O desafio da volta às aulas em Campos no sistema híbrido

Comunidade escolar e especialistas têm opiniões divergentes; aulas começam a partir de 8 de março

Educação
Por Ocinei Trindade
21 de fevereiro de 2021 - 0h01

Centro Municipal de Educação Integral (Foto: Divulgação)

O início do ano letivo em 2021 com pandemia de Covid-19 é cercado por polêmicas e inseguranças. Sem vacinação em massa, professores, estudantes e pais questionam se é adequado voltar à sala de aula. O governo estadual sinalizou para o retorno gradual a partir de 1º de março de modo híbrido (presencial e remoto). A Prefeitura de Campos dos Goytacazes decidiu pelo mesmo formato a partir do dia 8, a começar pela educação infantil. A decisão gerou críticas por parte dos profissionais e pais, mas agradou a uma parte significativa da sociedade que apóia as aulas presenciais, mesmo aos poucos.

A Prefeitura de Campos desenvolveu o Plano de Implantação do Modelo Híbrido nas Unidades Escolares para funcionamento do ensino infantil e fundamental, prevendo a presença de até 30% dos estudantes nas unidades, com aumento escalonado de acordo com os critérios relacionados às fases epidemiológicas. São considerados os níveis de contaminação da Covid-19 no município e o cumprimento de protocolos de saúde na escola.

A educação infantil nas escolas públicas e particulares de Campos iniciará atividades entre 8 e 29 de março. A rede municipal vai começar com 10% das unidades escolares, ampliando para 50% das unidades em até 30 dias; e o total de escolas em até 60 dias. As aulas híbridas para o Ensino Fundamental em todas as escolas públicas e privadas terão início entre 22 de março e 22 de abril.

“Não se trata ainda de um retorno presencial, mas um modelo prudente e responsável, sem perder o foco na proteção dos profissionais da educação, alunos e seus familiares. Com base em evidências científicas e diretrizes dos Governos do Estado e Federal, o planejamento busca garantir a segurança sanitária com o menor risco possível para a comunidade escolar”, explicou o secretário de Educação, Marcelo Feres.

Para o advogado do Sindicato dos Estabelecimentos Particulares de Ensino, Bruno Lannes, a decisão é positiva. “O importante é que houve a anuência do Ministério Público na condução dos trabalhos e, portanto, o plano seguirá. Óbvio que o andamento e a evolução estão atrelados aos índices de segurança epidemiológica”, comentou.

Reunião Técnica | Ministério Público, Sindicatos, pais de alunos e Conselho Tutelar debateram sobre o retorno às aulas

A promotora da Infância e Juventude, Anik Rebello, informou que o Ministério Público acompanhará a retomada das aulas e o cumprimento das medidas de segurança. “Foi solicitada apresentação de calendário com estimativas para a vacinação de professores, e assegurado que o retorno dos estudantes será facultado a cada família, consideradas as peculiaridades de cada aluno, mantendo-se a oferta de ensino remoto aos que assim desejarem”, disse em nota.

A coordenadora do Sindicato dos Profissionais de Educação, Odisseia Carvalho, afirmou que o órgão é contra o retorno de atividades presenciais nas escolas em todo o Estado do Rio.

“Foi aprovada a Greve pela Vida. O secretário Marcelo Feres compreende a posição do SEPE no que se refere ao não retorno de aula presencial sem vacinação. Nossa posição é preservar a vida não só do profissional de educação, como também dos alunos. Nossas escolas não têm condições de receber os alunos com limpeza absoluta, com trabalho para proteção. Defendemos a vida. Retorno às aulas presenciais somente com vacina”, disse.

Mãe e filho| Verônica Marques e Nycollas foram ao Liceu buscar informações (Foto: Carlos Grevi)

Questionamentos
Em frente ao Liceu de Humanidades de Campos, tradicional escola estadual, a reportagem conversou com a técnica de enfermagem, Verônica Marques, e com o seu filho, Nycollas Fernando. Aos 11 anos, ele está matriculado para cursar o 6º ano. O menino estudava em uma escola particular no bairro Eldorado, em Guarus. A mãe foi à instituição em busca de informações sobre como serão às aulas a partir de 1º de março, mas saiu com incertezas.

“Não ficou claro como o Nycollas será orientado nas aulas remotas. Também não foi dito se ele terá acesso às aulas presenciais. No ano passado, apesar de ser à distância, ele teve toda atenção na escola particular. Com a crise financeira, optei pela escola pública, mas ainda não sabemos como será no Liceu”, disse Verônica.

