Quem é quem na disputa pela posição de primeira-dama/cavalheiro de Campos

A figura da primeira-dama ainda gera curiosidade na história da política brasileira e internacional.

Política
Por Ocinei Trindade
18 de outubro de 2020 - 17h12

Em novembro, eleitores decidem quem será o prefeito ou prefeita de Campos nos próximos quatro anos. Há quem não associe um líder político ao casamento tradicional. Porém, a figura da esposa de um prefeito, governador ou presidente da República, há décadas, sugere um questionável status de “primeira-dama”, que pode ajudar (ou não) um governante. Este ano, em Campos, duas mulheres concorrem à prefeitura. Apenas um candidato é solteiro. O “primeiro-damismo” tem ressurgido no Brasil. Historiadores consideram que padrões machistas e conservadores se reproduzem na política. A primeira-dama é também parte disto.

Em Campos, esposas de prefeitos marcaram diferentes épocas. Entre elas, Zaíra Barbosa, viúva de Zezé Barbosa; Elizabeth Aguiar, viúva de Raul Linhares; a ex-governadora e ex-prefeita Rosinha Garotinho que antes foi primeira-dama do ex-governador e ex-prefeito Anthony Garotinho; a ex-vereadora Ilsan Vianna que foi casada com Arnaldo Vianna, só para citar algumas. Na história dos governos do Brasil, ex-primeiras damas se destacaram como Darcy Vargas, Maria Tereza Goulart, Rosane Collor, Ruth Cardoso, Marisa Silva, Marcela Temer. Nos Estados Unidos, Eleonor Roosevelt, Jacqueline Kennedy, Hillary Clinton e Michelle Obama foram fenômenos. Na Argentina, Evita Perón se tornou mito. O fascínio por essas mulheres persiste.

Para a historiadora Sylvia Paes, a figura da primeira-dama é a “afirmação feminina em um governo do qual ela não participa politicamente, mas contribui indiretamente para a boa imagem de seu cônjuge, garantindo uma estabilidade e confiança”. Outro historiador, José Fernando Rodrigues, considera a imagem da primeira-dama ainda relevante na política tradicional. “Cria no imaginário  popular a ideia de par, conjunto, família bem estruturada”, define.

Já a assistente social, Eliana Feres, lembra que a imagem da primeira-dama ficou marcada por meio da Legião Brasileira de Assistência (LBA), implantada em 1942 por Darcy Vargas.  “A concepção de assistência social nesta época ocorre como ato de boa  vontade e não de direito, mantendo-se nessa configuração até a década de 1980. É dessa forma que o “primeiro damismo” tornou-se um traço peculiar na administração da assistência social no Brasil”, avalia.

Marivalda Benjamim | ex-primeira-dama Foto: (Arquivo Pessoal)

Tradição e modernidade

Em 1993, Campos passou a ser governada pelo prefeito Sergio Mendes. Na época, ele se casou com a então secretária municipal de Promoção Social e presidente da Empresa Municipal de Habitação, Marivalda Benjamim. Ela diz não se encaixar no perfil de primeira-dama tradicional.

“Penso que a figura da primeira-dama seja importante e influente para a imagem do Executivo, por sua formação político-ideológica e profissional, empatia e determinação para enfrentar e colaborar na definição de políticas públicas. Nunca incorporei essa figura de primeira-dama porque ocupei cargos públicos. Não existe definição do papel do cargo ou função para primeira-dama em qualquer governo. Tentei ser o mais discreta possível, além de  companheira, colaborar com sugestões e me colocar à disposição para os grandes desafios e embates”, explica Marivalda.

Sylvia Paes recorda um episódio histórico na Europa. Ela costuma comparar a primeira-dama às esposas de antigos reis.

“Ela reina, mas não governa. Foi emblemática a figura da francesa Leanor da Aquitânea, esposa de Luiz VII da França, e depois de Henrique II, da Inglaterra. Participou de batalhas para garantir o trono para seu filho João. Com seu carisma, ganhou do povo inglês aprovação para ele reinar. A primeira-dama pode ajudar a construir uma figura pública ou derrubar seu companheiro. Cito Rosane Collor e a atual Michele Bolsonaro mencionadas em transações financeiras suspeitas. Mas tivemos também Anita Peçanha, esposa de Nilo Peçanha, um exemplo de dignidade e companheirismo”, comenta.

Em 2011, a única mulher eleita para Presidência do Brasil, Dilma Rousseff, era divorciada e não assumia publicamente nenhum relacionamento. Na época, de algum modo, comentários preconceituosos surgiram sobre seu estado civil.  “Alguns reproduzem um padrão conservador violentamente. A política brasileira é conservadora, herdeira de um modelo aristocrático, escravocrata, patriarcal e reacionário.  Na hora de competir, esquerda e direita querem usar as mesmas ferramentas, de construir família, passar uma imagem de seriedade. Acho lamentável que para se inserir alguns reproduzam um padrão. Quem tem uma orientação sexual diferenciada acaba sendo um outsider”, comenta José Fernando Rodrigues.

A assistente social Eliana Feres lembra que, em 2016, o “primeiro damismo” retornou ao Brasil com Marcela Temer, a jovem esposa de Michel Temer. “Ela criou o equivocado programa Criança Feliz com a proposta da antiga LBA, extinta por Ruth Cardoso (que detestava a figura da primeira-dama; preferia ser chamada de antropóloga). Marcela retornou ao assistencialismo e solidariedade, rompendo com a lógica do direito e desrespeitando a Lei Orgânica da Assistência Social e o Sistema Único da Assistência Social”, critica.

Esposas, maridos, namorados

Em 2020, dos 11 candidatos à Prefeitura de Campos, apenas Lesley Beethoven (PSDB) se declara solteiro neste período. A candidata do PT, Odisséia Carvalho, é casada há anos com o professor Eduardo Peixoto. Já a candidata do PSOL, Natália Soares, mantém um relacionamento longo com o psicopedagogo Caio Brito. Caso uma delas se eleja, repetirá a experiência de Rosinha Garotinho na Prefeitura de Campos sem a figura da primeira-dama.

Na disputa eleitoral de Campos, podem se tornar primeira-dama a professora Jô Henriques, casada com Roberto Henriques (PCdoB); a dona de casa Ângela Souza, casada com Cláudio Rangel (PMN); a pedagoga Michela Freire, esposa de Alexandre Tadeu (Republicanos); a pedagoga Pollyanna Paes, casada com Jonathan Paes (PMB); a designer Kamila Lamônica, esposa de Bruno Calil (Solidariedade); a dona de casa Tassiana Oliveira, casada com Wladimir Garotinho (PSD); a advogada Luana Albernaz, casada com Caio Vianna (PDT); e a publicitária Renata Veloso Diniz, atual esposa do prefeito Rafael Diniz (Cidadania) que concorre à reeleição.