A Roda dos Expostos: no passado, crianças eram abandonadas em roleta na Santa Casa de Campos

Tal 'Roda dos Excluídos' era um cilindro situado no exterior do hospital em que bebês eram deixados até o início do século XX

Antiga Igreja Mãe dos Homens e ao lado o Hospital Santa Casa de Misericórdia, em frente a Praça das Quatro Jornadas, início do séc. XX, restaurada e colorida Marcelo Carvalho – Arca Photovideo. 

A instituição Santa Casa de Misericórdia é fundada por uma irmandade religiosa, tendo como missão o tratamento e sustento a enfermos e inválidos. Sua orientação remonta ao Compromisso da Misericórdia de Lisboa. Devido à necessidade de internação de pacientes destituídos de recursos ou recém-chegados ao Brasil, sem família e moradia, acarretou, no século XVI, a criação das Santas Casas da Misericórdia, segundo os moldes da estabelecida em Lisboa. Essas unidades multiplicaram-se por todo o território brasileiro exercendo um importante papel. Também foram atribuídas a essas instituições diversas funções ao longo da história. Como por exemplo: abrigar crianças abandonadas ou órfãs, através de um dispositivo popularmente chamado de “roda”.

Como não poderia deixar de ser, a cidade de Campos também foi contemplada com uma Santa Casa de Misericórdia, edificada pela Irmandade Nossa Senhora Mãe dos Homens. Conforme Alberto Lamego, foi construído um templo da Irmandade em 1786, na Praça principal da cidade de Campos dos Goytacazes, chamada depois de São Salvador, da qual foi desmembrada uma parte que recebeu o nome de Praça das Quatro Jornadas. Embora não concluído, por volta de 1790, o santuário já prestava ao culto divino e, junto, ficava o hospital, como descreve Alberto Lamego: “uma casinha térra de pau-a-pique e telha vã, com limitado número de leitos”.

Hospital Santa Casa de Misericórdia e Antiga Igreja Mãe dos Homens, início do séc. XX, restaurada e colorida Marcelo Carvalho – Arca Photovideo.

Nesse local, a Santa Casa de Misericórdia de Campos começou sua existência legal depois que a Irmandade teve o compromisso aprovado pela Rainha D. Maria I, através de confirmação expedida pelo Conselho Ultramarino em 5 de julho de 1791. Entretanto, somente em 21 de dezembro de 1792 foi afixado, na Vila de São Salvador, o edital em que, por decisão régia, a Santa Casa de Misericórdia de Campos detinha as mesmas graças, regalias e isenções permitidas às do Rio de Janeiro.

Algumas atividades da Santa Casa de Misericórdia de Campos merecem um capítulo à parte, em virtude da importância de suas relações com a história do assistencialismo, como, por exemplo, a “roda de expostos”, também conhecida pelas denominações de “roda dos enjeitados” ou “roda dos excluídos”.

Waldir Pinto de Carvalho, em seu emblemático romance “A Roda dos Expostos”, cita:

Imagem da “Roda dos Expostos”, do livro de Alberto Lamego – “A História da Santa Casa de Misericórdia de Campos”.

“A Irmandade de Nossa Senhora Mãe dos Homens, tendo os seus olhos voltados para as aflições alheias, sob a égide do cristianismo e em boa hora, cuida do grande hospital — A Santa Casa de Misericórdia, cuja história, por si só representa um dos mais destacados capítulos da prática da caridade neste abençoado pedaço de o Brasil. Algum tempo depois, anexo a essa instituição, surge, sob a inspiração dos bons sentimentos, outra não menos benéfica. Instala-se, então, no próprio seio da entidade hospitalar, RODA DOS EXPOSTOS, estabelecimento fundado, como dissermos, por obra do bem, mas que, infelizmente, lamentavelmente, não pode cumprir cem por cento o seu destino. Por culpa de uma mínima parcela da sociedade de então, vem a ser considerado um meio favorável à depressão moral, e isto por envolver na sua prática, ao lado da mais legítima forma de ajudar ao próximo, a sufocação do sentimento maternal”.

A Santa Casa, depois que teve o seu compromisso aprovado pela rainha D. Maria I, obrigou-se a ter um recolhimento de órfãos, com uma “roda de expostos”. Porém, não tendo lugar para todas as crianças abandonadas, essas eram entregues a certas senhoras, que recebiam determinada quantia para a sua criação, mas acontece que nem todas cumpriam com devotamento a sua missão.

De acordo com o memorialista Julio Feydit, dentre as funções dos enfermeiros que trabalhavam na Santa Casa de Campos também cabia à obrigação de “recolher com todo o zelo e amor os expostos que lançavam então na porta, e depois na roda da Santa Casa e entregar ao mordomo, declarando o dia, a hora e os sinais do exposto”.

Imagem atual da “Roda dos Expostos”, localizada no hall de entrada do Instituto de Enfermagem ao lado da a Igreja da Lapa.

A “roda de expostos” foi estabelecida na Santa Casa de Campos, nos idos de 1819, por Luiz José Ferreira Tinoco, e funcionou no mesmo prédio do hospital, em uma de suas janelas laterais. Assim, por aquela famosa janela em forma de roleta que ficava próxima à esquina com a Beira-Rio, entraram, na calada da noite, inúmeros seres anônimos, recém-nascidos, cuja origem ninguém jamais pode saber.

Era possível identificar o local através de um símbolo em uma das janelas. Colocava-se a criança no interior desse cilindro, este girava, passando a sua abertura para o interior do prédio. Pelo que indicam os relatórios da Santa Casa de Misericórdia, tal “roda” parou de funcionar somente nos anos 30. A a partir de 1936, os relatórios da instituição não possuem mais o tópico dedicado aos cuidados com os Expostos.

O abandono de crianças ainda é uma realidade lamentável no mundo contemporâneo, tendo a institucionalização como a única alternativa viável para garantir a sobrevivência desses indivíduos.

Nos dias atuais não existem mais as “rodas”, mas ainda temos muitas instituições de recolhimento ou orfanatos de crianças, chamadas de Entidades de Atendimento e Acolhimento Institucional.

O processo de encaminhamento e acolhimento de crianças em instituições na atualidade apresenta mudanças. Embora a origem destas crianças e as causas que as conduzem às instituições sejam semelhantes, observa-se uma mudança importante no que se refere à modernidade em questão e o afastamento de ideologias religiosas.