Opiniões sobre o combate à Covid, aglomerações, volta às aulas e vacinação

O que disseram o juiz Elias Sader, o advogado Marcos Bruno e o empresário Mário Antonio Bittencourt. Aglomerações são o maior vilão

Guilherme Belido Escreve
Por Guilherme Belido
18 de maio de 2021 - 15h12

“A pandemia mostrou a face de um Brasil que há décadas sofre com serviços essenciais de má qualidade, rede hospitalar deficitária, saneamento básico precário e falta de um sistema educacional eficaz. Citando um único exemplo, a carência no transporte público se revelou um verdadeiro condutor do vírus, com as pessoas transmitindo o contágio entre si e ‘carregando’ o vírus para onde vão”.  

As considerações são do juiz Elias Sader, que sobre Campos destacou a “super louvável reabertura do  Restaurante Popular”, que considera iniciativa sobremaneira importante numa época de tanta pobreza, lembrando que não deveria ter sido fechado. Ressalva, contudo não ter “o menor cabimento reabrir com inauguração e promover tamanha aglomeração como a que se viu. Inoportuno e desnecessário” – disse o magistrado. 

Já o advogado Marcos Bruno alerta que o Brasil errou desde o início, particularmente ao não adotar o lockdown nacional, prolongado e de confinamento, nos moldes do que fizeram países europeus.  

Por seu turno, o empresário Mário Antonio Bittencourt acredita que Campos está atrasada na formatação de novos ambientes de negócios e que necessita ampliar os horizontes para sair da crise, segundo ele investindo maciçamente no agronegócio. 

Esses três depoimentos dão prosseguimento à série de relatos colhidos junto a  destacadas personalidades de diferentes segmentos de Campos, publicados em três edições consecutivas, que abordaram os erros e acertos no enfrentamento do novo coranavírus, lockdowns, ajuntamentos, imunização e reflexos na economia. 

As aglomerações foram citadas como o quesito que mais impulsionou a transmissão, bem como o atraso na compra de imunizantes. Para se ter ideia da tragédia, há um ano, em abril de 2020, a Covid matou 6.253 pessoas. Já no mês passado, o número de óbitos subiu para 82.401. Não por acaso, o Brasil supera a triste marca de 435 mil vidas perdidas. 

Por outro lado – mesmo lentamente – o número dos que tomaram a 1ª dose vai se aproximando de 40 milhões de brasileiros, o que acende a luz da esperança. 

Os depoimentos  

Magistrado de amplos conhecimentos, de decisões corajosas e ousadas, mas, ao mesmo tempo, norteadas pelo equilíbrio, não me deixo levar pelo parentesco de afinidade quando destaco qualidades incomuns do juiz Elias Pedro Sader Neto, que indo direto ao ponto acredita ter havido um excesso de proibição, ao invés de se proibir os excessos.  

“Deixo claro que não estou falando pela Justiça, mas como cidadão, e sob esse ângulo penso que em alguns lockdowns tenham havido enganos. Nos supermercados, por exemplo, certos produtos não podiam ser adquiridos, como uma simples sandália. Então o consumidor poderia entrar quantas vezes quisesse, permanecer pelo tempo que desejasse, mas não podia comprar uma Havaiana, ou uma faca. Ou seja, não faz qualquer sentido. 

Sob outro ângulo, você observa que o País tem uma deficiência no transporte público de décadas, e isso não mudou durante a pandemia. Logo, o próprio transporte passou a ser um condutor do vírus e não houve uma política pública eficiente para combater isso. 

Sabemos que o combate a uma pandemia é muito difícil. Mas, pergunto: na necessária e providencial reabertura do Restaurante Popular, havia necessidade de uma reinauguração, que promoveu a maior aglomeração no Centro desde que começou a pandemia? Evidente que não. Não caberia reinauguração, mas reabertura.  

Enfim – completou o magistrado – são tempos difíceis, mas espero que estejamos aprendendo com os erros e que dias melhores virão”. 

Advogado renomado, coordenador do curso de Direito da Faculdade Cândido Mendes, presidente do Tribunal de Ética Disciplinar da OAB do Estado do Rio, Marcos Bruno analisa as dificuldades da pandemia sob a ótica da interrupção das aulas desde o ensino fundamental até o Universitário. Para ele, o Brasil errou ao não fazer o lockdown lá no início, nos moldes de confinamento e por tempo prolongado, como adotado por vários países da Europa. E isso está custando alto. 

“A essa altura dos acontecimentos acho que o retorno indiscriminado seria uma aposta temerária, porque muitos professores fazem parte do grupo de risco e os jovens… enfim, os jovens tendem à aglomeração. Quando não nas salas de aula, no estacionamento, nos corredores, nas cantinas, etc. 

De mais a mais – lembra o advogado – as vacinas adotadas (a CoronaVac, em particular, a mais aplicada em Campos) é de caráter emergencial e temporário. Não estou lançando críticas, mas reconhecendo uma situação de urgência. 

A Cândido Mendes de Campos somava, antes da pandemia, cerca de 1.800 alunos. Caiu substancialmente mas, para nossa satisfação, nesses primeiros meses de 2021 tivemos aumento de 200 alunos transferidos de outras instituições, inclusive do Rio. 

Em todo Brasil vai haver um atraso curricular da ordem de dois anos – talvez até três. Mas, entre o retardamento – que é danoso – e a perda de vidas, temos que optar pelo mal menor. Daqui pra frente penso que vale ampliar mais um pouquinho o sacrifício para que o retorno à normalidade seja consciente e sem risco de retrocesso” – ponderou Marcos. 

Há 26 anos atuando no mercado Imobiliário como um dos principais empresários do setor, Mário Antonio Bittencourt lamentou que a pandemia tenha sido desastrosa para o setor, comprometendo, em especial, a taxa de desemprego, tendo em vista que a construção civil responde pela maior empregabilidade de profissionais de baixa escolaridade. 

O empresário, que ora está diversificando suas operações com o Agronegócio, o qual considera, inclusive, ser o melhor caminho para que Campos saia da crise, recorda que o mercado imobiliário recuou na virada de 2014 para 2015, quando da crise econômica instalada no Brasil, e não conseguiu recuperar o terreno perdido. 

“Quando pensávamos que o setor entraria em curva ascendente, veio a pandemia e paralisou tudo. O que se vê em Campos, por exemplo, são prédios residenciais cuja construção pararam no meio – acredito que no próximo ano retome – e os apartamentos que estão sendo comercializados são aqueles que já estavam em fase de conclusão e, como a oferta ficou bem maior que procura, só agora estão sendo vendidos. 

De todo jeito – prossegue Mário Antonio – os imóveis, via de regra, estão abaixo do preço de custo. Então será preciso uma readaptação no setor para que, sem perder a qualidade, as incorporações voltem a ser rentáveis. Veja bem: você compra um apartamento hoje, por exemplo, por 30% a menos do que comprava há 5 ou 6 anos.  

O que se vê é uma ligeira recuperação, uma melhora tímida que a partir de 2022 poderá ser significativa. Mas é preciso que gire mais dinheiro na cidade, que ficou na dependência dos royalties do petróleo e, com as quedas de receita, entrou em dificuldades. Para mim, nossa vocação e futuro está no agronegócio” – concluiu.