Péricles Emmanuel, um artista campista do mundo

Ex-bailarino e cantor campista radicado nos EUA é tema de documentário disponibilizado no YouTube

Cultura
Por Ocinei Trindade
6 de agosto de 2020 - 14h50

Cantor Péricles Emmanuel está radicado nos Estados Unidos há quase 30 anos

Em pouco mais de 80 minutos, o cantor e bailarino campista Péricles Emmanuel resume sua trajetória de vida artística e pessoal. O documentário “The Brazilian Jazz Singer” que em  português seria “A saga do cantor brasileiro de jazz” roteirizado e editado nos Estados Unidos, país onde o artista vive há décadas, foi compartilhado na rede social YouTube. Rejeitado pelos pais biológicos, adotado por uma família tradicional, o menino negro cheio de talentos foi muito longe para defender a vida e a arte. Aos 55 anos, Péricles Emmanuel segue exuberante.

A voz poderosa do cantor Péricles Emmanuel aparece em várias canções do repertório do jazz americano e da Música Popular Brasileira, cantando em inglês, português e até em japonês. Por conta da dança e da música, ele também se apresentou no Japão, Europa e EUA. O bailarino se aposentou, mas o cantor segue em atividades. Péricles mora atualmente em Huntington Beach, Califórnia.

Intérprete de jazz e Música Popular Brasileira, artista se tornou tema de documentário

“Eu estava com produtores americanos em um jantar. Contei a eles minha história e trajetória de vida. Eles ficaram muito interessados. Não só pela luta que tive para sobreviver para fazer arte, mas pelos dramas pessoais, por não saber sobre meus pais biológicos, apesar de ter feito um exame de DNA e descobrir a presença de genes da família que me criou. Surgiu então a ideia de um filme sobre minha vida”, comenta.

Péricles Emmanuel foi adotado por Mariluce Pereira de Freitas, mas o seu marido não aceitou. Foi então que a professora Zenir Bacellar da Silva decidiu ficar com o menino. “Ela foi uma mãe maravilhosa. Devo tudo a ela. Na época, minha mãe Zenir tinha 61 anos. Quando cresci, ela não queria que eu fosse artista, mas advogado. Hoje, se pudesse, faria a faculdade para agradá-la ou medicina veterinária. Porém, a dança e o canto foram mais fortes em mim”, diz.

Antes da música, artista foi bailarino

Foi o bailarino e coreógrafo Amaury Joviniano que descobriu o potencial de Péricles para a dança. Depois, ele conheceu o diretor Orávio de Campos e a atriz Neuzinha da Hora que o levaram para o Teatro do Sesc.  Já o músico Luiz Carlos Ramos foi quem deu a Péricles uma das primeiras oportunidades como cantor, além dos cantores Alvinho e Sônia Maria. No documentário, depoimentos de artistas americanos e brasileiros ajudam a contar sobre as experiências de Péricles Emmanuel nesse universo. Participam, entre outros, Dorinha Viana, Vilma Rangel Braga, Sheila Rodrigues, Nelsinho Memeia, Gilson Perazzeta e o jornalista Aloysio Balbi.

“Eu o conheci primeiro como bailarino. Depois, veio o cantor. Recentemente, ele gravou uma canção que compus, “Cenas de Teatro”, nos anos 1980, e que ele defendeu em um festival de música de Campos. Foi considerado o melhor intérprete. É um grande artista”, diz Aloysio Balbi.

A jornalista Sheila Rodrigues também lembra de Péricles Emannuel em eventos musicais e em atividades no extinto jornal Monitor Campista. “Ele foi um anjo em minha vida. Sempre teve talento para a dança e para a música. Um dia, participou de um festival com uma música minha. Ganhou como intérprete e dividiu o prêmio comigo”, recorda.

Para Péricles, Campos significa nostalgia. Diz que sente uma saudade enorme dos 27 anos que viveu na Rua Lacerda Sobrinho, da mãe, dos professores, dos amigos. “Eu sou um defensor de nossa cultura, da prata da casa, dos artistas. Mesmo estando distante, defendo Campos. Nunca digo que sou carioca ou do Rio de Janeiro. Sou de Campos que significa tudo pra mim. Saí em 1993. Voltei em 2006. Depois, nunca mais retornei”, conta.

Nos Estados Unidos se apresentou como dançarino em lugares como Las Vegas

Dono de um impressionante acervo de fotos e imagens em vídeos, Péricles Emanuel não se considera um memorialista com o material que costuma compartilhar em redes sociais. Muitos arquivos foram enviados para os Estados Unidos por Vilmar Rangel, Orávio de Campos, Vânia Ventura, Vilma Rangel Braga e Vicente Marins jr. Parte do acervo está em seu canal no YouTube.

“Eu defendo nossos artistas e o legado dos professores. Não existe ninguém mais importante num estado, país ou cidade que o professor. Para mim, o professor é a maior autoridade que existe. Sem querer desmerecer nenhum, porém o mais importante é o alfabetizador. Sem uma boa base, não adianta ter mestrado e doutorado”, avalia.

Artista coleciona fotos e vídeos que foram usados no documentário

Péricles Emmanuel se considera extremamente realizado pela trajetória e carreira. “Saí de Campos com pouco dinheiro no bolso. Eu nunca precisei de parente, nunca pedi nada a ninguém. Este é o meu maior troféu. No Rio, consegui ser apadrinhado por Waldir Calmon da Estudantina carioca, e pelo maestro Marcos Szpilman, da Rio Jazz Orchestra. Pude me apresentar em grandes salas com eles. Nos EUA, antes de conseguir trabalhar em Las Vegas e Nova York, atuei como faxineiro e auxiliar da construção civil. Me sinto vitorioso”, diz.

Por causa da pandemia de coronavírus, não pode fazer shows. “É uma situação muito ruim de dinheiro e sobrevivência. A solução é fazer shows on-line. Com uso do cartão de crédito, nos pagam pelas apresentações aqui. Acho que nós artistas e sociedade temos que nos unir.  Temos que alegrar a vida das pessoas. Precisamos nos cuidar e aprendermos a votar. Brasileiros e estadunidenses. Nossos governos deixam a desejar, valorizando o capital, mas a vida é o mais importante”, conclui.