“Os justos não poderiam pagar pelos pecadores”, diz bispo tradicionalista sobre decisão do Papa Francisco que suspendeu missas em latim

Dom Fernando Rifan conversou com o Terceira Via sobre a atitude do Vaticano que reverteu decisão do Papa Bento XVI

Religião
Por Ocinei Trindade
18 de julho de 2021 - 16h17
Bispo Fernando Rifan na inauguração do órgão de tubos da Igreja do Imaculado Coração de Nossa Senhora do Rosário de Fátima (Arquivo)

Neste domingo (18), o bispo Dom Fernando Rifan, líder da Administração Apostólica Pessoal São João Maria Vianney, em Campos dos Goytacazes, mais conhecida por ala tradicionalista da Igreja Católica, comentou sobre a decisão do Papa Francisco que reprimiu na sexta-feira (16) a disseminação da antiga missa em latim. Isto fez reverter uma das decisões de assinatura do Papa Bento XVI, gerando queixas entre católicos  tradicionalistas que consideraram um ataque à antiga liturgia.

Francisco decidiu  impor restrições à celebração de missas em latim, alegando que a reforma de Bento XVI se tornou uma fonte de divisão na Igreja. Isto estaria sendo explorado, segundo ele, pelos católicos que se opunham ao Concílio Vaticano II, à modernização da Igreja e de sua liturgia iniciada em 1960. Campos dos Goytacazes é uma das cidades de maior concentração de católicos tradicionalistas do Brasil. Segundo o Bispo Fernando Rifan, esta comunidade no Norte e Noroeste Fluminense passa de 30 mil fiéis.

Papa Francisco (Foto: divulgação)

Fernando Rifan destaca que na “Carta Apostólica Tradiciones Custodes”, do dia 16 de julho, o Papa Francisco tratou do assunto da liturgia romana, antes da Reforma de 1970.  “Ele lembra que para promover a concórdia e a paz na igreja, a paz litúrgica, os Papas João Paulo II e Bento XVI regulamentaram a faculdade de se usar o missal antigo. Missal chamado de tradicional, editado pelo Papa João XXIII em 1962. Eles queriam facilitar a comunhão eclesial àqueles católicos que eram apegados a essas formas litúrgicas anteriores. Mas foram necessários alguns reajustes, o que ele está fazendo agora nessa nova Carta Apostólica, do próprio, chamada Tradiciones Custodes”, explica.

Papa emérito Bento XVI

O bispo considera que a principal modificação promovida por Francisco é a entrega ao bispo de cada Diocese a competência para autorizar o uso do missal romano antigo em cada região, seguindo as orientações da Santa Sé Apostólica.

“Claro que nós católicos acatamos a orientação do Papa Francisco. Mas, nós salientamos o seguinte: esta intervenção do Papa foi provocada pelos abusos de muitos chamados tradicionalistas que não observaram aquilo que o Papa Bento XVI queria, que é a missa de forma como comunhão da igreja. Começaram a usar a forma da missa antiga para atacar o Papa, o Concílio, mas isso não é a maioria, nem são os mais importantes. Porém, são os que mais gritam e aparecem nas redes sociais, pois é muito maior os fiéis que aderem à forma antiga, como nós da Administração em Campos, por razões corretas. Não a instrumentalizam, não negam a ortodoxia e o valor do Concílio Vaticano II, nem a reforma litúrgica da missa de Paulo VI, nada disso. Por isto, os justos não poderiam pagar pelos pecadores, é o que vai acontecer”, diz.

Fiel católica em missa em Campos (Arquivo)

Dom Fernando Rifan defende que a Administração Apostólica de Campos, e muitos católicos  do mundo inteiro conservam a missa na forma antiga, não por motivos heterodoxos, mas como uma das riquezas litúrgicas do catolicismo.

“O Papa João Paulo II diz o seguinte: “todos os pastores e os fiéis devem compreender a legitimidade e a riqueza da diversidade e das tradições litúrgicas”. É uma diversidade que constitui a beleza da unidade na variedade. Pela riqueza, beleza, elevação, nobreza. Solenidade das cerimônias, o sentido do mistério. Bento XVI diz que “se existem numerosos motivos que levam a muitos fiéis a encontrar o refúgio na liturgia tradicional, o mais importante dentre eles é que aí encontram preservada a dignidade do sagrado”. Por esses motivos, nós conservamos a missa na forma antiga, sem nenhum problema. Acho que isso enriquece mais a igreja”, conclui.