OS COOKIES E SEUS EFEITOS ESPECIAIS

Preciso da companhia de biscoitos confeitados interpretando outros personagens

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Por Claudia Cunha
16 de agosto de 2020 - 0h01

Em algum lugar depois da meia-noite, onde as montanhas encontram o céu, o relâmpago divide o oceano e as estrelas contam contos, estórias ganham tons decorados de realismo e, na mais louca fantasia, posso jurar que têm alguém me observando a descrevê-las. Então preciso de heróis para me retirarem deste castelo assombrado com guardas e fosso abissal e fugir desta realidade gradeada.
Preciso da companhia de biscoitos confeitados interpretando outros personagens, quando as lágrimas se transformam em bolhas de sabão perfumadas e libélulas se tornam fadas madrinhas no glorioso mundo encantado de Peter Pan.
Pequeno Polegar, indicador, pai de todos os filhos abortados de mães solteiras ou os anulares que matam piolhos e outros bichos alastrados nas cabeças de crianças miseráveis espalhadas pelas periferias, aguardando o dia de um furar-bolo pra comemorar, se houver mais um aniversário nas suas vidas sem brincadeiras de criança.
Cinderela, descendo à meia noite de uma carruagem com seus sapatinhos de cristal sem medo de assaltos, dando passos ao compasso de leis que protegem da impunidade, ao invés do sobressalto Perdeu! e sair correndo, descalça e assustada, fugindo da violência recortada, violentada, da mão armada até os dentes.
Branca de Neve sem maçã envenenada de agrotóxicos e os sete anões sem bullying e preconceito, como uns Patinhos Feios que não estão à altura de uma sociedade discriminatória, que também é racista ao dizer: ” A coisa tá ficando preta!”
Três Porquinhos, longe da gordofobia e em casa própria, sem o fantasma do lobo mau rondando a falta de moradia, soprando para uma situação de rua.
Alice no País tropicaliente das maravilhas da justiça e igualdades sociais, ausente de sexismo, exploração sexual e feminicídio.
Gato de Botas escovadas com fôlego de sete vidas para pagar magicamente todas as contas de fio a pavio com o desemprego batendo nas portas fechadas.
Chapeuzinho Vermelho longe da pedofilia de senhores lobos velhacos e dissimulados.
Flautista de Hamelin trazendo todas as crianças desaparecidas pelo tráfico de órgãos, de volta às suas famílias.
Bela mais inteligente e a Fera do leão do imposto de renda mais mansa.
Pinóquio falando grandes verdades sobre o desenvolvimento da economia mundial e a fome e o analfabetismo sendo exterminados.
Rapunzel jogando suas tranças do alto da torre de quase um milhão de mortos, para salvar o mundo da pandemia devastadora do Coronavírus.
Mágico de Oz transformando o homem de coração de lata em um ser humanitário e apaziguado com coração de outro homem….
De repente me sinto livre… Percebo que, ainda que não estejamos na Terra do nunca, façamos de conta que todos os finais são sempre felizes; pois já conhecemos os meios que justificam os fins, das histórias de desencanto e das estórias da carochinha de mundos encantados com suas varinhas de condão corruptível.
Mesmo sem a trama de doces palitinhos para remar os dramas de tantos Joãos e Marias, em rios de caldas de chocolate amargo ou mesmo mares de Pequenas Sereias sem peixes para pescar, me sinto leve e solta para deixar o casulo e voar como uma borboleta por um céu azul anil com nuvens de chantilly e arco-íris de açúcar colorido e, pousando calmamente em biscoitos com formato de flor, imaginar que houve a transformação da criação, na fantasia da libertação.