Entrevista: Marcelo Mérida diz que o comércio precisa respirar

Presidente da FCDL/RJ fala sobre os desafios do comércio no estado depois que a pandemia passar

Entrevista
Por Aloysio Balbi
4 de maio de 2020 - 0h01

Marcelo Mérida Aguiar é campista, está próximo de completar 50 anos, e em mais da metade deles têm se envolvido na luta pelo comércio e também desafios na área política, já tendo sido, ainda muito jovem, vice-prefeito de Italva. Mas pende mais para a economia do que para a política. Empresário de sucesso, Mérida hoje preside a Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas CDLs do Estado do Rio de Janeiro. Nesta entrevista ele fala sobre os impactos que a pandemia do coronavírus exerce sobre o comércio e outros setores produtivos.
Sem meias palavras, ele disse que as empresas do comércio estão morrendo sem um apoio efetivo, encerrando atividades e fechando postos de trabalho. Para ele, os números são alarmantes, como os da Secretaria Estadual de Fazenda, mostrando o impacto da paralisação das atividades das empresas do comércio. De março a 04 de abril, o varejo representou queda de 31% na variação final de emissão de notas.

Disse que é difícil prever, mas o que o comércio não consegue mais respirar, e não tem recursos para suportar muito tempo mais paralisado totalmente. Frisa não se tratar de exagero, e sim uma a realidade dura, que envolve a vida de centenas de milhares de trabalhadores e de empregadores. É preciso pensar o Brasil, o Estado do Rio e as cidades no pós-Covid. Essa crise vai passar, temos confiança, vamos controlar essa pandemia.

Você já tem ideia do tamanho do prejuízo do comércio no Estado do Rio de Janeiro a partir da quarentena do coronavírus?
As empresas do comércio estão morrendo sem um apoio efetivo, encerrando atividades e fechando postos de trabalho. Os números são alarmantes, como os da Secretaria Estadual de Fazenda, mostrando o impacto da paralisação das atividades das empresas do comércio. De
março a 04 de abril, o varejo representou queda de 31% na variação final de emissão de notas. Em março, nas primeiras semanas de restrições do Covid-19, a retração foi de -10,74% na emissão de notas fiscais, comparadas ao mesmo período de 2019. Em todo Brasil, as perdas diretas impostas ao comércio pela crise do coronavírus superaram R$ 55 bilhões, em dez unidades da Federação, incluindo Rio, Espírito Santo, São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Santa Catarina, por exemplo, que concentram 72,5% do volume nacional de vendas. Estima-se a perda de 1,8 milhão de empregos entre março e maio.

Assim que a pandemia se mostrou mais forte, quais as medidas no âmbito do comércio adotadas pela Federação?
Desde o princípio da pandemia do Covid-19 estamos em contatos com as CDLs fluminenses debatendo soluções e fazendo contatos com atores importantes da cena pública e privada. Oficiamos o governo do estado solicitando prorrogação e suspensão de prazos de obrigações tributárias. Solicitamos à Associação Brasileira de Shoppings Centers que fosse aberto diálogo para suspender e renegociar cobrança de contratos de aluguel com pequenos lojistas. Cobramos ao Governo Federal a suspensão e flexibilização de exigências para que o crédito chegue à ponta, reduzindo a burocracia com certidões, o que foi assegurado em parte com a edição da Medida Provisória 958, manifestamos preocupação quanto a continuidade dos ritos cartoriais de protestos.

Qual sua previsão para a volta plena à normalidade?
É muito difícil prever, mas o que sabemos é que o comércio não consegue mais respirar, e não tem recursos para suportar muito tempo mais paralisado totalmente. Não se trata de exagero, é uma realidade dura, que envolve a vida de centenas de milhares de trabalhadores e de empregadores. Estamos todos acompanhando os monitores de crise das autoridades em saúde pública, e a volta à normalidade depende muito da eficiência do estado ( Federal, Estadual e Municipal) nas diferentes medidas que vem sendo adotadas, mas o que a gente vê é que não há muita clareza dos governo sobre projeções nessa área, e uma falta de alinhamento que traga uma mínima segurança na sociedade civil.

Temos pela frente uma das datas mais importantes do calendário do comércio, o Dia das Mães. Seria simbolicamente um ponto der partida para a retomada das atividades?
Isso seria muito importante para o comércio, porque o Dia das Mães guarda todo um simbolismo para quem presenteia e é uma das datas mais importante do calendário do varejo também. Temos que respeitar a defesa da vida, mas também o equilíbrio social e econômico. Acho possível avaliar soluções pontuais, de acordo com a realidade de cada uma das cidades fluminenses, com um mínimo de flexibilização, respeitando os cuidados e orientações das autoridades em saúde pública sobre aglomeração, número máximo de clientes em cada loja, higienização com álcool gel, horários especiais, rodízios de bairros, por exemplo.

Existe uma grande preocupação da Federação com lojistas que não vão conseguir superar os obstáculos e vão fechar seus negócios. Isso é fato?
É preciso pensar o Brasil, o Estado do Rio e as cidades no pós-Covid. Essa crise vai passar, temos confiança, vamos controlar essa pandemia. Mas para salvar o setor produtivo, seja empresas e milhões de empregos, será preciso um amplo plano de reconstrução da economia. Algumas cidades do estado do Rio já sinalizam em até 40% de encerramento de empresas, isso é muito impactante, porque reduz circulação de recursos, postos de trabalho, diminui a geração de tributos, é um efeito em cascata que precisa ser tratado com diálogo pelos governos, pelos atores privados, com as instituições representativas dos segmentos produtivos.

