Tempo recente – Das transgressões do governo Collor ao Mensalão, do Petrolão ao que foi desvendado pela hoje sepultada Operação Lava Jato – que excessos à parte comprovou círculo de corrupção sem precedentes na história do Brasil, com centenas de indiciamentos, condenações e prisões de grandes empresários, parlamentares e governadores – vê-se inequívoco que os esquemas de propina assaltaram impetuosamente os cofres públicos, tirando do povo – em particular dos mais humildes – o que lhe é de direito. Em suma: o dinheiro roubado pelos ladrões de colarinho branco deixou de ser usado em favor da população. 

E se a conclusão afigura-se como falsa ou deturpada, então estaremos a concordar que o Brasil das palafitas, do esgoto a céu aberto, das crianças fora das escolas e das escolas sem professores, dos hospitais sem médicos e das comunidades sem hospitais… Da violência, dos presídios desumanos, enfim, que o Brasil da miséria, do analfabetismo, do desemprego e da comida ‘tirada’ dos lixões, é o Brasil ‘construído para o povo e em seu favor.