“O social será prioridade no meu governo”

Candidata do PSOL diz que não herdou nem condições nem discurso e que esse é o seu diferencial

Entrevista
Por Aloysio Balbi
18 de outubro de 2020 - 0h02

Formada em Serviço Social e professora de Filosofia, Natália Soares tem 31 anos e vive a primeira experiência na disputa de um cargo eletivo. É candidata à Prefeitura de Campos. Filha de motorista e de uma mãe que abandonou o trabalho para acompanhar o seu estudo, ela se define como quem saiu de uma família pobre, embora a fome nunca tenha batido à sua porta. Por outro lado, a sede de saber era inesgotável e ela bebeu em fontes diversas. Fez mestrado e doutorado em Políticas Sociais pela Universidade Estadual do Norte Fluminense – UENF.

De discurso ligeiro e pensamento organizado, ela monta bem seus argumentos e desmonta como poucos os que a antagonizam. Candidata por um partido considerado de extrema esquerda, ela diz que qualquer um que defende a Constituição passou a ser de esquerda na medida da régua dos que se definem de direita. Mas ela também tem a sua régua e compasso e aborda com desenvoltura os problemas de Campos. Centra seus argumentos nos assuntos sociais e promete destinar 3% do orçamento do município para programas de assistência.

Usando jeans e camiseta, ela é o retrato de sua geração. Faz uma campanha com pouco dinheiro no bolso, com assessores que não pode pagar, e com a ajuda de pessoas que pensam como ela. Uma jovem normal, que ainda não se casou, mas mantém um relacionamento sério como se diz nas redes sociais. Tão sério que o namorado compreende a correria da namorada, que não busca pódio de chegada, mas sim corre atrás de uma cidade melhor.

Você está concorrendo por um partido, visto pela direita assumida como o avesso dela, ou seja, de extrema esquerda. Como você define o PSOL?

A direita assumida requer uma moralização tão grande que vê nos defensores da Constituição seres de extrema esquerda, assim como definem os defensores dos direitos humanos, do meio ambiente e de qualquer tipo de diversidade. Basta não pensar como eles para serem definidos e rotulados como de extrema esquerda. Qualquer pessoa que luta pela pelas igualdades sociais é tida como esquerda também. O que eles vêm fazendo e “moralizando a política”, ou seja, esquecem outras pautas enquanto perdem tempo medindo as pessoas com a sua régua ideológica e afirmam que isso não é ideologia, mas é ideologia também sim.Como é a estrutura do PSOL?

O próprio nome já o define – Partido Socialismo e Liberdade. O que é pensar o socialismo? “O mundo em que sejamos socialmente iguais, humanamente diferentes e totalmente livres” – isso é uma citação de Rosa Luxemburgo. Significa que as diversidades individuais devem ser respeitadas, que as pessoas têm a oportunidade de levar uma vida digna, com direitos, direitos constitucionais, direitos humanos que envolvam Saúde, Educação, Cultura e lazer. Gosto de sublinhar o lazer, porque os pobres não têm acesso a lazer e nem mesmo a questões culturais. Saúde é um direito constitucional, mas não é vivenciada pela população de igual forma, assim como a Educação. Entender o porquê disso, e do acesso diferenciado aos direitos é o papel da esquerda, e a luta por um mundo mais humano, justo e com isonomia social.

Falamos da régua da direita, como é sua régua e o seu compasso?

As pessoas pensam erroneamente que o socialismo é socializar a pobreza, tornando todo mundo pobre, quando na verdade é criar condições para que a dignidade humana triunfe. Que tenhamos zero em mortalidade infantil e 100% em saneamento básico. Ricos e pobres existem, mas não podemos admitir a miséria.  O próprio jornal de vocês fez uma matéria excelente, mostrando que Campos tem 45 mil famílias abaixo da linha da miséria. Isso é assustador. Se pensarmos que Campos é uma das 47 cidades brasileiras de mais de R$ 1 bi/ano, e que historicamente recebeu muitos recursos de royalties e participações especiais pela exploração de petróleo, é inadmissível que tenhamos esse número de extrema pobreza, fome e sem saneamento.

Como incluir os pobres no orçamento?

A gente se candidata para pensar nestas alternativas e possibilidades de inverter esse padrão histórico da exclusão dos pobres no orçamento. A gente fala hoje em destinar 3% do orçamento, o que é pouco, mas suficiente para permitir o retorno de programas sociais, revisão dos critérios para a ampliação destes. É possível, por exemplo, reabrir o restaurante popular do Centro e abrir outro em Guarus. Retomar a passagem social e passe-livre para o público da assistência e desta forma que ele tenha direito à cidade. Eles não têm senso de pertencimento da cidade.

