Silêncio ensurdecedor: contra um inimigo sorrateiro, só o medo pode nos salvar

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Guilherme Belido Escreve
Por Guilherme Belido
12 de abril de 2020 - 0h01

Silêncio ensurdecedor: contra um inimigo sorrateiro,
só o medo pode nos salvar

As pandemias, por mais terríveis que sejam, sempre acabam. Ficará o aprendizado ou, quando tudo passar, também chegará o esquecimento?

Algumas vezes, partes do mundo tremeram ante o som estrondoso dos canhões, das granadas, dos tanques de guerra, dos mísseis e dos bombardeios durante os dois grandes conflitos mundiais.
Tremeu, em particular, quando armas atômicas foram lançadas sobre duas cidades do Japão, em 1945, pondo fim à Segunda Guerra Mundial iniciada seis anos antes.
Em 1962, foram as potentes sirenes de advertência disparadas pela Armada Americana posicionada próxima ao litoral de Cuba – em bloqueio naval para impedir que um comboio soviético chegasse à ilha – que deixaram o mundo sob forte tensão, face à iminência de guerra nuclear.
Contudo, em nenhum outro momento da História, o planeta inteiro esteve de joelhos – amedrontado e atemorizado.
Na Era mais tecnológica da comunicação, vê-se perdido entre informações desencontradas e incapaz de indicar o amanhã, de dizer do futuro e apontar quem nele vai estar.
Nas ruas vazias, no cenário inanimado e nas portas fechadas, o retorno à normalidade afigura-se como algo surpreendentemente distante.
Só o silêncio angustiante se faz sentir. O silêncio que grita. O silêncio da incerteza. O silêncio do Covid-19.

Ninguém estava preparado

Contra um inimigo camuflado, sorrateiro e de enorme capacidade de espalhamento, o mundo não estava preparado.
Os Estados Unidos, o país mais rico do planeta e com maior investimento em Saúde Pública, luta para conter o que, de início, subestimou. Enfrenta, assustado, a pandemia que o presidente Trump desdenhou. Agora, amarga o maior número de casos confirmados na comparação com os demais países, com cerca de 3,3% de letalidade entre os infectados. Por outro lado, é o que mais testa, indício de que o percentual deverá cair sobremaneira se a população cumprir o distanciamento social.
Outros países – Na equação casos confirmados/letalidade, países europeus apresentam números drásticos: Itália, cerca de 13%; França, também perto dos 13%; Reino Unido, na faixa de 12%; e Espanha, quase 10%.
Holanda e Bélgica, apesar do número relativamente baixo de contaminados em relação a vários outros países, mostram alta letalidade: em torno de 11 e 10%. O Brasil está com 5,4% de letalidade comparativamente aos casos confirmados.
É necessário, entretanto, observar que esses números mudam a cada boletim.

Quando chegar o amanhã

Com dias difíceis pela frente, sem que se saiba por quanto tempo a tormenta do novo coronavírus irá se prolongar, o mundo terá que responder, ante às sequelas deixadas, como será o amanhã.
Que mudanças serão empreendidas? Que medidas sanitárias precisarão ser adotadas? Quais políticas de prevenção entrarão na pauta? Serão mantidos hábitos de higiene e a vigilância contra aglomerações?
De certo, as epidemias e pandemias, por mais terríveis que sejam, sempre acabam. Resta saber se o “legado” vai deixar lição forte o bastante para que políticas públicas preventivas e de Saúde sejam incrementadas, ou não.
O mundo agora está aprendendo, a duras penas e da maneira mais dolorida, sobre pandemias. O que fica no ar é se haverá aprendizado ou, se quando tudo passar, também chegará o esquecimento.

O preço pago pelo Brasil

Se a vida nos ensina que só o conhecido é seguro, o coronavírus está, duramente, demonstrando que vivemos na insegurança. Logo, que cada Nação ponha sobre os ombros a própria ‘derrama’ e vá à luta.
Como país ‘em desenvolvimento’ – indisfarçavelmente subdesenvolvido em várias regiões – a pandemia expôs o despreparo do Brasil em diferentes frentes, revelando a situação caótica que há muito deveria estar sendo enfrentada.
O Brasil, que não sofreu em seu território os efeitos dos dois conflitos mundiais (1914-18 / 1939-45), que não enfrentou guerra civil – nem terremotos, maremotos ou vulcões –, País de terra fértil e clima tropical, paga preço muito maior do que seria aceitável pela ininterrupta turbulência política e criminoso nível de corrupção.
Bem entendido, o vírus chegaria de qualquer jeito. Mas não precisava ter a porta tão facilmente aberta face aos hospitais abandonados, sucateados e fechados; com a saúde pública em frangalhos a qual, se já não prestava assistência à população em tempos ‘normais’, tampouco agora.
Miséria e fome – Nas áreas periféricas dos estados mais pobres do Nordeste, crianças morrem de fome. O Maranhão que o diga. Mas, achamos nós – sociedade e governos – normal.
Nos grandes centros, como São Paulo e Rio, no amontoado de favelas superlotadas, o esgoto corre a céu aberto e as crianças buscam comida nos lixões. Mas… foi ‘sempre assim’.
Essas mesmas favelas não têm água nem sabão. E só agora, quando o procedimento mais eficaz no combate ao coronavírus é evitar aglomeração e lavar as mãos a todo momento, é que se dá conta que milhares e milhares de brasileiros engrossam a fila dos vulneráveis, com alto risco de contágio. Mas… foi ‘sempre assim’.
Resta observar se, quando a pandemia for embora, o Brasil vai continuar fingindo que ‘não sabe’ do quadro de miséria absoluta, que não vê os milhares que vivem nas ruas e que não enxerga o exército de crianças desnutridas, doentes e abandonadas, para as quais restou ser pedinte em sinal de trânsito. São crianças que não sabem o que é ser criança.

Linhas gerais

Ao contrário do que se diz – da ‘terrível surpresa’ – epidemiologistas do mundo inteiro há muito alertaram sobre o risco de uma pandemia viral. Mas o mundo não deu muita bola.
Em 2019, o número de mortes provocadas pela dengue no Brasil foi cinco vezes maior do que em 2018, com mais de 1,5 milhão de infectados e 754 óbitos.
Doenças como febre amarela, sarampo, tuberculose, varíola, etc – algumas erradicadas, outras que se pensava extintas – estão voltando. Contudo, os sinais não foram observados.
E a gripe espanhola…? Bem, foi há mais de cem anos… ‘jazia esquecida’ como se não tivesse acontecido ou não pudesse voltar com outro nome e com mais força. Pois é! Voltou.
Sec de Saúde do RJ – Na segunda semana de março, quando o Estado do Rio registrava 13 casos confirmados de Covid-19, o secretário estadual de Saúde, Edmar Santos, previu que a escalada ocorreria em 15 dias e o pico em um mês. Portanto, de acordo com sua projeção, seria agora.
No dia 31 de março, surpreso com o alto número de casos entre os mais jovens, atingindo pessoas na faixa dos 30 e 39 anos, declarou em entrevista ao ‘Bom Dia Rio’: “Não nos contaram tudo sobre esse vírus. Tivemos óbitos nessa faixa”.
Conclusão: não tem mais super homem ou mulher maravilha. Estão morrendo pessoas de 40, 50 e 60 anos.
Campos – Até quinta-feira (09), quando esta edição foi fechada, o município de Campos – felizmente – não tinha registro de nenhuma morte, sendo 11 o número de casos confirmados.
Por fim, reproduzindo o que disse o psiquiatra Daniel Martins Barros sobre a pandemia, ‘O medo pode nos salvar‘.