Artigo Cláudio Andrade: Pandemia divorcia de DIREITO quem já estava de FATO

O falso oxigênio que a rua proporcionava aos casais de fachada deu lugar ao respirador artificial do convívio diário e, às vezes, ininterrupto.

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Por Cláudio Andrade
24 de junho de 2020 - 17h53

O casamento para alguns é algo inesquecível, sublime, histórico e que deveria unir o casal para sempre. ‘Até que a morte os separe’, já diziam os padres, há séculos, antecedendo o beijo simbólico dos noivos.

 

Para escritor irlandês Oscar Wilde o casamento é o fim do romance e o começo da história, será? Qual história esse fenômeno da escrita estaria se referindo? Aquela escrita dentro do relacionamento, onde temos que ser pacientes, solidários, inteligentes e focados para manter a chama do eterno amor acesa ou a história pronta, rotulada, fantasiosa, estática, posta, diariamente por milhões de casais nas redes sociais?

 

Nosso amado Nelson Rodrigues já dizia que só o cinismo redime um casamento, pois para ele é preciso muita desfaçatez para que um casal chegue às bodas de prata. Será o que o jornalista pernambucano e torcedor fanático do Fluminense queria dizer ou antever?

 

A pandemia chegou e não pegou desprevenidos somente a ciência, os profissionais da saúde e os poderes públicos. A COVID 19 tomou de assalto o cotidiano de muitos casais que, por não estarem juntos o dia inteiro, dormindo em muitas situações, em quartos separados, ao chegarem a casa, perceberam que o teatro social do ‘bom casal’ não é possível de suportar na coxia.

 

A hiperconvivência entre os casados ganhou inesperados ares de Big Brother e já é fácil adivinhar quem está no paredão: o relacionamento. Tudo que era colocado comodamente para debaixo do tapete subiu que nem poeira e começou a circular pela casa como o vírus da verdade.

 

Nesse contexto, o olho no olho, que antes da pandemia quase não acontecia, deu lugar a discussões de relacionamento sem que haja a possibilidade de fugir dos desconfortáveis temas. Agora, entre uma roupa pendurada no varal e uma máscara de proteção secando ao sol, há sempre o sexo inexistente há anos, o desleixo corporal e o amor negligenciado na pauta.

Ficou difícil conviver? Não! Claro que não! Ficou difícil ter que enfrentar a realidade que era relativizada quando o casal sai de casa às 6h da manhã e retornava tarde da noite. O falso oxigênio que a rua proporcionava aos casais de fachada deu lugar ao respirador artificial do convívio diário e, às vezes, ininterrupto.

 

A bengalesa Madre Teresa de Calcutá dizia que um coração feliz é o resultado inevitável de um coração ardente de amor. Será que a pandemia e o isolamento social, necessários, estão transformando a aparência dos relacionamentos em novo amor ou servindo para abrir a porta da casa para o fim do relacionamento?

 

Finalizo com uma frase célebre do escritor carioca Machado de Assis que de forma brilhante disse que cada qual sabe amar a seu modo; o modo, pouco importa; o essencial é que saiba amar.

Que a pandemia está separando os casais isso está, mas é verdade também que após muitas tempestades surge o arco íris, vai que na sua casa hoje o dia está ensolarado, após uma noite de muita chuva?

Eu ainda creio, e você?