Setores ainda fechados pela pandemia em risco de falência

Salões de festas, creches e ramo de entretenimento vivem sem expectativa de recuperação a curto prazo

Economia
Por Thiago Gomes
13 de setembro de 2020 - 0h01

Sem apresentação | Há quatro anos Marcelo Benjá vive exclusivamente da música (Fotos: Carlos Grevi)

Enquanto alguns segmentos da economia comemoram a retomada gradual das atividades, outros ainda não têm sequer previsão de retorno. Músicos, atores e quem vive da indústria da festa, como operadores de som e técnicos de iluminação, são apenas alguns exemplos de profissionais que amargam prejuízos desde o início da pandemia, já que dependem de aglomeração para ganhar a vida. A perda da renda dessas pessoas veio justamente por causa do isolamento social, que é uma das medidas preventivas para conter a proliferação do novo coronavírus, que até o dia 10 de setembro havia matado 333 campistas e contaminado outros 5.105. O setor de eventos foi o primeiro a parar e, possivelmente, será um dos últimos a voltar.

Marcelo Benjá é um músico campista que há quatro anos deixou a antiga profissão para viver exclusivamente de sua arte. Formado em Tecnologia da Informação (TI), ele trocou os computadores pelos palcos e, até o início da pandemia, fazia uma média de quatro apresentações por semana. De repente, em março de 2020, se viu sem renda alguma. No caso de Benjá, a esposa, que é professora, assumiu as despesas da casa enquanto o músico está impedido de trabalhar. Hoje, ele voltou a fazer alguns serviços de TI para complementar a renda da família e aguarda com ansiedade o reencontro com seu público. Até o projeto de um disco, que já estava sendo gravado, precisou ser adiado por Benjá.

“Para mim foi um baque muito grande, porque eu sempre tive a certeza de que o ramo do entretenimento não pararia nunca. E quem é músico depende de aglomeração para trabalhar. Talvez o que mais nos angustia, neste momento, seja a falta de perspectiva, de não saber como e quando isso tudo vai terminar e não saber como o mercado estará até lá. Ou seja, não temos certeza sobre absolutamente nada”, lamentou o músico.

Benjá lembra que em algumas cidades, como Cabo Frio e Búzios, já é permitida a apresentação de profissionais da música e isso o tem deixado esperançoso. No caso de Campos, em sua opinião, os decretos que regulamentam a retomada da atividade econômica e social na cidade têm sido muito permissivos com alguns segmentos e restritivos demais com outros.

“Conversando sobre o assunto com alguns músicos, a gente chegou à conclusão de que essa postura de Campos é um pouco contraditória, pois se o restaurante funciona, mesmo que com capacidade reduzida, por que não pode haver apresentação de voz e violão também com as restrições e os cuidados necessários?”, questionou Marcelo.

A Superintendência de Entretenimento e Lazer informou que preparou um protocolo que será analisado pelo Departamento de Vigilância em Saúde mas, no momento, não há perspectiva de retomada deste setor na atual fase. “O órgão segue em diálogo com o segmento. A fiscalização tem atuado de forma intensa, principalmente no período noturno, com o objetivo de evitar a proliferação do vírus e preservar vidas”, informou a Superintendência em nota.

Rafael Carvalho é músico e engenheiro (Foto: Reprodução)

Solidariedade

Como alguns artistas estão impedidos de trabalhar, outros profissionais do meio que têm uma atividade complementar formaram uma corrente de solidariedade para ajudar os colegas que estão em dificuldade financeira. Este lado solidário da pandemia foi destacado pelo músico Rafael Carvalho. Recém-formado em Engenharia de Produção, ele começou a trabalhar em sua área de formação no período da Covid-19, já que, antes, vivia exclusivamente da música. Para quem não teve a mesma sorte de Rafael, resta contar com a solidariedade dos amigos.

“A realidade é muito triste. A gente, que estava acostumado a viver com quatro a seis eventos semanais, sentiu muito esse impacto. Eu, graças a Deus, tive suporte da família e outra fonte de renda. Mas para quem vive só de fazer música, a situação está complicada”, destacou.

O músico teve que adiar apresentações já contratadas e, inclusive, chegou a devolver valores pagos antecipadamente pelos contratantes.

Sem festa | Giovana e Geysa estão com o salão parado e aguardam para voltar a receber as crianças nos eventos

Salões de festa vazios

Uma única festa pode envolver profissionais dos mais diversos tipos, como decoradores, cozinheiras, garçons, manobristas, carregadores, motoristas, seguranças, pessoal da limpeza e de apoio, entre outros. De repente, estas pessoas (e tantas outras) se viram sem emprego e tendo que se virar para pagar as contas no fim do mês.

O salão das irmãs Geysa e Giovana Viana, que fica no bairro do Jockey Club, não fazia festas para menos de 100 convidados, que era o pacote mínimo oferecido. Nestas ocasiões, pelo menos outros 11 profissionais estavam envolvidos. Nos eventos maiores, o número de empregos gerados chegava a dobrar. A última comemoração no local ocorreu em um domingo, dia 15 de março, e, a partir daí elas tiveram que reinventar o negócio. Uma alternativa encontrada pelas empresárias foi oferecer “kits festas” pré-prontos para que as próprias pessoas possam montar em casa.

Geysa conta que a agenda da casa de festas estava lotada e que foi necessário adiar 64 comemorações. Segundo a produtora de eventos, por sorte, nenhum contrato já fechado antes da pandemia precisou ser cancelado até agora. Mas a queda brusca no faturamento preocupa a família. “Há cerca de um ano nós direcionamos o foco do salão para festas infantis. Para isso, investimos muito. Inclusive, começamos a construir outro salão e tivemos que parar a obra por causa da incerteza que a pandemia trouxe para todos”, relatou.

