Natália na primeira pessoa

Embora tenha ficado na 5ª posição, ela tornou-se a grande novidade das eleições municipais deste ano

Entrevista
Por Aloysio Balbi
22 de novembro de 2020 - 11h08

Ela perdeu ganhando. A jovem Natália Soares, formada em Serviço Social e professora de Filosofia, de apenas 31 anos, em sua primeira experiência eleitoral, candidata à Prefeitura de Campos, ficou em 5º lugar, e exibiu a menor rejeição entre todos os 10 outros candidatos. Passado o 1º turno, ela optou pessoalmente pela neutralidade no 2º turno, diz que ainda é cedo para pensar no futuro, como voltar em 2022 como candidata a deputada estadual pelo PSOL. No dia seguinte ao pleito ela voltou à sala de aula para exercer sua função de professora. Anônima para muitos, hoje é conhecida por milhares, e passou a ser a grande novidade destas eleições.

“Perdi ganhando”
Isso é uma verdade, porque conseguimos furar aquela bolha que nos definia como candidata de um partido academicista. Acredito que o espaço que tivemos lançando uma candidatura majoritária, nas mídias nos debates, fez com que a gente pudesse apresentar um projeto de cidade que efetivamente incluiu os pobres e os mais vulneráveis. Conversar com as pessoas na rua, olho a olho, escutar suas demandas e suas histórias de vida fez toda a diferença. Fazer ‘bicicletaços’ ao invés de carreatas anuncia um modelo mais ecológico de cidade. No dia da eleição nenhum dos santinhos que sujaram as ruas da cidade era de candidatos do PSOL. Adotamos uma nova forma de fazer política.

Uma Natália com mais força
Acho que não só a Natália, mas uma esquerda com mais força, com capilaridade, com mais destaque para as suas pautas e agendas. Foi perceptível a partir da nossa pouca rejeição como existe um campo fértil para o trabalho da esquerda no município. Um trabalho que paute a vida da população mais sofrida e que faça dela a prioridade. Essa é a principal pauta da esquerda. Fomentar a consciência de classe, fazendo com que os trabalhadores se reconheçam enquanto tais. Nem a utilização clientelista da política e nem o apagamento dos direitos sociais, mas a defesa desses últimos, os direitos sociais para todos. Isso pode reduzir as desigualdades gritantes dessa Campos.

Nova figura pública
Essa figura é uma construção coletiva. Foram muitas pessoas ouvidas na construção do programa que idealizamos. Ninguém chega sozinho a lugar algum. Quando hoje colhemos frutos de uma eleição que nunca tínhamos disputado e saímos bem sucedidas é possível perceber todas as pessoas que colaboraram ao lado, em todas as fases da campanha. Eu não me senti sozinha em nenhum momento. Então, essa figura que agora ganha mais musculatura na política é coletiva. Não fiz nada sozinha. Tem o esforço de muita gente.

Segundo turno
Não declararemos apoio a nenhum dos dois, porque eles representam projetos totalmente contraditórios aos nossos. Ao mesmo tempo, a gente não se furta a fazer qualquer diálogo que se torne necessário, inclusive em disponibilizar o nosso programa aos dois candidatos, já que nosso maior interesse é a população ser atendida. Mesmo se tivéssemos alguma proposta não seria intelectualmente honesto com o projeto defendido por nós. Feriria nossos valores incorporar a base de alguns desses governos. Nós da esquerda entendemos que a eleição é apenas mais uma das tantas trincheiras de lutas, por isso estivemos nas ruas contra os desmontes das políticas e serviços públicos e assim continuaremos, sempre ao lado da população.

