Petroleiros na Bacia de Campos vivem momentos de terror diante do risco de contágio por coronavírus

Casos se multiplicam nos navios e plataformas, locais ideais para propagação de doenças

Campos
Por Ulli Marques
16 de abril de 2020 - 12h26

(Foto: Divulgação Petrobras)

Se a possibilidade de contágio pelo novo coronavírus assusta aqueles que podem se proteger em suas casas, os que não têm essa possibilidade e que precisam deixar suas famílias e ficar mais de 15 dias em alto-mar encontram-se ainda mais assustados. Essa é a realidade dos petroleiros e demais profissionais que trabalham em navios e plataformas de petróleo. Na última semana, o Terceira Via noticiou que 53 funcionários de uma dessas estruturas situadas entre o sul do Espírito Santo e o norte do Rio foram infectados, mas esta não é a única. Outros petroleiros e técnicos alegam viver como num “filme de terror”: isolados, solitários, mas ainda assim expostos ao perigo.

Embora estejam acostumados a “quarentenar”, afastados da família e dos amigos por semanas em um local de onde não podem sair, os trabalhadores dessas plataformas acabam mais desprotegidos que aqueles que estão em terra firme. Isso porque o isolamento em um ambiente compartilhado não parece ser eficaz. Um funcionário de uma empresa terceirizada da Petrobras contou à equipe do Jornal Terceira Via que, antes de embarcar, não sabia o que encontraria no navio.

Cabines com funcionários que apresentam sintomas semelhantes aos da covid-19 estão isoladas (Foto: colaborador personagem não identificado)

“Embarquei no início do mês e só soube que havia dois casos confirmados lá dentro porque outros colaboradores me contaram. Mas acontece que, quando cheguei, me deparei com uma realidade ainda pior. Doze pessoas que apresentavam sintomas estavam em cabines isoladas, recebendo alimentação através da enfermeira e do pessoal da hotelaria. Isso já me assustou”, contou o funcionário que não quis se identificar por medo de represálias.

Nos dias seguintes a chegada dele, os números de casos suspeitos aumentaram. Testes rápidos (com prazo de resultado de 48h) passaram a ser feitos nos colaboradores com sintomas e aqueles que tinham o resultado confirmado eram desembarcados. Áreas comuns foram interditadas, o serviço de lavanderia foi suspenso devido à contaminação de dois funcionários desse setor e os trabalhadores da cozinha também foram afastados. Todo o turno de serviço da noite, por exemplo, foi interrompido. Enquanto isso, o clima no navio é de silêncio, tensão e medo.

Áreas comuns do navio foram interditadas (Foto: colaborador personagem não identificado)

“As operações continuam, em escala reduzida de pessoal e num ritmo um pouco mais lento, mas a fiscalização nos deu pouquíssimas informações sobre como agir a fim de conter o vírus. Uma equipe de higienização está a bordo para tentar esterilizar o maior número de cômodos possível, porém com o embarque e desembarque de pessoal, isso se torna irrelevante, visto que não sabemos se quem sobe a bordo está doente ou não. O fluxo de embarque continua”, declarou o trabalhador.

Somente neste navio — NS-52 de intervenção da Siem Helix, sob comando da Petrobras — há 112 pessoas a bordo e muitos continuam apresentando sintomas: mais de 10 pessoas foram colocadas em ‘quarentena’ nos camarotes, 9 colaboradores que tiveram o quadro confirmado voltaram para suas casas e outros aguardam nos hotéis a confirmação dos exames. Alguns com sintomas suspeitos também vêm desembarcando gradativamente, ainda que sem os resultados dos testes.

“Além disso, eles nos cobram um isolamento antes de embarcar de 7 dias. Porém, quando descemos, não temos o mesmo suporte. Temos medo de levarmos o vírus para nossos familiares… A empresa diz que está agindo, mas essa ação não é eficiente, já saiu do controle há muito tempo. Quase todo dia descem alguns e outros entram em isolamento, novos casos são confirmados… A situação nunca estabiliza. O que adianta realizar teste, distribuir máscara e álcool em gel se o navio em geral está contaminado? Falo em nome dos funcionários das terceirizadas da Petrobras: FMC, Expro, Halliburton, Weatherford. Estamos vivendo um filme de terror!”, denunciou.

Esta semana, o jornal O Globo publicou uma reportagem que mostra que, desde a peste negra, os navios são locais ideais para disseminação de doenças. A reportagem cita o livro “Epidemia e Paz, 1918”, do historiador americano Alfred Cosby, que lembra que o pior lugar para o alastramento de uma doença viral é um local confinado e distante de qualquer ajuda.

RESPOSTAS

A reportagem do Terceira Via procurou o Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense (Sindipetro-NF) que respondeu que “ainda informações sobre este caso específico, mas tem recebido relatos semelhantes sobre outras unidades e tem cobrado da Petrobras uma atuação mais rigorosa em relação às empresas terceirizadas na prevenção à covid-19”.

A entidade ainda solicita aos trabalhadores que “enviem todos os relatos sobre exposição à condições inseguras de trabalho, como este de risco de contaminação pelo novo coronavírus, para denuncia@sindipetronf.org.br”. O Sindicato também vem cobrando providências da Petrobras e encaminha as denúncias para órgãos fiscalizadores, como a Anvisa e o Ministério Público do trabalho.

Em nota, a Petrobras afirmou que “desde o início da pandemia, vem adotando medidas preventivas em linha com as recomendações de autoridades sanitárias e órgãos reguladores” e que um “comitê de crise avalia diariamente a evolução do quadro no país e nas unidades, decidindo por novas ações preventivas”.

A Estatal disse ainda que algumas das medidas já foram adotadas, como: “adoção do teletrabalho em todas as atividades administrativas e para as pessoas no grupo de risco em qualquer atividade; redução do efetivo nas unidades operacionais ao mínimo necessário para a operação segura em atividades essenciais; aquisição de testes para casos suspeitos; isolamento monitorado pré-embarque; e monitoramento contínuo de todos os casos suspeitos e confirmados”.

A companhia disse ainda que “monitora os casos suspeitos, dentro ou fora de suas unidades, desde o primeiro reporte de sintomas” e que toma “todas as medidas preventivas para evitar o contágio nesses casos, além de orientar o colaborador e seus familiares por meio das equipes de saúde”. Quando esses casos ocorrem nas unidades offshore, a Petrobras garantiu que “é feito o desembarque imediato”.

No entanto, a estatal disse que “não vai informar confirmações ou agravamento de quadros de Covid-19 nas suas unidades” porque “entende que a garantia da privacidade e do sigilo médico se sobrepõe nessas situações”.

Já a Helix do Brasil, terceirizada responsável pelo navio em que está embarcado o funcionário que fez a denúncia ao Terceira Via, afirmou que “continua implementando à bordo fortes medidas de controle a fim de garantir a segurança de todos os funcionários”. Entre essas medidas estão “testes para covid-19, uso de equipamentos de proteção individual e comunicação de diretrizes recomendadas relativas à segurança e saúde, com foco em métodos de prevenção, o qual inclui ainda, o distanciamento social”.

A empresa também garantiu que “por precaução, qualquer um que apresente qualquer sintoma, é desembarcado e testado na primeira oportunidade” e que “toda a tripulação do Siem Helix 2 que tenha desembarcado está sendo monitorada por profissionais de saúde dedicados e especializados”.