Giovana acredita que é possível fazer festas de forma segura, respeitando protocolos rígidos de segurança, assim como já acontece em diversos setores da economia. A empresária participou de uma reunião, no dia 31 de agosto, com a superintendência municipal de Entretenimento e Lazer de Campos para discutir a reabertura do setor. E ela disse ter saído esperançosa do encontro.

“Não dá para negar a pandemia, que a doença é grave, mas é possível fazer eventos de forma segura, por exemplo, com redução da capacidade dos salões. Durante a reunião nós sugerimos que os eventos passem a ter apenas um terço do público”, diz Giovana.

Festas clandestinas

Conforme destacou Giovana, restaurantes não estão autorizados a abrigar eventos, mesmo que para público reduzido. E casas de festas com espaços abertos também não. “A gente quer voltar a trabalhar, mas de forma segura e dentro da lei. Não vamos fazer eventos clandestinos, como tem acontecido com frequência na cidade. Basta olhar as redes sociais com várias fotos de eventos para ver que tem havido desrespeito neste sentido”, comentou Giovana.

Sobre a denúncia, a Prefeitura de Campos informou que a atuação dos agentes da Força-Tarefa de Combate ao Coronavírus prossegue em todo o município, principalmente de forma educativa, num reforço a importância ao cumprimento das medidas de isolamento social, dentro do Plano de Retomada das Atividades Econômicas e Sociais.  Até o último mês, mais de cinco mil fiscalizações ao comércio haviam sido realizadas e aplicadas mais de 400 multas por descumprimento de regras, desde o decreto 33/2020, de 20 de março de 2020.

Para denúncias, as pessoas devem entrar em contato com o telefone da secretaria de Segurança Pública (22) 98175-2058 ou da superintendência de Postura, através do número (22) 98168 3645. A Guarda Civil Municipal também pode ser acionada através dos números (22) 98175 0785 e 153.

De grandes festas a encontros intimistas

Para não fechar as portas, um bufê precisou demitir funcionários e focar em eventos menores, que são realizados nas residências dos próprios clientes. Em período normal, a empresa trabalhava com uma média de 80 a 100 garçons. As festas, que eram planejadas para 300, 400 pessoas, hoje não passam de reuniões intimistas para evitar aglomeração.

Sócio do bufê, Rafael Barreto lembra que a última festa que fez em um tradicional salão de Guarus foi em 14 de março, um sábado. Apenas naquele fim de semana, a empresa realizou três eventos. Desde então, foi necessário adiar 51 festas, a princípio, para 2021 e devolver o dinheiro já pago por dois clientes que desistiram das comemorações.

“Para não demitir mais pessoas, tivemos que nos reinventar. Passamos a fornecer salgadinhos no sistema delivery e focamos em eventos pequenos em residências, seguindo os protocolos sanitários”, disse Rafael, que conseguiu manter mais de 50% da equipe.

“Outras cidades já conseguiram retomar atividades no ramo de eventos, em parte, por empenho das pessoas que trabalham com isso. Em Campos, já começamos a dialogar com a prefeitura sobre o assunto e isso já é uma luz no fim do túnel”, disse.

Sem data para reabertura | Simone Lopes é diretora de uma creche que já perdeu cerca de 60% dos contratos

Creches silenciosas

A diretora administrativa de uma creche localizada no bairro do Horto, Simone Lopes, que trabalha com crianças entre 3 meses e cinco anos, destaca que os profissionais que atuam com essa faixa etária são os mais impactados na Educação. “Isso porque não existe obrigatoriedade para que os pais mantenham seus filhos menores de 4 anos matriculados”, comentou. Dos 40 alunos, cerca de 60% já deixaram a unidade escolar.

Para Simone, é possível retomar a atividade das creches, desde que observados protocolos rígidos de segurança. “Muitos segmentos já voltaram. Com isso, os pais não têm com quem deixar seus filhos, pois as creches permanecem fechadas”, comentou a diretora.

Simone Lemos

Todo o funcionamento do segmento de Educação Infantil, mesmo o privado, é regulamentado pela prefeitura. De acordo com o Departamento de Vigilância em Saúde ainda não é o momento adequado para o retorno das aulas, uma vez que o município ainda não apresenta uma diminuição sustentada dos casos.

“O Conselho Municipal de Educação (CME) aprovou no dia 2 de setembro a proposta de encaminhamento do ano letivo 2020 da rede municipal de Campos, encaminhada pela Secretaria de Educação, Cultura e Esporte (Smece). O documento, criado em virtude do estado de calamidade provocado pela pandemia, estabelece o retorno das aulas presenciais apenas em 2021”, destacou a Prefeitura em nota.

Indústria do entretenimento

Um levantamento feito pelo Sebrae, em abril, mostrou que a pandemia do coronavírus afetou 98% do setor de eventos. O impacto provocado pela Covid-19 também fica evidente, segundo o órgão, observando o faturamento do setor. Em comparação ao mês de abril do ano passado, 62,5% dos entrevistados acreditam na redução de 76% a 100% do faturamento em abril de 2020.

Desemprego no setor

A Apresenta Rio — associação formada por diversas empresas da indústria do entretenimento e tem como objetivo integrar a vasta cadeia produtiva desta área estima que 1,5 milhão de pessoas que trabalhavam no ramo do entretenimento perderam o emprego no país no período de pandemia. Aproximadamente 450 mil desse total (pelo menos 30%) estão no RJ. O diretor-presidente da Apresenta Rio, Pedro Augusto Guimarães, acredita que até dezembro de 2020 o prejuízo na área de shows e eventos no Rio alcançar a marca dos R$ 70 bilhões.