A MARVADA CARNE – I E tudo por culpa do complexo!

por Cláudia Cunha

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Por Claudia Cunha
26 de julho de 2020 - 0h01

“Francis Bacon em ” Asas de carne ” – artista revolucionário, fundador da ciência moderna, fotografado por John Deakin, Vogue 1962.”

Em latim, seu nome é ‘vivenda’, que significa ‘aquela que sustenta a vida’.
O homem vestido em seu corpo carnal de alegrias e dores, mantém um intercâmbio solidário e fatal com a vida, em uma arte implacável de pura devoração e instinto animal de sobrevivência. E tudo por culpa do Complexo ! “Vâmo expricá…
As carnes são ricas fontes de vitaminas do complexo B, proteínas, sais minerais e, extremamente nutritivas fornecem elementos essenciais para o homo sapiens, ambicioso devorador do homem e o seu orgulho de ser o maior predador de todos. “Qué apostá?
Muitas das carnes em exibição que desfilam em sumários modelitos básicos de coxão mole ou duro, oferecidas como um aperitivo visual, são assediadas como se fossem picanhas de açougues ambulantes. E ao ponto da luxúria, nas ruas de primeira e esquinas de segunda a domingo, mais carnes oferecidas como um prato de self service aos solícitos usuários pagantes dos prazeres carnais. Acém ou a mil ou por muito menos, para fartarem-se em um programa de gulodices à la carte ou em rodízios de espetos. “Óia gênti, tem que botá camisinha pra si previni das duença…

Carnes casadas com um cardapio fixo, mas, que na balança do dia a dia abraçam outros acompanhamentos na comanda da comida à quilo. Nas fugidinhas proibidas do regime matrimonial, músculos na pressão e chuletas assadas, entre a manta nem sempre limpa do chã de dentro e a sujeira escondida sob o tapete do chã de fora. “Num podemu si isquecê, que issu ainda pódi gerá uma fraldinha…

Como se a dureza do plano fibroso de um lagarto vermelho em molho sanguinolento, sorrisse carnivoramente e espreitando sorrateiramente, pelos embriões da clandestinidade, expelidos na desgraça do aborto, temperando o destino bastardo de quem não pode escolher nascer. “É, fio fêio num tem pai e num pricisa nem di facão pra fatiá…

Outras, pedaços abandonados, jogados em bancos de praças e, molestadas, esmoladas e, malpassadas com as costelas à mostra e, como pontas de agulha sob a pele, somente bistecas cobertas por trapos, mas, sempre acobertadas pela incúria do poder público e ao ponto de viverem do lixo do luxo da carne das elites. “É um tar di marquerência cum povu sofridu, i qui só leva nu lombu, difici di digeri…

Em bancas de revistas fixas ou on line, capas de filet mignon desprovidas de pudor e odor, mas cheirando ao perfume sexy do encarte, provido da beleza que o mundo e o tempo consomem ávida e inexoravelmente. Logo, página virada de um playboy e fantasia descartada do próximo buffet colorido de caras, bocas, pequenos e grandes lábios. “Maisi, é só pra cumê com os zóio…“.

Sendo a carne fraca, o miolo da alcatra também não ajuda. Nas telas da TV, o único controle é o remoto juízo moral sobre valores, que deveria fazer do Ibope, um número decrescente e inversamente proporcional ao número crescente de focos gratuitos em carnes de peito, maminhas e closes em ancas de traseiros expostos. “É tanta a repursa a vugaridadi, qui nóis quasi num guenta maisi di tantu pânicu….

Mas, prisioneiros do corpo, ainda somos escravos dos apetites e paixões materiais. E quantas são marinadas em vinho, flambadas em conhaque, curtidas em whisky, temperadas na cerveja e conservadas na cachaça. Carnes embriagadas, embebidas e difamadas pelo copo. No fundo da alma e mergulhadas no aroma inebriante do álcool, a liberação dos sentidos e a libertação dos instintos encarcerados pelas exigências do mundo das aparências e seus muitos subterfúgios subterrâneos. Viciados que são, fumam, injetam, aspiram e dragam com drogas a própria droga da carne, entorpecidos pelas etéreas brumas de um cárcere tóxico e eterno . “Curpa du mundu, qui faiz nóis parecê di férru, quandu somu só di carni i ossu…

Pois, quem comeu da primeira parte, que roa o que sobrou do osso até o proximo domingo com a segunda parte . “Inté! Êita ossu grandi e durim…