Política confusa e economia frágil fazem pandemia ‘pegar’ o Brasil no contrapé

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Guilherme Belido Escreve
Por Guilherme Belido
19 de abril de 2020 - 0h01

Política confusa e economia frágil fazem
pandemia ‘pegar’ o Brasil no contrapé

E ainda pior, a ideologia influenciando na agenda administrativa do Planalto

De certo, só a incerteza perambula pelos próximos dias sobre os rumos da Covid-19. As especulações surgem na mesma velocidade com que a doença se espalha, não havendo qualquer segurança em se apontar, a curto prazo, o caminho que deve ser seguido para conter o coronavírus e, ato contínuo, vencê-lo.
Sem entrar em detalhes técnicos e nos eventos mais recentes da última semana, em que o presidente Bolsonaro substituiu o ministro da Saúde justamente quando o ritmo das mortes no Brasil registrou leve sinal de desaceleração, fato é que a pandemia não é um episódio nacional mas, bem ao contrário, produziu (e ainda produz) danos bem mais severos em países como Itália, França, Espanha, Reino Unido e, principalmente, nos EUA.
Mas, ações de combate à doença à parte – que não são objeto desta abordagem – o fato é que a pandemia ‘pegou’ o Brasil numa fase sui-generis, diria no contrapé, o que certamente está reduzindo a eficiência do País nos trabalhos de prevenção e no tratamento dos infectados.
O ‘contrapé’, ou desequilíbrio, é facilmente identificável e pode ser dividido em três partes: 1) Turbulência política. 2) Fragilidade econômica. 3) Estéril conflito ideológico.
Esse ‘tríplice desarranjo’, que vem tomando conta do Brasil nos tempos recentes, contribuiu sobremaneira para deixar o País desestruturado justo na hora em que precisaria estar forte e coeso para travar as batalhas contra o inimigo comum. Senão, vejamos:

1) Turbulência política
Desde o início de 2019, o Palácio do Planalto vem colhendo as desavenças provocadas pelas frequentes falas imprudentes do presidente Bolsonaro.
O comportamento valeu ao Planalto problemas com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia; com congressistas em geral; com a classe artística; com o presidente da OAB; com a imprensa; com partidos e até mesmo com ministros do próprio governo.
As constantes e inoportunas declarações favoráveis ao regime militar; o apoio à indicação de seu filho, Eduardo Bolsonaro, como embaixador em Washington, gerando um turbilhão de críticas; a omissão ante os sucessivos tuítes agressivos e ofensivos de seu outro filho, Carlos. E ele próprio, nas redes sociais, com suas famosas postagens dissociadas da liturgia do cargo.
Seja por estilo, por estratégia, ou pelo que for – ainda que tivesse razão – não resta dúvida que o presidente cultivou um ambiente de discórdia e fez florescer inquietante cenário político o qual, a quem menos interessa, é a ele mesmo. Fosse diferente, não estaria amargando sucessivas quedas de popularidade.

2) Fragilidade econômica
Não há como negar: o super ministro Paulo Guedes ainda não disse a que veio. Levou quase um ano para aprovar a reforma da Previdência que Henrique Meirelles – não fosse o escandaloso áudio que retirou a máscara de Michel Temer – teria aprovado, sem ruídos, no prazo de três meses. O ambiente no Congresso estava amplamente favorável para que fosse adiante de forma tranquila.
O presidente Bolsonaro assumiu com legitimidade e recebeu o País nos trilhos. Logo, era de se esperar que em 2019 a economia fosse bem mais longe. O PIB de 1,1%, jocosamente apelidado de ‘pibinho’, foi o mesmo alcançado em 2017 pelo governo Temer, pouco mais de um ano após ter substituído Dilma, que deixara o Brasil na beira do abismo.
Logo, a gestão de Paulo Guedes tem sido decepcionante, tal qual suas frases grosseiras e preconceituosas. Ora protagoniza bate-boca na CCJ da Câmara, no ridículo episódio ‘tchutchuca é a mãe’, ora chama funcionário público de parasita, ora, ainda, considera absurdo “empregada doméstica ir para a Disney”. Em suma, aconteceu de tudo com Guedes, menos fazer a economia andar.

