Dom de enCantar

A voz mais marcante de Campos se cala e deixa um legado de saudade

Campos
Por Bernardo Rust (Estagiário)
31 de maio de 2020 - 6h00

Dom Américo partiu na última segunda-feira (25), deixando saudades

“Já bateu saudade dos momentos maravilhosos que ficaram eternizados na memória.” “Um cara do bem, com um talento e coração enormes”. “Ele tinha o ‘dom’ e dava o tom do som, num jeito muito bom. Por trás da irreverência um cara que é importante ressaltar tratava a música com muita seriedade e respeito”. “Um dos maiores artistas de Campos foi brilhar no céu”. Essas foram algumas frases de amigos e familiares que se despediram de Osvaldo Américo Ribeiro de Freitas, o Dom Américo, que partiu na última segunda-feira (25), após dois meses internado por problemas respiratórios e cardíacos.

Osvaldão, como também era conhecido, deixará saudades para os amantes da música em Campos. No auge de sua carreira, o artista campista chegou a fazer participações em programas de auditório na década de 90, tendo participação de maior destaque no programa “Onze e Meia”, apresentado por Jô Soares.

Em uma entrevista concedida ao apresentador Cláudio Andrade no programa “A Polêmica”, no ano de 2017, Osvaldão contou como sua carreira musical se iniciou, no ano de 1967, no município de São João da Barra.

“Comecei minha carreira em um ato de teatro que teve no Clube Congos, em São João da Barra, no ano de 1967. Alguns amigos que estudaram comigo no Colégio Agrícola, ficaram sabendo deste ato e foram até a minha casa me convidar para participar, já que sabiam que eu gostava de cantar. A primeira canção que interpretei, foi de Agnaldo Timóteo, que é uma referência pra mim”, declarou Dom que na época, morava na praia de Atafona.
Porém, se engana quem acha que Osvaldão viveu apenas de música. O artista foi professor da Escola Agrícola e paisagista do Cemitério Campo da Paz. Durante o tempo que lecionou na escola, Dom era um daqueles professores que as turmas adoravam. Sempre calmo e paciente, utilizava de todo o seu carisma para conseguir passar os ensinamentos aos alunos.

“Osvaldo estudou aqui e como aluno, nunca deu problema para a direção. Como professor, dava aula de técnicas agrícolas, buscava sempre ajudar a todos. Os alunos que não entendiam, ele se aproximava, explicava com paciência e no fim das aulas, sempre terminava com uma brincadeira com os alunos”, contou Almir Paes Cavalcanti, que é funcionário da instituição.

Porém, a música falou mais alto na vida de Dom Américo, que teve que optar pela sua carreira artística em vez de continuar dando aulas. Mesmo sem lecionar na instituição, ele manteve seu vínculo com o lugar e sempre estava em contato com os amigos que ainda permaneceram por lá.

“Mesmo sem dar aula aqui, Dom Américo mantinha contato com os funcionários. Em algumas ocasiões, chamávamos ele para poder dar um pouco de alegria aos alunos internos da instituição, que ficavam tristes por estarem longe dos pais. Quando ele ia embora desses encontros, o astral era outro. As crianças ficavam mais alegres e, com isso, tinham um melhor desempenho acadêmico”, relatou Almir, que também contou com orgulho a homenagem que a escola fez a Dom ainda em vida.

A gente homenageou ele em vida, batizando o nome da Banda marcial da escola com o nome Professor Américo Freitas. Dom fez parte da banda enquanto aluno e foi maestro dela enquanto era professor”, lembrou.

O jornalista Antunis Clayton, que era grande amigo de Osvaldão, lembra com carinho das histórias e de quando Dom Américo se apresentava no bar que era de propriedade de seu tio em Guarus.

“Osvaldo se apresentava sempre aos domingos. Aos sábados, ele ensaiava com seus músicos e eu era sempre o primeiro a escutar. Então, a primeira opinião dos shows era sempre minha. Depois, ele começou a trabalhar no cemitério Campo da Paz e me chamou para trabalhar com ele no setor administrativo do cemitério”, lembrou com carinho Antunis.

“Era um amigo generoso, sempre prestativo, que a gente podia sempre contar. Me lembro que ele era muito apaixonado pelo Goytacaz. Tanto que quase obrigou seus filhos a torcerem pelo time da Rua do Gás, que inclusive tem uma das versões do hino gravado pelo seu filho, Apollo. Se o Dom Américo não gravou o hino do seu time de coração, seu filho teve a oportunidade, principalmente como forma de homenagem para o pai, que pra mim, é um dos maiores nomes da cultura local”, declarou o jornalista.

Apollo Ramidan, filho de Dom Américo, lembra com carinho do pai e diz que o cantor era o mesmo em cima do palco e dentro de casa. “Meu pai e eu sempre tivemos muita afinidade e cumplicidade um com o outro, e pra mim, isso fará uma falta enorme, a ponto de não conseguir imaginar minha vida sem ele. Meu melhor amigo. Ele era o mesmo dos palcos dentro de casa. Sempre feliz, alegre, de bem com a vida. Sentiremos uma saudade eterna. Mas, com Deus e minha Nossa Senhora, a gente segue em frente. Vamos continuar levantando a bandeira Dom Américo em qualquer lugar que a gente passar”, contou Apollo.

Foram cinquenta e três anos de carreira, que consagram Dom Américo como o maior cantor da história do município. A sua despedida dos palcos, não poderia ter sido diferente. Osvaldão cantou no encerramento do Carnaval na praia do Farol de São Thomé, onde sempre fazia questão de cantar nos verões e que morava no coração do cantor, que sempre falava com carinho do balneário campista.

Pouco tempo depois, acabou sendo internado no HGG e de lá não saiu mais. Durante os dois meses em que esteve internado, Dom Américo uniu a cidade em uma corrente de oração pela sua vida.

Infelizmente, essa batalha Osvaldão não conseguiu vencer. Porém, o artista deixou um legado para ser seguido. Um legado de alegria, carisma, amizade e paixão pela vida.