Eleições municipais daqui a dois meses 

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Guilherme Belido Escreve
Por Guilherme Belido
13 de setembro de 2020 - 0h01

Em pleitos enxutos pela pandemia, a difícil missão de escolher  

O Brasil vai às urnas em aproximadamente 60 dias para eleger os prefeitos e vereadores dos municípios. A Covid empurrou as eleições para 15 de novembro, retomando a data que assinala a proclamação da República a qual, por longas décadas, abrigou o processo eleitoral.

O adiamento foi uma deliberação do Congresso juntamente com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), prevendo, ainda, que em eventuais casos de cidades que não apresentem condições sanitárias seguras, novas datas poderão ser estabelecidas.

Restrições – Mas, para além da mudança de calendário, o que se deseja enfocar é o quanto campanhas mais curtas e repletas de restrições irão impactar a escolha do eleitor e, numa reflexão talvez exótica, o quão melhor ou pior o ‘novo ambiente’ terá influência na busca pelo melhor candidato.

Sem o corpo-a-corpo de apertos de mãos e abraços, somados às demais normas de distanciamento social, a comunicação dos candidatos com o eleitor será basicamente via Horário Eleitoral Gratuito e redes sociais.

Considerando que as fake news abalaram sobremaneira a já então frágil confiança do que é impulsionado nas redes – tema que nos últimos meses vem ganhando enorme visibilidade, pondo em xeque os conteúdos compartilhados –, resta ao eleitor pôr maior atenção nas falas dos candidatos e buscar o histórico e as propostas de cada qual.

Menos alvoroço – Nem precisava dizer, todos desejaríamos campanhas eleitorais amplas e sem as restrições que o momento exige. Por outro lado (e agora retomo à ‘reflexão exótica’) a Justiça Eleitoral há muito vem impondo limites absolutamente corretos no afã de evitar abusos, de tornar os processos mais equânimes e, ainda, para que todos tenham chances iguais.

Lembro-me que em 2000, quando a legislação eleitoral foi alterada, definindo fronteiras para que houvesse equilíbrio entre candidatos com maior e menor capacidade econômico-financeira – moderando os espaços publicitários veiculados na imprensa, fixando normas para entrevistas e matérias com os postulantes, regulando a exibição de out-doors e tamanho de placas, estabelecendo regras para comícios, enfim, diversas medidas para evitar a prevalência econômica – fiz uma longa entrevista com o juiz Geraldo Batista de Silva Jr., que estava tendo o maior trabalhão para que todos entendessem e cumprissem o conjunto de regulamentações que trazia mudanças profundas no sentido de tornar mais justo e igualitário o processo de escolha.

Em tempos mais recentes, entrevistei duas ou três vezes o juiz Elias Pedro Sader Neto, cujas observações firmaram esse mesmo sentido: a Justiça Eleitoral evoluindo para permitir que todos tenham as mesmas oportunidades. Isso, sem falar na redução da poluição sonora e visual, que tanto enfeavam a cidade como produziam barulho infernal.

Enfim, neste ano por um motivo lamentável e catastrófico, o eleitor vai precisar pesquisar e se orientar com maior afinco para que seu voto não seja prejudicado por distrações.

O bufão que perdeu o mandato: como é difícil escolher candidato 

Parece fácil, mas não é. A política é um terreno enganoso, repleto de armadilhas e labirintos. Vejamos o exemplo Wilson Witzel: desconhecido, entrou na campanha de 2018 para o governo do Rio com 2% nas pesquisas. Em termos políticos, não dizia a que vinha.

O tempo foi passando e… ‘pegando’ uma então improvável carona na popularidade de Bolsonaro, surpreendeu e venceu o primeiro turno com boa vantagem sobre Eduardo Paes. O 2º turno confirmou a larga diferença e Witzel acabou eleito.

Começou o governo sob enorme desconfiança. A faixa azul que ele próprio mandou confeccionar para tomar posse e, com ela, realizou a primeira reunião de secretariado, foram os primeiros sinais de que se tratava de um bufão.

O episódio absurdo da vibrante comemoração – como quem fizera um gol – na Ponte Rio Niterói, após um sequestrador ser morto (“tiro na cabecinha”), foi algo bizarro: dar saltos após a morte de um ser humano.

Mas, a despeito de outras bizarrices na área de Segurança Pública, Witzel passou a colher alguma popularidade ao colocar em dia o salário dos servidores – extremamente prejudicados durante vários períodos do governo Pezão – e pagar antecipado tanto o salário de dezembro de 2019 como o 13º.

No início da pandemia, já com rusgas marcando a relação entre ele e o Planalto, arvorou-se no político que poderia ser candidato a presidente. Acompanhando João Dória, brigou com Bolsonaro e dava entender que o Estado do Rio poderia enfrentar a pandemia seguindo a orientação da ciência e com capacidade administrativa.

Mas tudo ruiu da noite para o dia. O governador foi denunciado por suposta corrupção, o secretário de Saúde preso e Witzel acabou afastado pelo ministro Benedito Gonçalves, do Superior Tribunal de Justiça. Poderia, inclusive, ter sido preso.

Dias depois, a Corte Especial do mesmo STJ confirmou seu afastamento por suspeita de corrupção. E, fechando o caixão, semana passada o Supremo manteve o afastamento.

Witzel não volta mais. Não tem a menor chance na Alerj e vai sofrer irreversível impeachment.

Assim, o desconhecido que venceu a eleição com discurso anticorrupção, acabou perdendo o mandato por causa de corrupção. O desconhecido que pensou em ser presidente da República, não chegou nem ao meio do mandato de governador.

Wilson Witzel é um exemplo prático e didático de como é difícil para o eleitor acertar no voto.