E quais as principais alterações na economia para atingir esse alvo, no caso, os pobres?

Falei em aumentar em um dígito o orçamento para os programas sociais. Pouca gente sabe que esse percentual nunca alcançou a 2%, mesmo nos tempos do dinheiro farto. Estamos falando em pautar a economia a partir dos pequenos. Diversificação da própria economia, valorizando os pequenos agricultores rurais, a agricultura familiar, os Quilombolas que produzem, os pescadores, as marisqueiras. Temos que valorizar o potencial econômico da cidade, ou seja, valorizar quem já produz, isso inclusive, é uma histórica forma de fixar as pessoas no campo. Estamos propondo uma legislação específica de controle do uso de agrotóxico, pois valorizar a agricultura familiar é consumir menos veneno. Isso reflete na Saúde e qualidade de vida de toda população. A gente tem a proposta de criar entrepostos em extremidades do município, para que sejam locais de venda e comercialização dos produtos e que a prefeitura venha a consumir prioritariamente esses produtos comprando dos pequenos. Isso, na merenda escolar, creche, hospitais, etc.

Explica essa questão da economia solidária que é uma das bandeiras do seu partido?

É pensar uma economia diferente dos moldes do capitalismo, deixando em um plano secundário o individualismo, a competitividade exagerada que pensa mais no lucro do que na vida. Como protagonistas, vamos valorizar as cooperativas, organizações de alto gestão, fornecendo suporte logístico e técnico para que a contratação de diversos serviços públicos ocorra com esses empreendimentos populares. Como é o caso da contratação direta das quatro cooperativas de catadores de materiais recicláveis no município. Atualmente, o município não faz a coleta seletiva. As cooperativas sabem fazer isso. Temos que observar que o serviço de coleta hoje pago a empresas é muito, mas muito caro e, mesmo assim, deixa a desejar, não atendendo às demandas do município. Não estamos falando que as cooperativas vão arcar com todo o serviço, e sim ter uma participação importante e fundamental na questão dos resíduos sólidos.

O fato de você ser assistente social e professora de filosofia é um diferencial diante dos seus adversários nestas eleições?

Eu acho sim que é um diferencial. A escola e também atuar como assistente social foi uma enorme experiência. Na faculdade de Serviço Social tive algumas respostas para as minhas inquietações internas. Desde criança me perguntava por que existia fome… por que crianças morriam desnutridas. Quando li o poema “O Bicho” de Manuel Bandeira estava no ensino fundamental ainda. Foi uma professora de português que me passou o texto. Eu questionei a raiz dos problemas das desigualdades. Tempos depois fui fazer Serviço Social. Sempre achei que se as pessoas pudessem atenuar a fome do outro o faria. Mas no serviço social ficou claro que não, porque fazer isso significa abrir mão de alguns privilégios, repartir e grande parte das pessoas não está muito interessada nisso. Comecei a entender as raízes da desigualdade, as contradições das elites, a miséria e por que ela existe. No segundo período do Serviço Social, trabalhei em uma pesquisa que traçava o perfil das famílias de baixa renda de Campos. Andava Campos inteiro. Presenciei toda essa miséria. Habitações sem o mínimo de saneamento. Casas sem banheiro e sem janela, ou seja, a questão de miserabilidade do município. Um quadro alarmante. Neste momento decidi que tinha que me posicionar de alguma forma. Essa pesquisa foi como o poema de Manuel Bandeira. Na escola a gente vê que a posição do professor extrapola muito o papel conteudista.  Os alunos têm diversas necessidades que vão aparecer nas escolas. É a questão de não ter condições materiais para suprir as carências, violência, drogas, tráficos, a questão da orientação sexual, conflitos familiares gigantescos.

Então o professor deixa aí de ser um vedor para ser um vetor de uma vida melhor?

