Drive-in: um filme que Campos já viu

Com a pandemia esse tipo de entretenimento ressurge em várias cidades brasileiras com novo formato

Campos
Por Aloysio Balbi
29 de junho de 2020 - 0h01

Nas mudanças de hábitos impostas pela Covid-19, um dos segmentos que terão que se adequar é o de entretenimento, entre eles, o centenário cinema, hoje, confinado em salas de projeção. Isso fez o segmento reinventar um passado que muitos já tinham ouvido falar, mas que poucos viram: o drive-in, que são telões a céu aberto, onde as pessoas assistem ao filme dentro de seus carros. Nos anos 70 havia alguns, em poucas cidades brasileiras, e Campos é uma dessas que pode dizer que já viu esse filme. Exatamente nos anos 70, no bairro do Jóquei Clube, o saudoso empresário Jorge Mothé, abria as cortinas de uma imensa tela de concreto com 18 metros de altura e 20 de largura, que foi construída observando o movimento da lua, para não comprometer a projeção.

Isso colocava Campos entre as raríssimas cidades brasileiras a ter esse tipo de cinema, onde se entrava com o veículo, estacionava e se divertia. Outros drive-ins, tinham caixinhas de som ao lado do carro, mas o de Campos desenvolveu uma tecnologia onde o pessoal captava o som do filme, através do rádio do carro.

Ao centro, o empresário Jorge Mothé e o então prefeito José Carlos Vieira Barbosa

Era um conforto com direito a serviço de bordo. Bastava o motorista piscar o farol do veículo e solicitar o serviço com refrigerantes e pipocas trazidos em uma bandeja por garçons. A bandeja era colocada em um suporte na janela do carro para o conforto ser ainda mais cinematográfico.

O drive-in de Campos entrou para a lista das coisas que Campos já teve, como o Teatro Trianon, o próprio Jóquei, entre outros. O herdeiro desta história, Jorge Mothé Filho, dela só tem a memória. Era um adolescente quando o pai, um empresário arrojado, decidiu construir o drive-in, com orientação do amigo Ricardo Amaral, na época, o Rei da Noite no Rio e em São Paulo. Sob a tela, nascia também aquela que teria sido a melhor boate de Campos, a Cave, que marcou mais de uma geração de jovens, hoje todos acima dos 60 anos. E, no mesmo complexo, um pub, chamado Lorde, um bar bem inglês.

“Eram bons tempos. Que eu saiba drive-in naquela época existia no Rio de Janeiro, no bairro da Lagoa e em São Paulo. Quem passava pela Avenida 28 de Março podia ver aquele imenso telão de concreto, como em muitas cidades dos Estados Unidos. Era uma coisa bonita e moderna. A Cave era uma boate impar, frequentada pelos jovens. Marcou um tempo para pelo menos duas gerações”, disse Jorginho.

Os drive-ins que começam a se espalhar por grandes cidades brasileiras têm um perfil diferente. No Rio de Janeiro, um cinema drive-in está funcionando, no estacionamento da Jeunesse Arena, no Parque Olímpico da Barra da Tijuca, zona Oeste da cidade. O “LoveCine Drive-In”, tem telões de alta definição.

Jorge Mothé, que construiu o Drive-in, assessorado por
Ricardo Amaral o então Rei da Noite no Rio e São Paulo

Mais do que cinema, os novos drive-ins são eventos que podem migrar de um estacionamento de um shopping para outros, não tendo como antes um lugar fixo, ou uma tela fixa. No Rio, os organizadores do evento afirmam que as medidas de distanciamento social serão respeitadas, seguindo as recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde) e dos poderes estadual e municipal. Para Jorginho Mothé, Drive-in como o de antes, nunca mais, até porque não justificaria o custo. Segundo ele, a própria concepção de cinema em casa, com projetores de alta definição e as modernas televisões, deram um golpe mortal nos cinemas tradicionais.

Se você pegar o Roxy, na rua Bolívar em Copacabana, no Rio, perceberá que uma das maiores salas de cinema da cidade, acabou se dividindo em quatro, como acontecem nos Shoppings. Esse exemplo você pode perceber em Campos com o fim do Goitacá, Dom Marcelo, Capitólio, São José e Coliseu, que eram grandes cinemas, e acabaram.

Os cinemas de certa forma nunca deixarão de existir, mas a forma como são vistos sim. Neste momento os drive-ins substituem, em algumas cidades, as salas de projeções, lacradas em muitos municípios por causa da Covid-19.

Jorginho Mothé fala com muito orgulho do arrojo do pai e lembra que o drive-in, juntamente com o Jóquei, que também acabou, levou a energia elétrica para aquele bairro. Ele chega a se emocionar. Perguntado se hoje o drive-in de Campos voltasse qual seria o filme da pré-estreia ele não vacila e rapidamente diz “para os jovens, o filme deveria ser De Volta ou Futuro. E, para a rapaziada mais antiga, o eterno O Vento Levou”.