Artigo Cláudio Andrade: A morte de João Pedro

João é mais um que se vai, pois comunidade carente e bairros de periferia são laboratórios, verdadeiros estandes de tiro ao alvo

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Por Cláudio Andrade
27 de maio de 2020 - 14h59

João Pedro Matos Pinto, um adolescente de 14 anos foi baleado na última segunda-feira, 19, dentro da casa de seu tio, em São Gonçalo, na região metropolitana do Rio de Janeiro, durante uma operação conjunta das polícias Federal, Civil e Militar.

Parentes e amigos dizem que João Pedro Matos Pinto brincava com os primos quando os agentes invadiram o imóvel e atiraram em sua barriga. Já as polícias alegam que o adolescente foi atingido durante um confronto com bandidos que pularam o muro da casa.

Mais uma vez a moldura do quadro é a mesma. Preto, jovem, morador de localidade mais vulnerável e assassinado pelo Estado. Sim, isso mesmo, o Estado do Rio de Janeiro com apoio da União matou um jovem que sonhava em ser advogado.

Esse mesmo estado genocida que frequenta as áreas mais carentes como um leão africano é o mesmo que na zona sul carioca atua como gato domesticado em colo de madame.

Pior é constatar que apesar da morte ser claramente fruto de mais uma ação desordenada, João Pedro ainda vai ser fruto de infinitas insinuações. O menino que carrega o nome de dois apóstolos em sua certidão de nascimento, agora de óbito, será chamado de delinquente e alguma situação pregressa de sua vida será inventada para justificar a morte e, quem sabe, amenizar a indenização.

João é mais um que se vai, pois comunidade carente e bairros de periferia são laboratórios, verdadeiros estandes de tiro ao alvo, um açougue a céu aberto onde a carne de primeira não é comprada nos supermercados da Barra da Tijuca e sim, recolhidas, mal passadas e perfuradas nos asfaltos ou dentro de suas próprias residências.

A ideia do estado é antiga e se mantém até hoje sem planejamento. Onde o estado não chega com saúde, educação e segurança verdadeira, a ordem é fazer estatísticas.

Nesse contexto não vale o número de alunos alfabetizados, de crianças vacinadas ou de esgoto tratado. Isso custa caro! O que vale é vender a horrenda imagem de combate à violência e a forma mais contundente de vender a imagem de um estado forte é empilhando traficantes e, juntos a eles, por que não, inocentes. Esses coitados, apenas contabilizados como meros erros de cálculo.

Muitos podem dizer que esse texto é hipócrita, pois entrar em uma comunidade carente e ser recebido a tiros não é uma coisa simples. Vão dizer também para eu sair do conforto desse computador e ir para a pista.

Ora! Não é preciso ir para o asfalto para saber distinguir bandidos de mocinhos. Basta inteligência, combate à corrupção, valorização dos agentes de segurança de bem e respeito aos cidadãos negros da periferia. Uma turma que não mede esforços para ser alguém na vida e que deveria poder ser parado em uma blitz sem ser confundido com o vapor do morro, aquele que vende drogas para os brancos lustrados da classe média alta.