Duas rodas e muito barulho

Muitos motoboys andam na linha, mas a maioria segue o padrão da “correria”

Opinião
Por Editorial
5 de julho de 2020 - 0h01

A Reportagem Especial desta edição elenca uma série de infrações cometidas pelos motociclistas de Campos, entre elas, os canos de descargas das motos abertos com os decibéis nas alturas. É preciso que as autoridades de trânsito e de meio ambiente comprem esse barulho, pois este é ensurdecedor. Além do barulho acima permitido por lei, os motociclistas costuram os carros em zigue-zague por avenidas e ruas de riscos, transitam na contramão, avançam sinal vermelho, retiram as placas de identificação, colocam a própria vida e a de outros em perigo.

Não se deve generalizar, mas ao longo desta pandemia fica nítido que os motociclistas que mais avançam contra as leis são os motoboys, que fazem entrega delivery, quando na verdade deveriam ser os primeiros a dar o exemplo, pois se tornam profissionais em duas rodas, e deveriam primar pela legalidade para a manutenção dos seus empregos.

Obviamente muitos motoboys andam na linha, mas a maioria segue o padrão da “correria”, gíria usada por eles, para tentar estabelecer uma empatia diante destes desmandos. A desculpa de que a pizza tem que chegar quente na casa do cliente é fajuta, até porque elas são transportadas em recipientes térmicos. O que existe é um misto de irresponsabilidade e de competição entre os próprios motoboys.

A reportagem ouviu a psicóloga Luciane Mina que explica que o barulho é um fator estressante na vida em sociedade, que faz gerar reação no indivíduo. “O som distorce a harmonia do sujeito e ao receber esse estímulo de decibéis maior que o normal, nosso corpo reage, seja para lutar, seja para fugir. É como se a pessoa estivesse recebendo um empurrão e isso explica o fato de muitas pessoas xingarem, se aborrecerem, ficarem agressivos ou, por outro lado, negar o barulho, se encolhendo, se fechando ou se defendendo de alguma forma”, conta.

O exposto pela psicóloga já é motivo suficiente para as autoridades comprarem literalmente esse barulho, apertando a fiscalização. É preciso tirar de circulação esses roncos absurdos que saem do cano de descargas das motos e que tiram o sono das pessoas, uma vez que é percebido também de madrugada.

Nas redes sociais já existe muito bate-boca entre jovens que defendem esse conjunto de irregularidades e pessoas que cobram o fim delas. É preciso deixar claro que não se trata apenas de crime, mas torna-se necessário uma campanha em defesa dos próprios motociclistas, quase todos muito jovens e que se arriscam demais.

Nesta pandemia, os motoboys foram e estão sendo imprescindíveis, nas entregas de comida, lanches, remédios e outros. O objetivo da reportagem não é, como se pode dizer popularmente, cuspir no delivery que comeu, deixando de reconhecer a importância deste tipo de trabalho. É necessário afinar essa orquestra de motocicletas barulhentas e torcer para que todos os motociclistas utilizem esse veículo defensivamente, respeitando às regras do trânsito.