NAU SEM RUMO: em meio à pandemia, Brasil “promove” circo da CPI, picuinhas políticas, discute sucessão e Copa América

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Guilherme Belido Escreve
Por Guilherme Belido
14 de junho de 2021 - 12h14

Indo direto ao ponto, o Brasil enfrenta uma das piores crises políticas, sociais, econômicas e institucionais das últimas décadas. Não se trata apenas das intempéries do presidente Jair Bolsonaro, mas, paralelo a estas, da desorientação generalizada que coloca o País muito perto, senão do naufrágio — que seria um exagero face às potencialidades do País —, de um sacolejar sem fim e de resultados imprevisíveis.

A rigor, nem a péssima administração Sarney, ou o desastroso governo Collor, ou, ainda, o catatônico segundo mandato de Dilma — os dois últimos encerrados por impeachment — impuseram ao Brasil tamanha desordem, insegurança e o risco sabe-se lá de que gravidade ou extensão.

Foram períodos turbulentos? Sim, ninguém duvida. Mas não havia um cenário tão sombrio e de tantas incertezas. O Brasil, hoje, é uma nau gigante, navegando (ou adernando) em águas de tormenta — sem curso, sem radar, sem leme, sem nada.

Diante da maior pandemia dos últimos 100 anos e estando o Brasil no topo dos países mais afetados, ao invés de ter fechado todas as frestas e deixado aberta apenas a da Covid, para que fosse prioritária e incessantemente combatida, faz o contrário: abre, ao mesmo tempo, todas as portas e resolve antecipar, em 18 meses, o debate sobre sucessão; perde tempo com picuinhas políticas ao invés de juntar esforços, instaura uma CPI que mais parecer um circo de horrores e se dispõe a perder tempo e gastar energia com Copa América. “Copa América”? Sério?

Parece uma convenção de circos

Sobre os erros do presidente não adianta malhar em ferro frio porque deles todos sabem e, os que não sabem, não querem saber. Que o Palácio do Planalto minimizou a pandemia, que promoveu aglomerações, que foi contra as medidas restritivas, que questionou as vacinas e atrasou a compra dos imunizantes, etc. etc. e etc, — já está mais batido do que martelo de ferreiro.

A questão é que, Bolsonaro à parte, o que se vê ao redor não é apenas um circo, mas uma convenção de circos — um montão de circos reunidos — onde governo, oposição e os de cima do muro afundam o Brasil da maneira mais irresponsável possível.

Pergunta-se, repetindo citação anterior: isso lá é hora de antecipar discussão presidencial, com cada qual querendo tirar uma casquinha? Não! Claro que não. O que deveríamos estar tratando é de pandemia, pandemia e pandemia. Só que os corredores políticos e boa parte da população já discutem se vai dar Bolsonaro ou Lula — Lula ou Bolsonaro — o que, além da hora errada, desde já cria um ambiente de hostilidade entre dois extremos. Isso, enquanto o Brasil caminha para 490 mil óbitos — dia após dia morrendo mais de 2 mil pessoas.

Ora! Isso é uma vergonha. O ex-presidente Michel Temer, com uma ficha enorme para acertar com a Justiça, já se colocou como “opção para 2022”. Só falta aparecer também a Dilma, quem sabe numa dobradinha com Lula. É um circo, cabendo ao povo a performance de palhaço.

Máscara — Falando em circo, como entender a fala de Bolsonaro, que na quinta-feira passada (10) disse “acabei de falar com um tal de Queiroga, não sei se vocês sabem quem é…”, e, com uma máscara na mão e certo desdém, informou que seu uso seria desobrigado para aqueles que já foram vacinados ou contaminados. “Um tal Queiroga…” – o que significa isso?

Não dá pra entender. Máscara, nos EUA, deixou de ser obrigatória apenas em ambientes abertos — parques, áreas de lazer, etc. — e lá o número de vacinados com duas doses ultrapassa os 42%. Aqui, pouco mais de 11% da população receberam as duas doses.

CPI: ridícula e fora de hora

Outra frente em que o Brasil se depara com o ambiente de circo — com todo respeito a uma das mais antigas e importantes formas de arte, aqui usada de forma caricata — a CPI da Covid é, sim, um circo. Não interessa quem está certo ou errado, porque se instaura em momento inoportuno e os senadores agem como inquisidores.

As irregularidades cometidas teriam que estar sendo listadas para, uma vez com a pandemia sob controle, aí assim instalar a CPI. Mas agora? Desviar a atenção do combate à Covid para uma CPI que mais parece briga em botequim de 5ª, com troca de acusações, com bate-boca, com senadores tentando arrancar respostas a qualquer custo e os depoentes fugindo das perguntas, num quadro bizarro que não vai levar a nada, é algo assustador.

Se a CPI estivesse obedecendo o modus operandi que se espera do Senado Federal, estaria, de toda forma, na hora errada. Mas, como está, é algo que cambaleia entre o ridículo e o inócuo.