Sem mulher na Câmara
Tenho até dificuldade de falar sobre isso. Como eu discuti a questão do gênero nos debates com outros candidatos, parecia um assunto trivial, mas não é. Estava falando da desigualdade entre homens e mulheres e hoje, a futura Câmara é o retrato fiel de uma Campos conservadora que restringe o espaço das mulheres. Quatro vereadoras entre 25 já era assustador. Difícil encontrar uma outra palavra senão “assustador”. Em pleno século XXI uma cidade de meio milhão de habitantes não ter uma única mulher no legislativo municipal é absurdo, é estranho, é inconcebível, é indignante, em suma é assustador mesmo. Por isso é importante debater e discutir essas desigualdades.

O futuro político
Já retomei a minha sala de aula. Dou aula a semana inteira. Mas quanto ao futuro na política a ficha ainda não caiu até porque eu nunca tinha pensando em me candidatar. Eu não vivo da política, não é a política que paga o meu salário. Diferentemente daqueles que ganham para fazer política e não fazem, ou fazem a má política, eu faço política o tempo inteiro buscando a boa política, pois todo posicionamento que afeta uma comunidade é política. Por isso posso dizer que continuarei na política, naquela que se importa com as pessoas e luta pela efetivação dos direitos sociais, como saúde, trabalho, assistência, educação. Quanto ao meu futuro eu não sei, mas espero fazer parte desta engrenagem de transformação cultural em prol de uma sociedade mais justa e humana.

2022
Eu acredito que o PSOL e a esquerda vão ampliar suas representações tanto no legislativo quantos nos governos estaduais. Sentidos os sopros de esperança que vem de países vizinhos da América Latina. Não fiquei feliz com a vitória do Joe Biden mas fiquei radiante com a derrota do Trump, que em certa medida representa uma derrocada para o Presidente Bolsonaro e suas ideias. São ideias sem comprometimento com a verdade, e anticientificistas. Isso é o que eu chamo de Bolsonarismo que é maior do que o próprio Bolsonaro. O Bolsonaro e suas ideias encolheram nestas eleições municipais. O vereador mais votado no Rio foi o professor Tarcísio Motta que ganhou inclusive do chamado 01, Carlos Bolsonaro, que até então era o campeão de votos. O PSOL também ampliou sua bancada na Câmara de Vereadores do Rio e certamente continuaremos crescendo, o que equivale a dizer que teremos muito mais visibilidade e seremos influenciadores nas eleições de 2022.

Uma Palavra para Campos
Eu acredito muito no nosso potencial enquanto campista. Eu amo ser campista. Acredito que temos que ter orgulho de quem somos e conhecer o máximo de nossa história. Sabendo isso, lutar para transformar e construir a cidade que queremos. Temos muito em Campos a síndrome de vira-latas, dando as costas para ela em busca de melhores oportunidades lá fora, e podemos juntos construir as oportunidades aqui, que passa a valorizar o que temos, e assim construir os sonhos. Campos pode muito mais. Pode deixar de ser conhecida pela sua tradição de cidade corrupta, que é assim que somos vistos lá fora, para uma identidade que valorize seus referenciais culturais: negras, indígenas, agroecológicas, entre tantas outras. Mais do que nunca é preciso esperançar.

Fake news
A esquerda em geral é a vítima preferencial das fake news. É preciso refletir por quê isso acontece. A fake news é uma espécie de cortina de fumaça para nublar a nossa pauta econômica que diz que a economia deve primeiro servir as pessoas e a vida antes de resultar em lucro de mercado. Essas notícias falsas embaralham a visão das pessoas sobre esse e outros temas da pauta. Relativizam a verdade. A quem interessa o não apreço pela verdade? A quem interessa que os pobres continuem na miséria? Àqueles que tiram a sua riqueza explorando os pobres. Essa pauta moral das fake news cria uma barreira entre as pessoas e os partidos de esquerda e muitas vezes impedem que as pessoas reconheçam que quem defende os pobres são esses partidos. Basta olhar as votações no Congresso Nacional e como se posicionam os partidos. Sempre estaremos ao lada da vida e dos direitos e contra os desmontes públicos.