Moradores de Lagoa de Cima são retratados em documentários no YouTube

Produzida por Carolina Cássia e Alexandre Ferreira, a série retrata um dos locais mais bonitos de Campos

Cultura
Por Ocinei Trindade
9 de junho de 2021 - 7h33

Lagoa de Cima, Campos dos Goytacazes (Fotos: Carolina Cassia)

Cenário paradisíaco de Campos dos Goytacazes, a Lagoa de Cima ganhou um novo foco retratado pelos documentaristas Carolina Cássia e Alexandre Ferreira. Em quatro episódios, eles mostram belas paisagens e relatos de 13 dos moradores mais antigos da localidade. O primeiro episódio “Raízes” da série “Lagoa de Cima” já está disponível no YouTube. Outros três episódios serão disponibilizados na Internet ainda este ano, segundos os idealizadores.

“É um material riquíssimo que possui a história e a narrativa de pessoas comuns, que trabalharam duro nas lavouras da região de Campos de Goytacazes e adjacências. Trata-se de um resgate da memória de nossos ‘griôs’. Através deles temos a cultura da região sendo narrada de forma simples, mas cheia de emoção. É uma material que pode ser muito utilizado por historiadores, professores e diretores de escolas, cineclubes, na promoção de rodas de conversa”, explica Alexandre.

Carolina Cássia conta que o filme nasceu quando viu o senhor Fidélis, com 93 anos de idade, atravessando a Barra da Lagoa de Cima com canoa a remo.

“Era fim de tarde e a primeira vez que eu chegava naquele local. Antes que ele descesse, fui conversando e descobri que ele faz a travessia duas vezes por dia para realizar suas refeições. No dia seguinte, antes do sol nascer acordei com a imagem da Pedra da Lavadeira, lugar que fui uma única vez, nascente do rio Ururaí, próximo à Barra da Lagoa. Tomei um copo d’água e fui revisitar aquele lugar bucólico com a intenção de buscar a gente dali e suas histórias”, diz.

A pesquisadora e documentarista Carolina deixou-se correr como o rio e saiu perguntando pelos moradores mais velhos. Logo conheceu dona Iolanda que lavava louça na beira do rio. Ela aceitou contar suas histórias. Jongueira das boas, cantou os pontos de jongo e sambas do carnaval, além de muito trabalho nas roças. “Era uma vida muito sofrida, com 8 anos eu já trabalhava nas roças”, relatou.

Ao 94 anos, senhor Carlito é outro personagem da série. “Aqui o que não faltava era assombração”, diz o morador de Morro Grande. Para Carolina, tem gente com raiz fincada nas comunidades no entorno da Lagoa. Ela descobriu lugares como Margarida, Barro Branco, Morro Grande, Vao, Pedra da Lavadeira, Barra da Lagoa, Cajueiro, Água Fria, Penha, Muzanza e Ponta da Palha, onde residiam os índios (povos pioneiros como diz Soffiati), em suas ocas.

“Entrevistei 13 moradores mais velhos, rezadeira, campeiro, cortadores de cana, costureira, professoras, pescadores. A maioria camponeses que, apesar de trabalhar desde a tenra idade, não conseguiram se aposentar, recorrendo à política de assistência social para sobreviver”.

A série “Lagoa de Cima” conta histórias de vida e ancestralidade marcada pela escravidão e resistência que atravessa a cultura negra e indígena cantada e proseada no fado negro. “Tenho muito verso na cabeça, quando eu morrer não quero choro nem vela, quero uma fita amarela gravada com o nome dela”, canta a moradora Maricota.