BALAS & FLORES “o mundo é um moinho e vai reduzir as ilusões a pó”

por Cláudia Cunha

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Por Claudia Cunha
27 de setembro de 2020 - 0h01

Plena primavera, estação das flores no capítulo da premissa comestível que frequenta o dia a dia da nossa mesa,  uma refeição cultivada por elas, é um vaso gastronômico horizontal, ornamentando saúde, sabor e poesia. A alcachofra,  menos usual,  prima rica do brócolis e da couve flor, conversa com a língua de um amor-perfeito com o uso medicinal de pratos antecedendo o verão de  girassóis, tão amarelos quanto flores de abóbora, mas, refinados como o óleo que bronzeia na quentura condenada, encharcada com o código penal do tiroteio de gorduras saturadas com a fritura.

Dia de São Cosme e São Damião, na beleza da essência, flores também têm cheiro de morte, em vidas despetaladas por  balas perdidas, que tiraram o doce da boca e mataram 15 crianças e jovens no Estado do Rio no primeiro semestre e, tiveram outras 8 infantes e adolescêntes feridos em confrontos bélicos, provocados entre o embrulho de policiais e o bagulho de grupos armados.
Enquadradas no fogo cruzado com mãos armadas por utensílios de  diferentes utilidades,  arremessadas entre o descarrego do pente do  projétil assassino e a calda refinada em fio duro de calibre bandido da goma de mascar  periculosamente  açucarada, embalam respectivamente, sentimentos de tristeza e  alegria como papilotes que perambulam despoliciados por ruas, avenidas e morros de degraus espinhosos. No dia de hoje, no êxtase do prazer e euforia, atrás de sacos de guloseimas em formas de balas e, amanhã, extasiados pela dor com balas pela frente e pelas costas, inclusive através de paredes, paralelas com batidas que extrapolaram o alvo do coração e pararam o cérebro.
No jardim florido de capuchinhas, begônias, calendulas, gerânios, crisântemos, alfazemas e violetas, a explosão em bouquets próprios para serem consumidos como degustação, transformados em Corbélias, miradas sobre o túmulo e atiradas como o último adeus sobre a lápide da pessoa amada e querida no canteiro do cemitério.
Brincadeira de roda no céu da boca traficada com o palato exalando perfume roubado de flores e o pique-esconde de tulipas vermelhas servindo sangue de inocentes derramados pela droga do crime organizado com a pólvora do fuzil de entorpecentes, bolinhas de gude na guerra de facções com a invasão militar, de todos mortos pela glória.
   Por fim, como diz a letra escrita por Cartola, o mundo é um moinho e vai reduzir as ilusões a pó.           Queixo-me…
   As rosas sempre falam com as balas.