3) Conflito ideológico
Outro contrapé do Brasil recente tem sido a discussão estéril e infértil sobre conceitos de direita e esquerda, os quais, como agenda de ações político-administrativas, foram sepultados lá atrás, na primeira metade do século 20.
Fazendo um resumo tosco do que preenche centenas de volumosos livros, ‘direita’ e ‘esquerda’ têm como berço a França do distante século XVIII, na esteira da revolução daquele país. Reportava-se ao grupo de parlamentares que se posicionava à direita do presidente da Assembleia Nacional e que defendia propostas conservadoras, em contraposição aos que ficavam à esquerda, simpatizantes de ideias revolucionárias e politicamente mais radicais.
Como filosofia ideológica, continuam a existir. Fazem parte da História e servem de ‘orientação institucional’. Mas, como pauta de governança, pertencem a passado distante, época das ditaduras de Mussolini, de Hitler, de Franco, de Stalin e outros.
Se nas primeiras décadas do século passado determinaram, digamos assim, posições a serem seguidas, com o passar dos anos perderam significado porque o palco político de hoje mistura conceitos de direita com esquerda, com tendência cada vez maior para o centro. Logo, como adverte considerável corrente de cientistas políticos, em pleno século 21 não têm mais nenhum propósito.
Mas o Brasil resolveu reviver o jurássico conceito, trazendo a ideologia para a vida pública, como se os rumos do País fossem ditados pelas carcomidas orientações do passado. Pior ainda, faz parecer um Brasil dividido ideologicamente em tempos que não cabem divisões ou muros, mas união e pontes.
Não fosse por esse tripé de desventura e a pandemia, ao invés do contrapé, estaria enfrentando um Brasil melhor estruturado e com barreiras mais sólidas.

Sem Bolsonaro, daria no mesmo
​Exame superficial pode levar o leitor a entender que as observações colocam ônus sobre Bolsonaro. Sim, de certa forma. Mas se fosse o presidente anterior, ou o anterior a este, daria no mesmo, com outros enfoques.
Temer, era o golpista. Dilma, a que maquiou a realidade econômica para se eleger e fez vista grossa ao Petrolão. Lula, o que permitiu que os cofres públicos do Brasil fossem assaltados por diferentes práticas de corrupção, desde os tempos de Mensalão. E por aí vai…
De fato, cada um teria que suportar sobre os ombros o próprio fardo.
Bolsonaro é apenas o da vez.

VIA EXPRESSA

Mercado
Foi providencial a medida da Prefeitura de estabelecer quatro pontos de entrada e saída no Mercado Municipal de Campos, como forma de controlar o acesso e reduzir a propagação do coronavírus.

Perdas
Por conta do amplo noticiário dado ao Covid-19, passou com registro abaixo do merecido as mortes, por infarto, do compositor Moraes Moreira, de 72 anos, e do escritor Rubem Fonseca, de 94.

“Mandettada”
No dia anterior à demissão, o então ministro Luiz Henrique Mandetta disse – referindo-se à nova equipe que assumiria o Ministério – que para ajudar o Brasil era preciso considerar outras alternativas. O comentário dizia respeito ao isolamento.
Ora, se o distanciamento social é a única forma de combate à pandemia – conforme ele próprio sempre defendeu, lembrando ser o protocolo adotado no mundo inteiro – como, então, admitir “alternativas”?
Em havendo alternativas, deveria ele tê-las considerado. Se preferiu ser demitido a abandonar o critério determinado pela ciência, não há que se falar em ‘alternativas’.

Sobre o SUS
“O SUS vai pagar a conta de séculos de negligência, de favela, de falta de saneamento básico e com a falta de cuidado para com o povo mais humilde que é a grande massa trabalhadora deste País”. (Luiz Henrique Mandetta)

Nelson Teich
Logo que após ser anunciado, a fala do novo ministro da Saúde, Nelson Teich, soou desarticulada, com excessiva preocupação em agradar o presidente. O que disse pareceu confuso. A discrição, contudo, foi um ponto positivo.

Na posse
Ao tomar posse, entretanto, o oncologista Teich foi mais agudo, advertindo que o Brasil está tratando a crise do novo coronavírus “como se estivesse na década passada”. Esperemos que esteja certo.

Mais clareza
Espera-se que nos próximos dias o ministro Teich seja mais específico na ações que serão empreendidas no combate à pandemia, deixando claro o que muda e que não muda em termos de ações e protocolos.
O que disse até agora sugere excesso de rodeios e ausência de efetividade. Evidente que está alinhado com o presidente e, salvo surpresa, o isolamento poderá ser menos rigoroso. Contudo, como são os estados que têm autonomia para adotar as medidas que acharem corretas, tudo fica meio às cegas.

Bolsonaro
Em mais um ataque – ainda que certo, na hora errada – o presidente Bolsonaro disse que Rodrigo Maia tem uma atuação “péssima”, está aprofundando a crise, “assumiu o papel do Executivo” e ‘está conduzindo o Brasil para o caos’.

Sem cabimento
Oportunistas de plantão, que não pensam no Brasil, mas em suas conveniências políticas, seguem falando em impeachment do presidente. O País não pode travar combate de vida ou morte contra a Covid-19 e, ao mesmo tempo, abrir outra frente de conflito. Seria um disparate.