Coluna do Balbi: Após assassinato do neto, Neguinho da Beija-Flor diz que deixará o Brasil

“ Negro aqui já nasceu suspeito”, disse o sambista

Estado do RJ
Por Redação
21 de outubro de 2020 - 12h28

Cantor Neguinho da Beija-Flor lamenta a morte do neto (Foto: Arquivo)

Com informações de O Globo

O assassinato de Gabriel Ribeiro Marcondes, de 20 anos, no Morro da Bacia, no Ambaí, no município de Nova Iguaçu abre um profundo debate sobre o racismo no Brasil, a partir do momento em que seu avô, o sambista Neguinho da Beija-Flor anunciou que vai deixar o Brasil.

“Negro já nasce suspeito”, afirmou o cantor e sambista , diversas vezes enquanto falava da morte do neto assassinado no último fim de semana. Gabriel foi um dos jovens três mortos entre os quatro baleados durante uma troca de tiros de policiais militares com bandidos na tentativa de impedir a realização de um baile funk. Neguinho falou da abordagem a moradores de comunidades e que, se um dia a pena de morte for implantada no Brasil, “não sobra um negro”.

Segundo o cantor, a família está “arrasada” desde a morte de Gabriel, no último domingo, dia 18. O caso intensificou a vontade de Neguinho deixar o país na busca por oferecer outras condições de vida para a filha Luisa Flor Morena, de 12 anos. “Ter filho negro no país, se pensar legalzinho, é uma responsabilidade muito grande. A gente fica preocupado”

O sambista comparou as situações pelas quais passou “na época em que não era o Neguinho da Beija-Flor”, ainda na juventude, em Nova Iguaçu. As abordagens policiais se ancoravam na “lei da vadiagem” e no preconceito estrutural. Refletindo sobre o que ainda vê e vive, diz que o filho Paulo Cesar Marcondes, pai de Gabriel, vai buscar justiça.

“Meu filho vai processar o Estado. A justificativa é a seguinte: “seu neto estava no lugar errado, na hora errada”. Queria que ele estivesse onde? Num shopping na Barra? Aqui em Copacabana? Se todo lugar no Rio é perigoso. É muito fácil fazer justiça em cima do negro sem defesa. Uma vez perguntei a um amigo, um grande jurista, sobre o que aconteceria se a pena de morte fosse aceita no país. Ele disse: “só vão viver os brancos, vão matar todos os negros”. Negros já nascem suspeitos. Em negro, atiram primeiro para depois saber quem é”, desabafou.

O sambista não deu data de quando pretende deixar o Brasil. O plano não é novo. Foi interrompido pela chegada da pandemia mundial de Covid-19. O tempo em casa sem os shows impactou as economias da família. “Há muito tempo. Só não aconteceu com a pandemia. Sem show, tive que gastar tudo, só saiu. O suporte que eu tinha, com essa finalidade, foi tudo. Não vou criar minha filha aqui depois do que aconteceu com o Gabriel. Não vou mesmo”, afirmou o cantor.