Artigo do Cláudio Andrade: A morte de Flávio Migliaccio

Ele reclamou dos adultos e pediu para que cuidássemos das crianças. Cuidando delas, estaríamos, na verdade, nos reeducando.

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Por Cláudio Andrade
12 de maio de 2020 - 14h23

A notícia da morte do fenomenal ator trouxe muita comoção aos corações sensíveis e não julgadores.

Flávio, antes de tirar a sua própria vida, escreveu que a humanidade não deu certo e pediu que cuidemos de nossas crianças.

Inicialmente, me desculpem os covardes, os hipócritas e os falsos pregadores da fé, mas a dor sentida antes de se matar é algo completamente fora da razão e não pode ser relativizada por ninguém. Calem-se, humanos rasos!

Os que se suicidaram levaram consigo a dor de não aguentar mais suas próprias adversidades. Não se mataram por não quererem viver e sim por não resistir aos obstáculos que o mundo terreno colocou-lhes à prova.

Quando o ‘Tio Maneco’ se preocupa em escrever uma carta antes de decidir partir por conta própria, ele deixa, de forma clara, a sua desesperança com os seres humanos que aqui habitam e rende fé nas crianças que ainda poderão ser formadas e moldadas para ajudarem na reformulação desse mundo louco.

Mesmo diante de uma pandemia, que já matou mais de sete mil pessoas no Brasil, há gente por aí descrente, egoísta, irracional e que por maldade ou desinformação, relativiza a necessidade da cooperação entre os povos.

O eterno ‘Seu Chalita’, mesmo desesperançado e prestes a se matar, lembrou-se das crianças e nos deixou uma obrigação enorme que sempre soubemos, mas muitos ignoraram. Educar!

Para Migliaccio o mundo ainda não acabou por causa das crianças, que são verdadeiros anjos a nós emprestados por Deus e que nascem em nossas famílias para que possamos ser pessoas melhores.

No que tange às religiões, o espiritismo não entende a morte como o fim da vida. É o fim apenas de uma experiência com determinado corpo. Nesse sentido, seria mesmo mais adequado dizer passagem. Passagem deste modo de viver para outro, sem o corpo físico.

Por outro lado, as igrejas evangélicas, na maioria dos casos, têm uma posição bem mais radical quanto à temática. Condenam todo ato suicida como pecado digno do inferno, que Deus não perdoa. A ideia, seguindo na mesma linha do catolicismo, é que a vida é um dom de Deus e, por isso, somente ele pode retirá-la. Desse modo, não é da alçada humana dar fim à própria vida.

Particularmente, como legislador fui autor da lei 8.808 de 21 de dezembro de 2017 que instituiu em Campos dos Goytacazes a semana de prevenção e combate ao suicídio, pois sempre tive preocupação com esse tão delicado tema.

Deixando de lado as posições religiosas sobre o tema, o importante é que Flávio, como em um roteiro de teatro, antes de morrer foi sábio. Ele reclamou dos adultos e pediu para que cuidássemos das crianças. Cuidando delas, estaríamos, na verdade, nos reeducando. Afinal, só dá amor quem tem e quem não tem, aprende com as crianças, pois essas amam sem a maldade que insiste em estar entranhada na maioria dos homens.