Eles estão curados do coronavírus

Em Campos, mais de 200 pessoas se recuperaram do novo coronavírus; conheça as diferentes histórias de lutas, coragem e superação

Campos
Por Redação
31 de maio de 2020 - 6h00

Por Girlane Rodrigues, Ocinei Trindade, Priscilla Alves e Ulli Marques

De dezembro de 2019 a maio de 2020, quase metade das pessoas infectadas por Covid-19 no planeta foi curada. Isso representa mais de dois milhões e meio de pessoas. No Brasil, 166 mil venceram a doença, segundo o Ministério da Saúde e em Campos, mais de 200 pessoas são consideradas curadas, segundo dados da prefeitura.

 Nas últimas semanas, o Hospital Geral Dr. Beda cuidou de pelo menos 120 pacientes com suspeita e confirmação de Covid-19. São dezenas de histórias que envolvem dor, medo, incerteza, mas também muita esperança e fé na cura da doença. Cada um reage de um modo específico à doença que mais assusta a humanidade neste século devido à rápida propagação, a violência com que o vírus age no organismo humano, a falta de recursos na saúde para enfrentar a pandemia e o tratamento – com protocolos divergentes.

Nathália Pessanha

Lidar com o novo coronavírus é um desafio sem precedentes em que cada pessoa infectada sofre o impacto em um grau diferente. Do outro lado estão os médicos, que também passam horas desgastantes de cuidados redobrados com os pacientes e precisam ter ainda mais autocuidado, dado o alto grau de contágio da doença. A reportagem do Jornal Terceira Via ouviu a médica intensivista Nathália Pessanha, que conhece os dois lados. Ela, que trabalha na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Dr. Beda cuidando de pessoas com a Covid-19, se viu do outro lado quando precisou ficar internada na mesma UTI em que trabalha para tentar vencer a doença.

Médica intensivista – A coragem de voltar ao combate do coronavírus

“No primeiro momento, eu fiquei tranquila, pois não achei que eu ia piorar. Fiquei em isolamento em casa e sentia falta de ar e cansaço. Quando fiz a tomografia, apareceu uma pequena pneumonia e no sétimo, oitavo dia, o cansaço piorou muito e fui internada. Só que eu não respondi bem ao tratamento e precisei ir para a UTI. Na mesma UTI em que eu trabalho como médica, eu virei paciente”, contou.

Segundo a médica, os próximos dias foram ainda mais angustiantes, pois os sintomas evoluíram até que ela ficou em estado grave.

“Eu piorei muito, eu usei fralda, usei sonda, eu não conseguia respirar… eu fiquei grave, quase fui entubada. Enquanto isso, via a minha equipe cuidando de mim, inclusive me dando até banho no leito e trocando fraldas que precisei usar. Todos ficaram muito abalados e também se viam ali no meu lugar. Todos fizeram de tudo para que eu sobrevivesse. O Dr. Marcelo D’ávila foi incansável e falou que ia ficar ali até eu ficar bem e assim ele fez. Foram seis dias na UTI, até que comecei a melhorar. Tive que aprender a comer de novo, a ir ao banheiro sozinha, a andar, tudo aos poucos”.

De volta à linha de frente

“Minha vontade de ajudar e curar as pessoas é maior que meu medo de pegar outra vez”, diz Nathália depois de ficar cerca de 17 dias internada. Após a cura, ela escreveu uma carta como forma de agradecimento a equipe que cuidou dela. Agora, ela já está novamente na mesma UTI, só que desta vez de volta ao ofício de médica e cuidando de outras pessoas.

“Sou muito grata e hoje tenho uma visão diferente, porque descobri que é muito difícil ser paciente, principalmente com Covid, por causa do isolamento. O carinho da equipe é primordial, porque é a única humanidade que a gente sente nesse período. E a equipe da UTI do Beda tem essa humanidade. Eles tratam todos assim, são muito empenhados em salvar a vida de todos da mesma maneira. Sou muito grata ao Dr. Marcelo e a todos”.

A médica destaca também a entrega dos profissionais da saúde que lidam com estes pacientes. “A gente não faz xixi, não come, não tira o capote. Nós da saúde, que estamos lidando com pacientes Covid, precisamos ter uma entrega muito grande. Isso é preciso ser falado. Todos os dias ficamos com manchas no rosto. Estamos nos doando ao máximo”, concluiu.

Empresário Felipe Knust mantém cuidados mesmo após curado

Felipe Knust

Durante 10 dias, o empresário Felipe Knust não conseguia se levantar da cama. Dez dias com muitos sintomas e, principalmente, medo. Jovem, com apenas 39 anos, e saudável, ele não imaginava que a covid-19 pudesse derrubá-lo daquela maneira. Mas aconteceu.

O primeiro sintoma apareceu no dia 5 de maio. Dias antes, ele havia se encontrado com um amigo — ele com máscara, o amigo sem. Ambos foram contaminados.

Nos dias seguintes, o quadro se agravou: tosse incessante, perda do paladar e olfato, falta de apetite, dores no corpo e indisposição. “O que me ajudou foi ter buscado ajuda rápido. Três dias após o início dos sintomas, eu fui ao hospital, fiz o teste e iniciei o tratamento com hidroxicloroquina, amoxicilina, azitromicina e antialérgico. Só comecei a ter uma melhora quatro dias após começar a tomar esses medicamentos. Tenho refletido se eu teria me recuperado caso eu não tivesse procurado um médico logo no início”, relatou Felipe que, embora não tenha tido “falta de ar”, considerado o sintoma mais grave da doença, teve 25% do pulmão comprometido devido ao coronavírus.

