Covid cresce em Campos e coloca todos em risco

Aumentam casos em grupos antes considerados fora de perigo

Tudo sobre coronavírus
Por Letícia Nunes
16 de agosto de 2020 - 0h01

Vulnerabilidade | Pessoas de todas as idades podem contrair a doença (Fotos:Carlos Grevi)

A pandemia não acabou. Mesmo com o retorno de diversas atividades em Campos, dando uma leve sensação de que estamos voltando a viver tudo normalmente, com pessoas nas ruas, em bares, restaurantes, com ou sem máscaras, a verdade é que ainda estamos em um momento delicado, sem certezas e sem algo que impeça de fato o desenvolvimento do vírus. Assim, com essa falsa sensação de normalidade, pessoas de todas as idades estão ainda mais expostas ao novo coronavírus e já existem relatos de casos graves em envolvendo as crianças e os jovens adultos, faixas-etárias até então dificilmente atingidas. O Jornal Terceira Via entrevistou especialistas que revelaram que, na verdade, a Covid-19 ainda guarda alguns mistérios. Portanto, a prevenção continua sendo a melhor alternativa para este momento.

Dra. Patrícia Meireles| Pneumologista atua no Centro de Controle

A pneumologista do Centro de Controle e Combate ao Coronavírus (CCCC), Dra. Patrícia Andrade Meireles, afirma que depois de quase cinco meses de contato com a doença já tem algumas conclusões. “É um vírus altamente infectante. Várias pessoas serão contaminadas pelo coronavírus, não necessariamente vão apresentar a forma clínica da doença, mas serão portadores do vírus, que poderão ser assintomáticos. A transmissibilidade realmente se dá pela gotícula contaminada do vírus, pelo espirro, pela fala, pela tosse e pelas mãos contaminadas que são levadas as mucosas de olho, nariz e boca, além do toque nas superfícies contaminadas e depois toque direto nessas mucosas. Mas, ao mesmo tempo, sabemos que não existe uma medicação efetiva para o vírus. Nenhuma medicação tem um estudo robusto que justifique o uso, muito menos profilaxia “, conta.

Faixa-etária dos infectados

A especialista também explica que mesmo determinando algumas faixas-etárias que são mais delicadas, em relação à doença, ainda existem muitas variáveis a serem analisadas. Ela ressalta que é preciso manter um controle adequado da doença até que a vacina esteja disponível para a população. “Temos pacientes jovens gravemente adoecidos e pacientes idosos que adoecem de forma mais branda e isso vai depender da reação do organismo do próprio paciente, da resposta inflamatória do paciente ao vírus, da carga viral a que ele foi exposto e muitas outras questões. Não é o momento da achar que tudo acabou. É sim um momento de alerta. Ainda é preciso ter muito cuidado e muita prudência, nos cuidar e cuidar do próximo. Manter as nossas doenças de base controladas, como hipertensão, diabetes, pneumopatias e nefropatias. Temos que tomar cuidados com as aproximações, fazer o distanciamento social e principalmente, ter a conscientização da população”, avisa.

Óbitos

Nos óbitos confirmados por Covid-19 na cidade de Campos, segundo o último informe epidemiológico divulgado pela Vigilância em Saúde, a maioria (55%) era homens. As duas faixas etárias com maior ocorrência de óbitos foram aquelas entre 60 e 69 anos e entre 70 e 79 anos, independentemente do sexo. Dentre os óbitos, 76,3% possuíam alguma comorbidade. Entre os pacientes mais jovens, foram registrados óbitos na faixa-etária 30 a 39 anos, um pouco mais de 20 casos. Porém, não ocorreram mortes pelo novo coronavírus em crianças, adolescente e nem em adultos até os 29 anos. “Sabemos que a virulência da Covid-19  é diferente de pessoa para pessoa. Vemos jovens evoluindo mal ou idosos evoluindo bem, tendo alta hospilatar. A melhor forma de tratar é ter uma boa unidade de terapia intensiva e hospitalização para os que necessitam. Os pacientes que tem alguma comorbidade agravam mais do que os outros, mas isso não é regra. A gente sabe que existe um risco, principalmente nos pacientes diabéticos, porque já tem uma doença que faz lesões em órgãos como os rins, pulmão, coração e vasos.  E o que a gente pode entender? É uma doença nova, grave para algumas pessoas e ainda sem cura. Não temos uma medicação totalmente eficaz e não temos vacina. Estamos no meio de uma pandemia e a conscientização da população é o nosso melhor tratamento”, frisa a Dra. Patrícia Meireles.

Crianças

Dra. Priscila Sereno| Pediatra

Mas como proteger as crianças nesse momento? A pediatra, Dra. Priscila Sereno, afirma que o risco de uma criança ter Covid-19 é o mesmo que os adultos apresentam. “Todas as faixas-etárias tem o mesmo risco. Em geral, as crianças apresentam sintomas leves. Algumas evoluem para a gravidade, mas são, normalmente, as que apresentam algum fator de risco, como diabetes, obesidade, doenças oncológicas, doenças neurológicas. Estamos percebendo um aumento do número de casos em crianças provavelmente por conta do relaxamento do isolamento social, bem como da flexibilização do comércio. Os pais retornando ao trabalho têm maior chance de contágio e consequente transmissão para os filhos”, diz.

