Ônibus escassos na crise gerada pela pandemia do coronavírus

Com a redução de passageiros, empresas diminuem a frota circulante e problemas continuam

Geral
Por Ulli Marques
12 de junho de 2020 - 18h15

Não é de hoje que o transporte público é alvo de críticas por parte da população de Campos. Se antes o problema era referente à falta de estrutura e organização — que buscou ser solucionado por meio da implantação de um novo sistema ainda não concluído — agora, diante da pandemia da Covid-19 e dos decretos de isolamento social, aqueles que dependem desse serviço veem-se em ainda pior situação, tendo de esperar pelos ônibus por mais tempo ou rendendo-se ao transporte alternativo. Isso porque a frota de todas as linhas da cidade foi reduzida e o motivo não é principalmente econômico: menos de 30% de passageiros pagantes continuam circulando e essa “queda absurda põe o sistema de xeque”, segundo presidente do Instituto de Trânsito e Transporte (IMTT), Felipe Quintanilha.

É certo que 70% dos passageiros que costumavam utilizar os ônibus para se locomover estão, neste momento, em casa, seguindo as recomendações das autoridades médicas. No entanto, a porcentagem restante composta por atendentes de supermercado, de farmácia, profissionais da saúde e demais trabalhadores que atuam em serviços essenciais têm sofrido alguns transtornos para chegarem até os seus postos. Além disso, os idosos e estudantes perderam o direito à gratuidade durante esse período.

Aplicativo Mobi Campos é alvo de reclamações de usuários (Foto: Carlos Grevi)

A equipe de reportagem do jornal Terceira Via foi a alguns estabelecimentos desses setores e também fez uma enquete nas redes sociais com o intuito de questionar a população sobre suas opiniões a respeito das recentes adaptações no transporte público municipal.

Alguns elogiaram a medida: disseram que, de fato, é necessário reduzir a frota “para não facilitar as pessoas a saírem”. Outros, no entanto, afirmaram que, se o objetivo da redução é evitar a aglomeração, tal medida “não faz sentido” porque, “com menos ônibus circulando, esses tendem a ficar mais cheios”.

O cinegrafista André Santo, morador da Pecuária, desistiu do transporte público. Ele, que já tinha dificuldade para se transportar devido à escassez de veículos nas linhas Centro x Pecuária e Nova Brasília x Centro, agora sequer sabe qual o horário em que os ônibus passam.

“Percebi que o volume de passageiros diminuiu bastante, mas considero a retirada dos veículos negativa. Antes, sabíamos que poderíamos contar com o transporte para ir e voltar do trabalho, agora os horários estão indefinidos. Quando saio, fico muito tempo exposto na rua, sem saber que horas o ônibus vai passar. Por isso tenho utilizado o transporte alternativo. Tem saído bem mais caro financeiramente, mas é o único jeito”, comentou.

Já a atendente de farmácia Bianca Siqueira teve de mudar o horário de entrada no trabalho. “Chego atrasada todos os dias, já até conversei com meu chefe. Acordo mais cedo, mas de nada adianta por não sei que horas o ônibus vai passar. Às vezes fico 1h30 no ponto e nada”, reclamou.

Felipe Quintanilha representa a Prefeitura de Campos (Foto: Carlos Grevi)

Respostas da Prefeitura

Com base nesses depoimentos, a reportagem buscou uma resposta junto ao IMTT. Dentre as perguntas feitas ao órgão estavam: “Quanto por centro do contingente de ônibus diminuiu no município após os decretos de isolamento?”; “Quais linhas foram afetadas pela diminuição?” e “As vans que atendem distritos e localidades também sofreram alterações no contingente e horários?”. Essas perguntas não foram respondidas.

No entanto, segundo o presidente do órgão, Felipe Quintanilha,todas as linhas continuam em funcionamento, mas “com horários e frotas reduzidas para conseguir atender minimamente à população”.

“Entendemos que não é o ideal, mas é o factível neste momento de menos de 30% de passageiros pagantes circulando. O planejamento do IMTT é feito de acordo com a demanda de cada região do município”, explicou.

Quanto à queda no número de pagantes, fator preponderante para as mudanças no transporte municipal, Quintanilha explicou que isso gera, consequentemente, uma queda de 60% a mais de 80% da receita.  “O sistema está com dificuldades enormes para se manter, pelo fato de que o custo não diminui em contraponto à queda da arrecadação”, disse.

O presidente ressaltou que essa situação caótica ocasionada pela pandemia tem sido vivida por todos os municípios brasileiros: “o sistema está em colapso e é essencial o apoio federal com recursos para o sistema urgente”. Sobre isso, ele também destacou que “o Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes de Mobilidade Urbana têm lutado junto à Frente Nacional dos Prefeitos pela aprovação de ajuda federal para o Sistema de Transporte Coletivo”.

Quintanilha disse, por fim, que o canal de comunicação via WhatsApp, o Fale com a Gente do Mobi Campos — pelo número (22) 98152-1116 — continua em funcionamento, “respondendo em tempo real as demandas dos passageiros, de maneira a corrigir eventuais falhas e melhorar o serviço”. O aplicativo Mobi Campos, para Android, também está disponível.