Agora, livre da doença, Felipe faz um apelo: “As pessoas precisam levar a sério. Além do fator clínico, há o fator social: o contágio é muito rápido. Se não nos responsabilizarmos, colocamos outras vidas além das nossas em risco. A Covid-19 não é uma ‘gripezinha’, é uma doença grave. É preciso que todos tenham consciência disso. E, caso sintam algum sintoma, busquem ajuda o mais rapidamente possível. Foi essa atitude que salvou a minha vida”, concluiu.

 

Representante comercial Everaldo Vieira ficou sete dias no hospital

Everaldo Vieira – “Hoje, eu choro de alegria”

Foi no dia 9 de abril, quinta-feira santa, que o representante comercial, Everaldo Vieira de Souza, de 57 anos, começou a sentir dores abdominais estranhas, mas não imaginava o que poderia acontecer. Em seguida, surgiram uma queimação na garganta e calafrios. “Eu não tinha febre, mas na verdade já eram sintomas do novo coronavírus e eu não estava entendendo. Cheguei a perder o paladar e o olfato”, conta.

Everaldo lembra que o olfato voltou dias após a perda, mas os demais sintomas começaram a piorar, até que surgiu a falta ar. “Depois de doze dias dos sintomas, senti minha respiração prejudicada. Fui ao hospital e foi constatado que o meu pulmão estava 50% obstruído. Fui internado e fiquei aguardando o resultado dos demais exames”, comenta.

Everaldo ficou sete dias no hospital. E nesse momento, a solidão e medo foram os sentimentos que preocupavam o seu coração. “Era assustador ver aquele ambiente todo fechado. As pessoas com medo. Você se sente mal pela situação. Por outro lado, tem a solidão e você lembra de quantas pessoas morreram por causa disso. Foi um momento muito difícil”, revela.

Depois desse período internado, o representante comercial recebeu alta para terminar o tratamento da Covid-19 em casa, completando 14 dias de isolamento. “Quando eu soube que os resultados dos exames estavam melhorando, foi uma alegria muito grande. Sem falar no dia da alta, eu me senti vitorioso. Eu só tenho que agradecer a Deus por ter passado por isso. Hoje, eu choro de alegria”, comemora.

Casados, Keli não teve sintomas, mas Cláudio passou 29 dias na UTI

Keli e Cláudio

 O casal Keli e Cláudio Martins foi infectado pelo novo coronavírus. Ela não teve sintomas, mas ele agravou e precisou de 29 dias de internação, UTI e respirador. Ao receber alta, Cláudio disse: “que as pessoas nunca percam a esperança e lutem sempre pela vida”.

Temendo não conseguir se recuperar, assim que foi entubado, Cláudio pediu que enfermeiros lessem uma carta que a esposa escreveu para ele. Disse que “caso não voltasse, gostaria que dissessem à esposa que os melhores anos de sua vida foram os vividos junto a ela”. Emoção não falta nesses momentos difíceis.

Casal enfrentou junto o novo coronovírus

Karen Sevilha e Jozias Sevilha

Outro casal que enfrentou junto a Covid-19 foi a médica Karen Sevilha e o engenheiro Jozias Sevilha. “Estamos bem. Após passagem pelo hospital, fomos para um lugar afastado da cidade para seguirmos com os cuidados”, disse Karen.

A saída de cada paciente do Hospital Dr. Beda é comemorada com os profissionais de saúde. Nas redes sociais, foram festejados pessoas que se curaram da Covid-19,  como João Carlos Cordeiro, Rita de Cássia Monteiro, Diogo Fidelis, Clóvis Duarte, Ana Célia Pessanha e Abymael Silva. A comoção é compartilhada com todos, pois a doença exige forças e superação de cada pessoa infectada e seus cuidadores.

OS CURADOS –

Rita Paes

A enfermeira Rita Paes, especialista em terapia intensiva e coordenadora de uma das UTIs do Hospital Beda também enfrentou a Covid-19 como paciente. “Comecei com sintomas, fiz exames e veio o resultado positivo! Passei a ser paciente! Senti na pele muito de tudo que presenciei no CTI. Tive de receber cuidados médicos, afastar-me da família, dos amigos, do trabalho, de meus pacientes que tanto precisavam de meus cuidados. Confesso, não foi fácil. Tive medo também, como qualquer ser humano em situação semelhante, mas venci a Covid-19. Torço pela vitória de todos sobre a doença”, diz.

OS CURADOS –

Valéria Meirelles

Outra enfermeira do Beda, Valéria Meirelles, ficou internada no hospital por 19 dias com  Covid-19. Sete destes, no Centro de Terapia Intensiva. “Comecei a sentir dor nos olhos, na cabeça, fiquei muito indisposta, pensei que fosse gripe. Não identifiquei febre, mas a dor no corpo e nas costas aumentou. Precisei ir para a emergência. Na tomografia, pelas imagens, acusou coronavírus. “Não precisei ser entubada, fiquei na posição prona que melhora a respiração. Hoje, estou bem, voltei ao trabalho. Foi um período muito difícil”, relatou.

ARTE

Coronavírus no mundo

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Coronavírus no Brasil

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Mortos — 28 mil

Coronavírus em Campos

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