Um chester do peru provérbios da festa de Natal

por Cláudia Cunha

Geral
Por Claudia Cunha
27 de dezembro de 2020 - 0h01
   Jesus Cristo não cometia excessos gustativos e até jejuou por 40 dias e 40 noites. Entretanto, segundo o Novo testamento, o filho do Todo Poderoso; fundador do cristianismo e o Messias anunciado pelos profetas bíblicos, foi um apreciador da boa mesa. Não pelo simples prazer de comer e beber, mas, para exercer o apostolado. Através desses encontros a comunidade de discípulos foi se formando em torno de suas pregações e a ceia como uma forma de sociabilidade, repleta de simbolismos do corpo e sangue do Salvador.  Ele anunciou em banquetes, os dons escatológicos da salvação, a vida nova, a alegria e o perdão, como temperos da narrativa sagrada que preconiza a necessidade de alimentar bem o corpo, para a alma se sentir bem com a palavra sacramentada com ingredientes de sabedoria.
   Dentro do tempero do texto com a data histórica , foi em um solstício de verão durante o século IX que o papa Júlio I resolveu perpetuar o dia 25 de Dezembro como sendo o natalício de Jesus e, com o passar do tempo e, o pecado relevante da gula, pretexto para uma grande festa nazarenta em torno da mesa, que pedindo em oração, deveria estar sempre farta em igualdade capital para todos os fiéis com direito a multiplicação de pães e água transformada em vinho com a satisfação do apetite e, a glória no céu da boca.
  Santa Marta, irmã de Lázaro, padroeira universal dos cozinheiros, Rogai por nós com fartura, e assim seja, no congraçamento da crença com homenagens, o credo da teofania nas delícias impiedosas da gastronomia.
   Ave ! Tradicional Fiesta Seara da Epifania;  mesmo com pena por não caber em todas as bocas e fornos, o peru, ave galiforme muito Sadia do gênero Meleagris gallopavo, já nasce com o destino  condenado. Originária da América e teoricamente do México, depois de depenada de sua exuberância trazida do novo mundo por Cristóvão Colombo, continua com o vistoso leque de receitas a pavanear a data com a reputação consolidada e a cauda mergulhada em vinhas d’álho. Embora o andar desajeitado com que carrega a cabeça e o pescoço esquisitos  cobertos por uma pele carnuda e enrugada, minimilizem-lhe a beleza e  o deixem longe de ser uma referência estética, ainda mais agora, que o seu rival Chester, da espécie Gallus gallus, deixou de lado seu dorso misterioso e, peitudo perdigão na comemoração dos 40 anos da chegada de sua linhagem escocesa por aqui, resolveu se mostrar muito vivo e cevado, exibindo-se vestido para matar a fome de curiosidade dos paparazzi, todos em estado de ação de graças. Na manifestação de incredulidade, São Tomé queria ” ver para crer “. Na aparição da fé  ” crer para ver “.
   Para apimentar ainda mais esse diálogo de prazeres sacrossantos com a literatura clássica, Dom Quixote, herói famoso de Miguel de Cervantes ,declara seu julgamento para Sancho Pança: ” Antes prefiro um naco de pão escuro e uma cebola em casa, a refastelar-me com peru à mesa de outro homem “. A distopia.
   ” Mudaria o Natal ou mudei eu ? “,  como pressentira Machado de Assis em seu Soneto. Uma inspiração servida em bandejas, com as castanhas quebradas pelas adversidades pagãs . Inssurreição.
   Com seu elevado significado religioso, consagrando Deus e a humanidade, o sino toca chamando comilões e anoréxicos para a missa do Galo, anunciando na madrugada o fim de todas as trevas e trazendo as bênçãos das promessas de renascimento convertidas em sabores de um novo dia, em aliança com a Eucaristia, de caráter universal com os mistérios da Santíssima Trindade. A utopia.
  Sufoco no toque de recolher do que sobrou de um ano com as estações em  pandemia. Calvário.
  Respiração. Expiração. Aspiração . Tempo de abrir os melhores presentes nos ares regidos por São Nicolau. Ressurreição.
  Feliz Natal a todos!