Pastel de gafanhoto

Há anos, os insetos ganharam uma distinção especial na mesa de assuntos da ONU

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Por Claudia Cunha
29 de junho de 2020 - 15h36

Repertório anterior a Revolução Soviética acontecido em Moscou, quando um padeiro fornecedor da Corte é intimado a se apresentar no Palácio, devido a grave acusação de um pedaço de pão onde ao meio, uma aranha se destacava em toda a formosura das suas formas. Sem se impressionar com as carrancas dos presentes pedindo explicações, pegou tranquilamente a fatia, deu uma mordida na parte que se encontrava o aracnídeo e engoliu seco todo o corpo do delito. ” Era uma passa”, anunciou antes de ser questionado pelo Czar sobre desde quando colocava passas no pão; ” Desde hoje”, respondeu. Liberado impune do apuro, pois aquela acusação não se sustentava depois de consumida, a primeira providência foi adquirir um sortimento de passas, para manter-se saciado com a necessidade de fomentar sua justificação. Revelou-se um gourmet intrépido por antroentomofagia, qualidade de quem se alimenta de insetos com prazer e uma devoção que leva ao gozo do estômago.

Direto ao pote, entre farinhas de grilo, barrinhas de besouro e espetinhos de escorpião assado, uma panela repleta de larvas suculentas e a demanda de mais de nove bilhões de pessoas rastejando por comida prevista para o ano de 2050, no novo debate global sobre o futuro da nutrição da humanidade pairando atônito sob uma nuvem de gafanhotos, animais ricos em polifenóis e vitamina C, viajando em um bando de 40 milhões, monitorados pelo Ministério da Agricultura Brasileiro, dizimando as plantações de um mundo vegetando epidêmico, que aniquila faminto.

Há anos, os insetos ganharam uma distinção especial na mesa de assuntos da ONU, com um programa de incentivos dando asas a criação das espécies certas, juntando a praga da fome com a vontade de comer, onde já são mais de três mil grupos étnicos em 120 países que os devoram sem discriminaliza-los, como suplemento alimentar e são os astros principais em cena de uma dieta rica em proteínas, fiéis e baratos substitutos da carne vermelha.

Portanto, desfaçamos o nó da garganta, as caretas repugnantes e os narizes torcidos em aversão com o bom paladar, quando percevejos não podem mais ser renegados, vespas não podem continuar repelidas, baratas não mais espreitadas por jatos de inseticidas e a boca pode se permitir ficar cheia d’água ao ouvir o canto crocante de uma cigarra ecoando nos recantos das papilas gustativas do céu da boca, dando o ar do desprezo a qualquer implicância com uma lagartinha com gosto de toucinho quando ela pode glamourosamente triunfar grelhadinha em farinhas de milho temperada e disputar igualmente com a abundância de formigas tanajuras fritas na manteiga, o primeiro lugar de um prato de farofa de mandioca, saborosissimo e famoso no Nordeste do País. Muito mais ecológico que criar gado, pois, a pecuária é responsável por 14% da emissão de gases, produzindo um ferrão venenoso no mundo do efeito estufa e contribuindo com uma outra iguaria para os adeptos, uma mosca, depositando seus ovos, direto na sopa dentro do caldeirão do aquecimento global, formando mais buracos na camada de ozônio.

Contudo, para não criar complicações indigestas e nauseantes, não dá para sair por qualquer jardim caçando com unhas e dentes, comendo qualquer coisa que se mova seduzindo sinuosamente neste hemisferio do palato. Há determinadas mariposas, borboletas e formigas que podem provocar bolhas na pele e mucosas e até envenenamento por substâncias tóxicas sequestrada de plantas hospedeiras de toxinas. Prudência pra quem tem predisposição alérgica cruzada com os crustáceos, canja de galinha, não faz mal a ninguém.
Boas línguas em papos de gastronomia, a insetivoria é um gosto que também não se discute, aprende-se a cultivar e pode literalmente, mais que encher linguiças, acabar em pizza. Sal de frutas e bom apetite!