Você sabe quem foram os “Voluntários da Pátria” que deram nome à rua central de Campos?

Brancos, mestiços empobrecidos e escravos libertos – todos foram realmente voluntários?

Quadro “Partida dos Voluntários”, do pintor francês Clóvis Arrault. acervo do Museu Histórico de Campos. Foto de Maria Paula Passos

A Guerra do Paraguai foi o conflito mais sangrento da América Latina que aconteceu de 1864 a 1870 e colocou Brasil, Uruguai e Argentina como aliados contra o Paraguai. E como os campistas se envolveram nesta guerra?

Quando o presidente do Paraguai, Francisco Solano Lopez, invadiu o Estado de Mato Grosso, o governo Imperial Brasileiro reagiu de imediato. O Exército Brasileiro era ainda constituído com poucos soldados, obrigando o Imperador, D. Pedro II, a editar o Decreto nº 3371, em 07 de janeiro de 1865, criando os corpos de “Voluntários da Pátria”, para a guerra no sudeste do país.

Esse decreto estratégico buscava convocar a população, por meio do sentimento patriótico que, com tanto esforço, vinha sendo construído na recente Nação, através do recrutamento optativo, sendo mais tarde obrigatório.

De Campos dos Goytacazes, seguiram levas de voluntários, sendo a primeira, em 17 de fevereiro de 1865, coordenada pelo Manuel Theodoro de Almeida Baptista, campista, irmão do Barão de Miracema, que aos 21 anos de idade foi o primeiro a assinar o livro de inscrições dos voluntários, aberto pela Câmara Municipal de Vereadores de Campos, como forma de registro de todos aqueles que se ofereceram para defender a Pátria, seja se prontificando para ir à guerra ou para doações como forma de custear os voluntários.

A sociedade campista participou ativamente, por meio de instituições e de iniciativas individuais, que ofereciam recursos financeiros para financiar o governo Imperial.

No entanto, por trás da expressão “Voluntários da Pátria”, escondem-se indivíduos de diferentes classes sociais e também as formas pelas quais se fizeram voluntários.

Quem foi convocado? Homens livres ou escravos? Que meios foram empregados para atender à demanda por soldados?

Quadro “Partida dos Voluntários”, do pintor francês Clóvis Arrault. acervo do Museu Histórico de Campos, Salão Nobre. Foto de Welliton Rangel

Será que a tela que compõem o acervo do Museu Histórico de Campos, na qual reproduz a partida dos voluntários campistas para a Guerra do Paraguai, nomeada de “à clef”, do pintor francês Clóvis Arrault, encomendado pelos Vereadores na época, pode responder a tais indagações?

Na tela podemos identificar o local, à beira do Rio Paraíba, onde houve o embarque dos voluntários, no trecho do Porto da Banca em direção da Rua da Jaca, que teve seu nome mudado para Rua dos Voluntários da Pátria.

Na cena é possível identificar algumas figuras em destaque, como o Barão da Lagoa Dourada, Barão de Itabapoana, Comendador Cláudio de Couto e Souza e os Senhores, Ribeiro Sampaio, Francisco Portela, Thomaz Coelho, Capitão Joaquim Peixoto. É claro, o jovem Manuel Theodoro, além da esposa do abolicionista Carlos Lacerda, a menina Olímpia Lacerda, segurando a mão da mãe.

Para reproduzir essa cena, Clóvis Arrault fez alguns esboços de personagens aqui, em Campos, e voltou a Paris, sua terra natal, onde residiu no Boulevard Saint Miguel, nº 145. De lá mandou um anúncio para o jornal Monitor Campista, pedindo aos cidadãos de destaque na comunidade que enviassem fotos para o endereço citado, com a intenção de serem retratados.

Quadro “Partida dos Voluntários”, do pintor francês Clóvis Arrault. acervo do Museu Histórico de Campos, Salão Nobre. Foto de Welliton Rangel

Porém, com um olhar mais atento, pode-se observar na cena pictórica (pintura que representa fatos históricos, eventos da história política, batalhas, cenas de guerra, personagens célebres, fatos e feitos de homens notáveis descritos em telas de grandes dimensões), retratada pelo Clóvis Arrault, os poucos personagens negros retratados em segundo plano, quase que sem fisionomia.

No entanto, cabe destacar que uma parcela dos voluntários era constituída de pessoas da elite, da tal “casa grande”, mas a maioria era de gente do povo e escravos libertos por seus donos. Muitos proprietários rurais cederam seus escravos para os Corpos de Voluntários, em troca de seus filhos. E em Campos não foi diferente, tanto que no ano de 1865, houve um grande aumento das cartas de alforria (ato pelo qual um proprietário de escravos liberta os seus próprios escravos), sob a condição de embarcarem para a guerra.

Sempre foram grandes as dificuldades de recrutamento no Brasil colonial e imperial. O negro, livre, escravo ou liberto, em várias ocasiões fora convocado a dar sua contribuição, não só apenas no Brasil, mas em toda a América escravista.

A historiografia a respeito da guerra contra o Paraguai não se ateve à leitura atenta aos documentos, criando uma romantização sobre o recrutamento de voluntários, constituindo uma história na qual todos os voluntários da pátria eram indivíduos abnegados e fervorosos patriotas, tendo essa versão perpetuada através de pinturas.

Portanto, o que Clóvis Arrault omitiu em sua obra pode ser evidenciado por meio do acervo documental da Câmara Municipal de Vereadores, que apresenta como nossa cidade contribui para o corpo de voluntários oferecendo reforços de todas as procedências: brancos e mestiços empobrecidos, escravos libertos, por vontade própria e outros obrigados — todos cumpridores do papel de “voluntários”.

Graziela Escocard – Historiadora e Diretora do Museu Histórico de Campos dos Goytacazes.
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Cel.: 22 999391853