Quando as coisas de normalizarem o setor terá condições de manter o nível de contributivo de hoje, ou seja o pagamento de impostos?
De forma nenhuma as empresas terão condições de arcar com a mesma carga tributária que já era insuportável antes da pandemia. Temos que repactuar prazos, índices, oferecer linhas subsidiadas, para que o crédito que vai salvar as empresas também salve o Estado. O impacto na arrecadação fluminense foi intenso com a paralisação das empresas. Só o Estado do Rio deve ter uma queda de arrecadação da ordem de R$ 11,7 bilhões com o Covid-19, porque as empresas não produzem, não comercializam. E quando a crise acabar, restarão empresas totalmente abaladas por seus efeitos, com uma forte retração do consumo. O Índice de Confiança do Consumidor (ICC), que é medido pela Fundação Getulio Vargas (FGV), recuou 22 pontos em abril na comparação com mês de março deste mesmo ano. Isso significa dizer que quando o consumidor recua, o comércio retrai. Vai ser todo um processo de reconstrução da economia, lentamente, que não pode prescindir de apoio direto dos governos. Estamos falando de impactos semelhantes a pós guerra.

Você considera tímidas as medidas de governo nos âmbitos municipal, estadual e federal para socorrer o setor?
Quem tem fome, tem pressa: o setor produtivo está morrendo, as empresas fechando, trabalhadores perdendo seus empregos. Vejo muitas tratativas e muito pouco resultado, alguns municípios são mais efetivos que outros, e o governo federal adotou medidas econômicas e sociais necessárias, mas se perde nas polêmicas que ele mesmo cria, ou seja acaba não chegando na ponta, tudo é muito emperrado e mais lento que o avanço dos problemas causado pela demora das soluções . Não acho que falta diálogo, que falte abertura para ouvir, mas falta decidir mais rápido, para gerar resultados efetivos. O ambiente de enfrentamento de uma pandemia como a do Covid-19, em que tudo é muito dinâmico, rápido, letal, cria-se um hiato a lentidão do Estado em todas as esferas.

O setor do comércio é o maior gerador de empregos do país. Você em ideia no estado do Rio o percentual de postos de trabalho fechados?
Os dados estão sendo fechados ainda, mas o Ministério da Economia mostra que inicialmente cerca de 5 milhões de trabalhadores formais do Brasil tiveram seu emprego afetado pelo Covid-19. Mais de 804 mil pessoas já perderam o trabalho e precisaram recorrer ao seguro-de-sem prego durante a pandemia do novo coronavírus no Brasil. E a maior parte desses trabalhadores está nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Mas temos certeza de que o impacto é muito maior, pelos informes que recebemos de diferentes CDLs apontando para o encerramento das atividades de empresas em larga escala.

Que tipo de incentivos dos governos o comércio precisará para voltar à normalidade?
Vai precisar ser ouvido e ser atendido, não apenas escutado. O comércio terá que contar com linhas subsidiadas de crédito, principalmente a juros zero por bancos públicos, vai ter que contar com regime diferenciado de exigências em função da crise. Vai ser preciso que os governos municipais abram suas portas para o comércio e dialogue sobre soluções conjuntas, que viabilizem a continuidade da atividade, a continuidade da geração de empregos. O poder público Municipal será fundamental nos arranjos locais, para a superação desta crise.

Neste período de quarentena você fez quantas vídeo conferências para tratar de assuntos relativos ou comércio?
Temos feitos reuniões virtuais com aplicativos de chamadas, de mensagens, com diferentes atores, a todo a instante, buscando construir soluções não só para os problemas atuais, onde interagirmos para aberturas dos comércios locais, sempre respeitando a ciência, mas também buscando já iniciativas para que ao final desta crise o comércio continue a contribuir com o crescimento da economia, com a geração de empregos, com o fortalecimento do Estado e das cidades fluminenses.

Em especial alguma cidade do estado do Rio de Janeiro, no que se refere a recuperação do comércio te preocupa?
Como presidente de uma Federação Estadual de CDLs eu me preocupo igualmente com todas as cidades. Tirando uma ou outra particularidade do comércio de cada cidade, de cada região, todos estão sofrendo muito os impactos da crise. Como lojista de vocação, a frente de uma empresa de seis décadas no Centro Histórico de Campos, olho com tristeza as lojas fechadas, os empregos sendo eliminados. Mas sei que o comércio tem a força para superar isso, se for ajudado, ou se pelo menos, não atrapalharem a recuperação acontecera. Olho com muita tristeza a pouca efetividade do homem publico neste processo, mesmo num momento de eminência de MORTE, o que me parece é que o jogo político prevalece em alguns casos.

Você acha que esse será um Natal de sequelas da pandemia, ou o consumidor pode surpreender?
Natal é época de alimentar a esperança, de crer no nascimento de tempo melhores. A gente confia muito na capacidade do comércio de se superar. Mas uma coisa que essa crise da pandemia ensinou com dor é que todos dependem de todos, e até isso o Natal inspira em nós a ser diferentes. O comércio precisa de apoio para chegar até o Natal, e assim ver esse ano fechar com uma esperança de superação e de renovação.