Desde 2014… “Lá vem o Brasil descendo a ladeira”

“Crise dos 7 Anos” é marcada por impeachment, série de protestos, três presidentes e ainda tinha uma pandemia no meio do caminho

Guilherme Belido Escreve
Por Guilherme Belido
7 de junho de 2021 - 21h42

Um clássico da MPB, o samba “Lá vem o Brasil descendo a ladeira”, lançado em 1979 por Moraes Moreira em parceria com Pepeu Gomes, nada tem a ver com os meandros e escorregadios caminhos da política.

Segundo estudiosos da música brasileira, a letra é uma homenagem ao gingado da mulher brasileira — “Na sola, no salto… No equilíbrio da lata não é brincadeira…” —, bem como ao morro, ao samba e ao carnaval.

Versos que misturam o suingue carioca com o folclore baiano, de acordo com o jornalista e crítico musical Mauro Ferreira, “reza a lenda” que João Gilberto, ao ver uma mulata descendo a rua, com toda ginga, vigor e beleza, teria dito: “Lá vem o Brasil descendo a ladeira”. Da frase Moraes Moreira tirou inspiração para uma das canções de maior sucesso de sua carreira.

De certo não é de bom tom usar o belo título que remete a dois gênios da música nacional — ambos nascidos no interior da Bahia e recentemente falecidos: João, em 2019; Moraes, em 2020 — para ilustrar tema tão desagradável.

Contudo, reflete a dura realidade que vem marcando o Brasil dos últimos anos, em ininterrupta crise político-institucional que começou em 2014, no pós-reeleição de Dilma Rousseff, e chega aos conflituosos dias de hoje.

Nesse período, o País tem vivido sob incessante turbulência: afastamento e impeachment de Dilma, Petrolão, queda dos índices econômicos, Operação Lava Jato, prisões por atacado, chegada de Michel Temer em meio a gritos de “golpista”, protestos que eclodiram Brasil afora, Congresso desgastado por escândalos, a campanha de 2018 que dividiu o Brasil, até chegar ao governo Bolsonaro — marcado com declarações, provocações, embates e comportamentos incompatíveis com a liturgia do cargo de presidente.

E, no meio disso tudo, tinha uma pandemia no caminho.

O começo do infortúnio — A narrativa da desventura, que neste 2021 pode ser definida como a “Crise dos 7 Anos”, começa quando vem à tona as ‘pedaladas fiscais’ do governo Dilma, seguidas de denúncias de que a presidente maquiou a realidade econômica do Brasil para favorecer sua reeleição.

Na disputa mais acirrada desde a redemocratização, a vitória apertada da petista sobre o tucano Aécio Neves deu margem para que o PSDB entrasse com uma série de pedidos junto ao TSE questionando o resultado do pleito de 2014 e pedindo a cassação de Dilma. O Tribunal não acatou e um ano depois, em auditoria custeada pelo próprio PSDB, nenhum indício de fraude eleitoral foi encontrado.

Contudo, os desdobramentos do Petrolão e denúncias de ilegalidades se avolumando e rondando o Planalto minaram o governo da petista. Independente das churumelas e da falta de consistência nos pedidos do PSDB, a instabilidade que marcou o segundo mandato de Dilma e lançou o Brasil em grave recessão econômica teve causa nas próprias transgressões do PT-governo, de fato no centro do esquema de propina montado na Petrobras. ‘conjunto da obra’, a crise se instalara em definitivo, juntamente com pedidos de impeachment.

Saída de Dilma, Aécio Neves desmascarado, Eduardo Cunha preso, áudio de Temer e onda de protestos

Num período de pouco mais de dois anos, o Brasil foi sacudido por um conjunto de fatores definidos, à época, como tempestade perfeita. Catatônica, Dilma perdeu a governabilidade e, na busca de apoios, transformou o Planalto num circo. Sem conseguir nomear Lula para ‘salvar o mandato’, o impeachment foi inevitável.

Mesmo combalido, o PT tentava se manter vivo com as revelações que tiraram a máscara de Aécio Neves e mostraram que também o tucano frequentara os pântanos da corrupção em irrefutáveis denúncias. Mas pouco ou nada conseguiu diante da forte pressão antipetista.

Eduardo Cunha — o presidente da Câmara que abrira o impeachment — também era desmascarado e acabara preso. Michel Temer, já então presidente, mesmo arrefecendo a crise econômica, não conseguia melhorar seu índice de popularidade e, a partir dos ‘famosos’ áudios nos porões do Palácio Jaburu, perdeu qualquer credibilidade e foi denunciado pela PGR juntamente com assessores mais próximos.

Num cenário que mostrava que todos ‘tinham culpa no cartório’, as manifestações populares e protestos — alguns agressivos — tomavam conta das avenidas das principais cidades brasileiras, em particular Rio e São Paulo, gerando instabilidade, insegurança e deixando o País à beira de risco institucional.

A sucessão presidencial de 2018

No ano da eleição a tensão foi ainda mais latente. Em abril Lula da Silva é preso e Bolsonaro se credencia como o candidato anticorrupção. Numa campanha odiosa, marcada por duros ataques de lado a lado, o pleito fi ca polarizado entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro. O Brasil se vê novamente dividido.

Bolsonaro é eleito com 55,13% dos votos, contra 44,87% do petista, diferença superior a 10 milhões de votos. Terminada a eleição e proclamado o resultado, o País fi caria menos tensionado — parecia cansado de tantos conflitos — e viveria meses de relativa calmaria.
Em 2019, a reforma da Previdência virou o centro das atenções, mas as declarações polêmicas de Bolsonaro — uma atrás da outra e ainda frescas na memória de todos — indicavam que a crise política se mantinha em pé.
O presidente usava o twitter como se fosse o canal oficial da Presidência da República. Nas redes sociais lançava ataques indiscriminados, declarações assombrosas e desprovidas de um mínimo de conexão com a liturgia do cargo.

Chegou a pandemia e 2020 foi o ano dos atropelos, dos erros e das confusões. Da elevação do tom, de novas declarações inoportunas, de enfrentamentos desnecessários e, no geral, de uma postura claramente belicosa, quando deveria ser conciliatória.

Enfim, essa tem sido tônica e a trajetória do Brasil desde 2014 e que, até aqui — já em meados de 2021 — vai se confirmando como “A Crise dos 7 Anos”.