Imprudência no trânsito é considerada por especialista como grave problema em Campos

A coordenadora do Sest/Senat, Adriana Moreira, defende o respeito às leis e regras para combater a violência no trânsito

Entrevista
Por Ocinei Trindade
28 de setembro de 2020 - 15h38

A coordenadora do Sest/Senat em Campos, Adriana Moreira (Fotos: Reprodução/Arquivo)

Neste mês, acontecem campanhas educativas para tornar o trânsito de veículos nas cidades mais humanizado e livre de acidentes. Em Campos, só este ano, o Hospital Ferreira Machado fez quase 3.500 atendimentos a vítimas de acidentes no trânsito. Até o dia 23 de setembro, 359 pessoas se envolveram em acidentes de carro; 785 em acidentes ciclísticos; 2.024 com motocicletas; e outras 267 pessoas foram atropeladas. A coordenadora do Serviço Social do Transporte e Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte (Sest/Senat) em Campos, Adriana Moreira, concedeu esta entrevista ao Jornal Terceira Via. Ela cita os principais problemas e propostas para combater a violência no trânsito.

Setembro se destaca pela Semana Nacional do Trânsito. Como o Sest/Senat avalia esse período?

O Sest/Senat realiza Campanha Nacional para marcar e dar a devida importância ao tema tão relevante. Não só em Campos, mas em todo Brasil, durante a Semana Nacional do Trânsito, o SEST SENAT está presente em mais de 150 pontos de atendimento por todo o país. A ação em 2020 tem foco junto aos motoristas, cobradores e passageiros de coletivos e tem o objetivo de mostrar como os ônibus podem ser tão seguros quanto qualquer outro espaço público, desde que cada um faça a sua parte. A campanha tem cunho educativo e a abordagem tem sido feita também direcionada à população campista no Terminal Urbano localizado na Avenida XV de Novembro e no Terminal Rodoviário de Campos. Fazemos palestras com direcionamento voltado para empatia no trânsito.

Como tem observado o trânsito na cidade de Campos?

Não só em Campos, mas em muitas cidades do Estado, o que se verifica é uma constante imprudência, seja por parte de pedestres, ciclistas, motociclistas e motoristas em geral. Claro que não podemos generalizar, mas há um número grande de acidentes diários que mostram na prática os resultados de travessias fora de faixa de pedestre, ultrapassagem de velocidade nas vias, ultrapassagem de semáforos. Um trânsito marcado por muita imprudência, mesmo com as leis do Código de Trânsito Brasileiro (CTB) estando mais rigorosas a cada ano. Quantas vezes nos deparamos com veículos parados em ruas movimentadas para que alguém desça ou entre no carro? Quantas vezes nos deparamos com motociclistas que reduzem a velocidade, emparelham suas motos para ficarem conversando sem se importarem com o que está atrás deles? E os praticantes de atividade física que correm em locais diferentes dos seguros ou destinados à prática de tais atividades? Esses casos podem ser verificados de forma rotineira. São muitas as situações que fazem com que Campos esteja enquadrada em um péssimo exemplo no trânsito.

Avenida José Alves de Azevedo, área central de Campos  (Foto: Reprodução)

Quais os maiores problemas?

Os maiores problemas no trânsito estão ligados a imprudência, negligência, distração. A chamada falta de atenção causada por diversos fatores, mas em muitos casos o nosso “amigo inseparável”, o celular. O maior responsável por causar acidentes é a distração. Então, teclar e dirigir não combinam de forma alguma. Cerca de 80% dos acidentes ocorrem porque alguém deixou de ver alguém ou algo. A direção, após ingestão de bebida alcoólica, também é fator de destaque. Todos devem se lembrar que não existe a frase “foi só um golinho”. Um outro grande problema no trânsito é também a falta de empatia, ou seja, as pessoas se colocarem mais no lugar das outras. A falta de educação por parte dos indivíduos, além de outros fatores compõem o cenário de negligência. Se fizermos pesquisas ou viajarmos para alguns lugares do Brasil, iremos verificar que atrelamos a boa educação no trânsito à cultura do lugar. Em várias cidades de Minas Gerais e Espírito Santo, por exemplo, nem muito distantes de Campos, verificamos claramente  diferença do respeito no trânsito. O pedestre, ao pisar na faixa já é respeitado. Infelizmente, a questão cultural corrobora para os problemas relacionados ao trânsito.

O que tem sido feito para minimizar ou combater essas dificuldades no trânsito?

Algumas empresas vêm buscando aprimoramento profissional dos motoristas contratados através de treinamentos voltados para direção defensiva ou preventiva, além de trabalho constante de conscientização que atinge a todos os níveis da empresa, incluindo até mesmo aquelas funções que não utilizam carros ou caminhões. Acredito que as escolas também possam contribuir, incluindo de forma direta atividades relacionadas ao trânsito. Se enxergarmos que a conscientização e a aprendizagem começam de novo, essa criança se tornará um adulto responsável em atuar de forma segura no trânsito.

Um trabalho muito interessante em que percebemos os bons resultados foi a implementação dos agentes educadores de trânsito, pois eles não tinham abordagem com cunho punitivo, e, sim, orientativo. Ouvi muitos relatos das pessoas que passaram, por exemplo, a usar regularmente cinto de segurança, pois assim que os via nos sinais, já lembrava da obrigatoriedade até se tornar automático entrar no carro e colocar o cinto de segurança antes de dar a partida. Um número grande de pessoas usando carros de aplicativos e táxis vem sendo observado de forma contínua para as “saídas” dos jovens que gostam de beber sua cervejinha, irem em shows, etc. Lembrando que, a fiscalização dos órgãos competentes é fundamental para se fazer cumprir as normas de trânsito. Essas ações em conjunto promovem um trânsito mais seguro para todos. As pessoas devem lembrar que uma atitude imprudente no trânsito pode acarretar mortes, incapacitação física, perdas materiais e até comprometimento psicológico de difícil superação.

Trânsito prejudicado após acidente na Avenida Nilo Peçanha em outubro de 2019 (Foto: Arquivo)

Acidentes e incidentes no trânsito neste período têm sido observados em maior ou menor proporção em relação a anos anteriores?

O Brasil reduziu, entre 2010 e 2018, em 32% a mortalidade por lesões de trânsito. Em 2019 os números voltaram a crescer. Devemos considerar que 2020 está sendo um ano atípico devido à pandemia. A cidade de Campos teve três meses com redução de 80% de circulação de veículos aproximadamente. Há reflexos ainda hoje, uma vez que os veículos não estão circulando em sua totalidade, refletindo ainda uma média de redução de aproximadamente 40%, se comparado à normalidade dos tempos sem pandemia.

Quais sugestões para melhorar o desempenho de motoristas na cidade?

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, o Brasil é o país com maior número de mortes de trânsito por habitante da América do Sul. Significa o quarto maior do mundo, com 30 mil mortes no trânsito no ano de 2019. Nossos motoristas, ciclistas e pedestres precisam se atentar cada vez mais para a atenção e a distância segura necessária para percorrer o percurso desejado. Os pontos cegos podem ser minimizados com regulagens realizadas no banco, espelhos e cinto de segurança. O desempenho de condutores pode ser melhorado com responsabilidade vinculada à condução, além da preocupação com a segurança de todos. De nada adiantam as técnicas e habilidades se as regras impostas para circulação não forem respeitadas. Com conhecimento, atenção e previsão, aliados a decisão e habilidade, praticamos um trânsito mais seguro e prevenimos os acidentes salvando assim muitas vidas.