MOQUECA DE NAMORADO: a alusão de juntar a fome com a vontade de comer

por Cláudia Cunha

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Por Claudia Cunha
19 de julho de 2020 - 0h01

(Foto:  Revista Menu/Divulgação/Fabio Rossi)

Ele é o Príncipe das águas salgadas, descobridor e sedutor dos sete mares no anzol que liga os apetite à tampa da panela.
Com o nome científico de ” Pseudopercis numida ” batizado de Namorado, este encantado cortejador do palato, pertence a classe dos peixes que vivem no Oceano Atlântico ao largo de toda Costa Brasileira.
Procurado pela sua carne alvíssima, magra, saborosa e quase sem espinhas, ele habita águas profundas tropicais e também navega no subconsciente faminto e carente de gourmets; os conscientes e apaixonados da boa mesa.
O autêntico escamado, tem o corpo robusto e alongado, com predomínio da cor castanho e pequenos pontos em tons violetas, esparsos em todo o seu comprimento; o resto é falso, peixe batata dando pinta amarela, nadando contra a corrente do verdadeiro.
Fisgado e fisgando com seus labios espessos, este teleósteo atravessa o mar, declara-se em volúpia aos assédios sensoriais e embarca como o ingrediente ideal para a preparação de um superestimado e romântico prato de quem também morre pela boca; tornando as águas da mais fria temporada, na mais fervente estação do ano debaixo dos edredons do isolamento ao lado da pessoa amada, a deliciosa moqueca de namorado.
Guardando fidelidade aos arrebatados de coração em chamas, tendo como leito o calor da brasa escaldante de uma panela de barro aquecida com azeite e o perfume de dentes de alho amassados, rodelas de tomate, pimentão e cebola em orgia e a decoração aromática obrigatória de muitos ramos de coentro, postas do gostoso namorado, temperadas com sal e algumas gotas de limão vão sendo cozidas e penetradas intensamente pela vibrante coloração da tintura do colorau, presente também na ardente composicão do pirão, feito preparado da cabeça e caldo do cozimento, engrossado com farinha de mandioca e servido fumegante para deixar a língua da culinária capixaba com a temperatura igualmente quente com a linguagem envolvida no amor.
No caso da relação ser baiana, a comunhão universal com o leite de coco e azeite de dendê tornam o relacionamento ainda mais porreta desta Maravilha, que neste estado de paixão vem ancorado por uma estonteante forofa que pode ter uma banana de pretexto para incrementar o sabor de uma refeição extasiante.
Em relacionamentos picantes, a parceria de pimentas, é sempre bem vinda para enriquecer esse casamento ciumento entre as regiões e solidificarem em compatibilidades a aliança poética dos enamorados pelas duas culturas sempre em busca de murmúrios avassaladores de gustação.
Barquinhos que vão, navios que vem e contornando a razão ilusória do nome do peixe, a alusão de juntar a fome com a vontade de comer é como uma isca anelada a uma rede pescadora de desejos; escabechada de segredos, fomentada de sentimentos.
Aliás, arroz branco como acompanhamento pode invadir nossa boca e selar esta união tanto na celebração da mesa e, literalmente após o sim, como marido e mulher, caçarolas à parte, na saída do altar.