Bem casados

Por Cláudia Cunha

BLOG
Por Claudia Cunha
14 de junho de 2020 - 14h50

No altar da confeitaria, os bem casados disseram sim e ascenderam como a lembrança mais disputada no final da festa nupcial com o doce significado de um pedaço da felicidade partilhada pelo casal.

  As duas pequenas e redondas massas de pão de ló assadas, que se unem acasaladas por suaves e cremosos recheios ungidas por caldas grossas de açúcar, simbolizam em certidão, a união reconhecida de dois indivíduos que se completam como se fossem um só, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza.

   O mesmo laço que enlaça a embalagem de vestimento da iguaria,  que teve a sua origem em Portugal, entrelaça significados de razões sentimentais, alinhavando sabores que evidenciam a predestinação da realização do sonho de duas pessoas em total comunhão com o fascínio gustativo que se mistura a cada mordida de desejo e lascívia, na lua de mel com o prazer da saciedade indissociável entre apetites de cama e mesa, no leito de alianças da gastronomia.
    Fermentado o tempo com a mudança do estado social ou civil e solado as declarações de amor pelas guerras diárias sacramentadas na futura lua-de-fel da convivência, meto a colher nas discussões e brigas e, conto que a origem da aliança matrimonial não tem nada de romântico. Deriva de um anel usado no passado, para assinalar a mulher raptada, cujo destino era se tornar escrava e objeto sexual do homem e costumava ser colocado na canela ou joelho da desventurada para impedir que fugisse. Épocas mais tarde, com o arrefecimento do machismo, passou -se para o pescoço e, finalmente para um dedo da mão, até que a morte os separasse por descomunhão natural  com a vida ou pelo inventariado do amor em adultérios e indiferença .
   Hoje, feminicídios institucionalizados em genocídio, namorados e maridos metendo os pés pelas mãos em epidemia de relações abusivas e defraudadas, coações asfixiantes, intimidacões, empurrões, tapas e gritos, como quem desandou a receita do equilibrio em um relacionamento saudavel. Crises de ciúmes gerando hematomas em ritos de pancadas por agressividade e, sem dobrar a língua,  incitando humilhações e torturas psicológicas, ditando as regras e dando as cartas do encontro marcado com a morte, como se a mulher não merecesse o doce, se não provar do amargo. Do tiro disparado pelo revólver à queima roupa, do ácido que a transfigura,  da facada que rasga suas entranhas, dependente economicamente ou não, na subtração e retenção de bens de uma firme relação bandida, nesse namoro passional e violento que  assinala à sangue frio e lhe estupra e implode a alma em baixa autoestima por injúria, calúnia e difamação, além da herança do  corpo abjeto violentado.
   Lei Maria da Penha, constituída  medida protetiva punitiva por tantas queixas de violência doméstica vindas de  um amor delitivo que adoeceu em tom de ameaças, perseguição e mesmo assim, o patriarcal não respeitando o distanciamento imposto, entrou para o mundo dos casados com o crime premeditado, sem condição de defesa para a vítima de um dos dez mandamentos, sendo sentenciado réu culpado no cartório do homicídio doloso e hediondo .
   Terra como véu, cobre o sepulcro da mulher inocente, violada, abatida. Era para ser apenas,  tão somente, amada e respeitada…
    Enfim…voltemos à cena da comemoração, de início do romance com o tão sonhado e aguardado matrimônio.
  Momento fabuloso e original de contemplação lúdica, o instante mágico de jogar o bouquet de flôres para o alto.
  Tradicional condescendência da fantasia para atrair realizações com prosperidade e fertilidade para os noivos e também um bom casamento para quem agarra-lo…como quem está com  o coração nas mãos.
        Boa Sorte aos nubentes!