A Secretaria Estadual de Educação afirmou que as unidades escolares não poderão desenvolver atividades presenciais enquanto o município estiver nas bandeiras vermelha e roxa, conforme a classificação de risco da Secretaria de Estado de Saúde. Nesse retorno, a prioridade é atender 70 mil alunos em situação de maior vulnerabilidade social, cerca de 10% da rede estadual. Por não possuírem dispositivo eletrônico para acompanharem as aulas remotas, os estudantes poderão ir à escola em sistema de revezamento para tirar suas dúvidas e ter acesso a recursos de áudio e vídeo. Pais e responsáveis também poderão optar pelo ensino exclusivamente remoto, caso desejem.

Preocupação
Para a pedagoga e professora Jovana Paiva, o retorno às aulas presenciais é arriscado. Ela considera a suspensão para reduzir a disseminação do Coronavírus.

“Para o momento não é adequado, uma imprudência eu diria. Essa proposta será viável após a população ter sido vacinada. A retomada das aulas deveria ocorrer com a doença epidemiologicamente controlada. Aí sim, a preparação das instituições de ensino de Campos seguindo o protocolo de segurança se fará necessário. O ensino remoto é a proposta adequada para este momento”, avalia.

A profissional de ensino se preocupa com a exclusão escolar.

“Há impactos negativos na aprendizagem e no desenvolvimento socioemocional dos estudantes, causados pelo isolamento social e pelo afastamento da escola. Porém, no ambiente escolar, me preocupa a falta do afastamento social (físico), o relaxamento nas medidas sanitárias de contenção do contágio e a propagação do vírus. O momento é de intenso aprendizado para pais e professores”.

Universidades
O retorno às aulas presenciais nas instituições de ensino superior também gera debates. De acordo com o diretor de marketing da Universidade Candido Mendes, Rodrigo Lira, o ano letivo deve considerar as condições sanitárias do município. Uma pesquisa interna identificou que alunos, professores e funcionários se sentem inseguros sobre aulas no campus.

“Enquanto essas incertezas permanecerem, continuaremos prestando os nossos serviços educacionais com a excelência de sempre de maneira remota em nossas graduações, mestrados e doutorado”, explicou.

O Instituto Federal Fluminense ainda avaliará a possibilidade de retorno de atividades pedagógicas presenciais regulares em 2021, assim como a revisão dos protocolos de biossegurança demandada pelo retorno. “No conjunto de ações também serão tratados os calendários acadêmicos de 2021 e a definição dos processos de acesso aos cursos da instituição. Tal análise ocorrerá ainda que o Governo do Estado do Rio de Janeiro tenha prorrogado o estado de calamidade pública, em virtude da situação de emergência decorrente da Covid-19”, informou o pró-reitor de Ensino, Carlos Artur Arêas.

A Universidade Estadual do Norte Fluminense foi procurada, mas não respondeu sobre retorno presencial. De acordo com a Associação dos Docentes (Aduenf), no dia 11 foi rejeitada veementemente o retorno às aulas presenciais enquanto não houver segurança sanitária. Foi defendida a inclusão digital dos estudantes para manutenção das atividades remotas.

ENQUETE ON-LINE
Antes da decisão da Prefeitura de Campos pelo sistema híbrido de retorno às aulas, o Terceira Via lançou em suas redes sociais uma enquete para saber da população a preferência pela forma de ensino (presencial, on-line ou híbrida). A postagem no Facebook envolveu mais de 26 mil pessoas com centenas de compartilhamentos e comentários. Pelas respostas, a maioria optou pela forma remota ou on-line. A reportagem selecionou alguns comentários dos internautas.

“Só seria possível um retorno presencial seguro se apenas os serviços essenciais – mercado, hospital e farmácia – atendessem presencialmente. Sem isso, o retorno às aulas presenciais é uma tragédia anunciada”. (Vansan Gonçalves)

“Imaginem as salas cheias. Crianças irão permanecer com máscaras, sem tocar em nada? A contaminação vai espalhar muito mais” (Beatriz Menezes)

“Prefiro o híbrido porque seria uma maneira a ser estudada para o retorno presencial permanente” (Mônica Alves)

“Aula presencial só com vacina! Vacinem os profissionais da educação” (Priscila Reis)