Com certeza. Muitos desses jovens não tiveram uma família que sonhou com ele ingressando em uma universidade. Nosso papel é esse também, de ser incentivador, de identificar as potencialidades e trabalhar as dificuldades para superá-las. Sempre digo para meus alunos que quando a gente é pobre, a gente tem sempre que estudar o triplo das outras pessoas, e que a Educação é a única ferramenta capaz de mudar essa realidade. A Educação permite uma noção crítica para compreender e transformar. Vou além… se compreender e se transformar, não só a pessoa, mas todo o seu entorno, desde a família. Ele começa a entender o mundo e lutar para melhorar esse mundo. Tive um aluno que me disse que quem estuda filosofia está condenado a viver na tristeza. Eu disse que o conhecimento causa tristeza, pelo reconhecimento das mazelas, mas que também é poder, porque organiza a insatisfação que passa a ser instrumento da transformação.

Sem recurso, muito jovem e debutando na política partidária com adversários que herdaram condições e discursos, como você está fazendo sua campanha?

Acho que não sou tão jovem assim, pois tenho a idade de outros candidatos. Tenho mais idade do que Garotinho quando assumiu a Prefeitura de Campos pela primeira vez, com 29 anos, e também não sou tão jovem na política partidária, pois estou no PSOL há nove anos, me filiei em 2011. Agora, sou novata debutando na questão eleitoral. De fato não herdei condições e discursos, mas acho que esse é um dos meus diferenciais diante deles. Acredito na importância de pessoas comuns, que não vivem da política e entram para esses espaços para pautar uma nova forma de fazer política ao lado de outras pessoas. Eu amo ser professora e vejo essa questão como transitória, apesar do contexto ser dinâmico e não sabermos muito bem ainda. As pautas que defendo hoje, já as defendo há muito tempo. Presidi o Conselho Municipal de Assistência, acompanhei a luta dos pequenos agricultores do Açu expulsos de suas terras. Estávamos nas ruas contra as reformas Previdenciária, Trabalhista e agora a Administrativa, e contra o congelamento dos gastos com Saúde, Assistência e Educação por 20 anos. Trabalho desde os 18 anos. Ajudei a fundar, elaborando com outros colegas, o pré-vestibular social da Universidade Federal Fluminense – UFF- quando tinha apenas 20 anos. Não enxergo status neste cargo de prefeito. O que enxergo é trabalho e a possibilidade de fazer diferente.

Todos estão falando muito do inchaço da máquina pública. Como resolver esse problema?

A conta tem que fechar, mas sem o sacrifício dos servidores públicos que foram considerados culpados pela crise. A culpabilização dos servidores injustamente. O mais grave de pensar uma redução de servidores, é que eles são responsáveis pelo fornecimento de mão de obra em todas as áreas de serviços e políticas à população. Quando a gente fala que é preciso enxugar a máquina, o que está sendo proposto é a retirada, por exemplo,dos médicos do postinho, do professor da escola, da merendeira, do funcionário da limpeza e de tantas outras profissões que formam a oferta de serviços. Isso significa não apenas penalizar os servidores, mas também reduzir a qualidade de vida e o acesso de serviço à população. É preciso pensar em incrementar as formas de arrecadação municipal. Uma é diversificando a economia conforme exposto em pergunta anterior.

Caso você seja eleita, tudo tem que andar junto?

Temos uma perspectiva intersetorial, que possa articular e integrar as políticas municipais. Pensando em uma pessoa com deficiência, a gente precisa tornar as pessoas acessíveis a diversas políticas, como a mobilidade. Precisamos ter um desenho universal de cidade, para garantir o acesso das pessoas à acessibilidade. Uma política educacional inclusive, que garanta mediadores, cuidadores, intérpretes de libras por exemplo, no caso de deficientes auditivos. Na Saúde a gente pensa em um centro integrado para pessoas com deficiência com uma equipe multiprofissional como terapeuta ocupacional, fisioterapeuta, médico, assistente social, psicólogos, etc. Esse exemplo é para mostrar como as políticas precisam funcionar de modo articulado, e tudo atrelado aos orçamentos. As pastas precisam ter destinação de recursos. A gente pensa em todos os serviços, como a criação de Centros Comunitários com biblioteca, atividades culturais, esportiva, principalmente para a juventude e também idosos. Tudo isso mais próximo dos bairros. É preciso descentralizar os serviços. Na Saúde, dar enfoque será a prevenção do agravamento, restabelecendo a estratégia do Programa de Saúde da Família, garantindo agentes comunitários, equipes de trabalho suficientes e implantar um Núcleo Ampliado de Saúde da Família, com equipe multiprofissional. Se trata de pensar atividades e serviços acontecendo nos bairros, permitindo acesso aos direitos. Tudo tem que andar junto, e é por isso que se chama máquina administrativa.