A médica ainda comenta que os sintomas nas crianças são diversos, logo é preciso estar atento a qualquer sinal fora da normalidade, como febre, sintomas respiratórios (dor de cabeça, tosse, coriza, congestão nasal), sintomas gastrointestinais (vômitos, diarreia e dor abdominal), manchas no corpo, entre outros. “Quanto mais jovem a criança mais inespecíficos serão os sintomas, como dor no corpo, perda de apetite e desânimo. Se isso acontecer, o ideal é que a criança seja avaliada por um pediatra. Somente ele poderá avaliar a gravidade e a necessidade de exames. Somente crianças acima de dois anos podem e devem usar a máscara. O ideal é que todas permaneçam em casa, evitando contato com idosos ou pessoas com fatores de risco”, recomenda.

A relação entre o peso e a Covid-19

Dra. Patrícia Peixoto| Endocrinologista

O agravamento da Covid-19 e consequentemente a piora do quadro clínico do paciente infectado também tem um relação direta com o peso dessa pessoa. Segundo a endocrinologista, Dra. Patrícia Peixoto, pessoas com obesidade ou mesmo as que têm o índice de massa corporal normal, mas apresentam aumento de circunferência abdominal têm risco maior de quadros graves frente a doença. A explicação é que a gordura corporal elevada gera um processo inflamatório crônico que afeta a capacidade do sistema imune de combater o vírus. “Pela presença da inflamação característica da obesidade, o organismo tem uma reação imune inadequada, além de haver mais chances dessa pessoa ter outras doenças que também complicam  o quadro, como hipertensão arterial e diabetes. Em casos de obesidade mais grave, há maior dificuldade de expansão pulmonar e estudos tem avaliado se o tecido adiposo serve como uma espécie de ‘reservatório’ do vírus, fazendo com que a infecção dure mais tempo. Além disso, mesmo se a pessoa tem um peso considerado normal pelo IMC, mas tem uma circunferência abdominal aumentada, ‘a barriguinha’, ela tem uma excesso de gordura visceral, que é justamente a gordura mais inflamatória e, por isso, tão perigosa”, revela.

Recomendações

Todas as especialistas entrevistadas nesta reportagem não hesitaram em destacar que as maiores recomendações neste momento são continuar com a higienização adequada, lavando as mãos, utilizando álcool em gel, usando a máscara e  fazendo o isolamento social. “Temos que manter sempre a higienização das mãos, o distanciamento entre as pessoas, o uso adequado das máscaras, fazendo a troca dessa proteção, até que a gente tenha a vacinação disponível”, completa a pneumologista, Dra. Patrícia Meireles.

Questionamentos ao Governo Municipal

Sede do CCC (Foto: Carlos Grevi)

O Jornal Terceira Via recebeu ainda denúncias de familiares de pacientes que estão internados no Centro de Controle e Combate ao Coronavírus e não estariam recebendo informações sobre o estado de saúde deles. Em Campos, existe uma lei sancionada no 3 de julho de 2020, de autoria da vereadora Joilza Rangel, que dispõe sobre a obrigatoriedade dos hospitais e clínicas médicas públicas e particulares da cidade estabelecerem “mecanismos eficientes” para manter as famílias dos pacientes internados com suspeita ou confirmação da Covid-19 bem informados sobre o estado de saúde deles. A equipe de reportagem questionou o governo municipal sobre o cumprimento da lei no CCCC.

Em nota, a prefeitura de Campos informou que “para informações de paciente internado no Centro de Controle e Combate ao Coronavírus o familiar pode ligar para o serviço social através do número 98168-6852, ou pode Comparecer a Unidade, pessoalmente, e procurar o Serviço Social (funciona 24 horas)que fica no 2º andar. Deverá entrar pelos Fundos da Beneficência, para evitar o contato com potenciais pacientes. Até o dia 13 de agosto, 28 pacientes estavam na Unidade de Tratamento Intensivo da unidade. Importante destacar que a ocupação de leitos pode ser alterada diferentes vezes em um dia”.

O Jornal Terceira Via ainda indagou ao governo municipal sobre a taxa de ocupação da rede particular em relação a Covid-19 neste momento, baseado em informações de que as UTIs dos hospitais particulares estariam recebendo um quantidade expressiva de pacientes infectados nos últimos dias. E ainda se esta ocupação não teria relação direta com a flexibilização das atividades na cidade.

A prefeitura respondeu em nota que “a cada medida tomada, antes é feita criteriosa análise técnica semanal levando em conta diferentes dados do cenário epidemiológico – coeficiente de incidência da COVID-19 no município, casos confirmados e acumulados, distribuição espacial dos casos confirmados, ocupação de leitos, índice de isolamento, taxa de letalidade. Desta forma, o município segue fazendo a análise destes critérios, que apontaram a possibilidade de avanço no plano de retomada neste período. Contudo, o município não descarta medidas de retorno a fases anteriores caso nova análise técnica mostre real necessidade”.