Cientista campista batalha pela cura da Covid-19

Pesquisa que reúne especialistas do mundo já identificou particularidades do vírus que circula no Brasil e busca vacina

Geral
Por Girlane Rodrigues
6 de abril de 2020 - 16h56

Ronaldo Junior mora em Petrópolis atualmente (Foto: divulgação)

Aos 24 anos, Ronaldo da Silva Francisco Junior, integra o principal grupo de pesquisa do mundo que está na batalha para mapear o DNA do vírus causador da Covid-19. Campista, formado em ciências biológicas na Uenf, Ronaldo Junior, é um dos responsáveis pelas análises de bioinformática do sequenciamento de DNA do novo coronavírus. Essas análises permitem, por exemplo, identificar genes e mutações no material genético do novo vírus, etapa fundamental para busca de formas de tratamento da doença.

“Estou cursando doutorado no programa de Pós-Graduação em Genética da Universidade Federal do Rio de Janeiro e atuo nessa importante pesquisa como membro do Laboratório de Bioinformática no Laboratório Nacional de Computação Científica de Petrópolis, o LNCC, onde fiz mestrado em Modelagem Computacional. Nosso objetivo é entender o DNA do vírus e identificar fatores genéticos que podem contribuir para a disseminação da doença, a severidade dos casos de COVID-19 e, posteriormente contribuir para desenvolvimento de tratamentos, o que acreditamos na melhor das hipóteses, acontecer dentro de um ano, com a descoberta de uma vacina”, explica.

A equipe do projeto está espalhada pelo Brasil e pelo mundo incluindo pesquisadores da Universidade Oxford e Universidade de São Paulo. Ronaldo comemora a visibilidade da ciência neste momento de crise global. “Estamos felizes com os resultados iniciais da pesquisa. Os olhos do mundo inteiro estão na gente neste momento, ansiosos por alguma resposta científica que possa frear o vírus. Isso é uma satisfação, principalmente por sermos tão criticados como universitários, inclusive por políticos, por vezes taxados de fazermos balbúrdia”, disse.

Um dos freios já foi puxado, explica Ronaldo, quando a pesquisa revelou que o vírus que circula no Brasil é oriundo da Europa e não da China, onde apareceu o primeiro caso da doença, ainda no final de 2019. Em outra análise, esse grupo de pesquisa constatou que, ao chegar no país, o coronavírus sofreu mutação, que resultou na chamada transmissão local do vírus. “Comparamos a sequência do vírus encontrado no Brasil com o banco de dados mundial de sequências do novo coronavírus e descobrimos que essas sequências vinham da Europa e não da China. Descobrimos também que alguns vírus não pareciam diretamente com nenhum outro do mundo. Aqui, eles se agrupavam, o que significa dizer que no Brasil já existe a chamada transmissão comunitária”, explica.

As pesquisas começaram no final de fevereiro de 2020, quando o primeiro caso da doença foi confirmado no Brasil.

Equipe de Ronaldo sob coordenação da Dra. Ana Tereza de Vasconcelos (Foto: divulgação)

Passo a passo do trabalho

Ronaldo contou que a pesquisa começa quando amostras do vírus são extraídas de pacientes com Covid-19 em tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e hospitais privados. A equipe, então, extrai o material genético do vírus e encaminha para o LNCC, onde é feito o sequenciamento do DNA. “Fazemos a leitura, propriamente dita, do material. Recebo os arquivos que saem do sequenciamento e tento identificar as diferentes mutações e os genes que ele possui, por meio de programas de biologia computacional.”

Origem do vírus

Ronaldo explica que o vírus causador da Covid-19 era encontrado naturalmente em morcegos, como reservatórios do vírus, mas sofreu mutações em seu DNA e passou a infectar humanos, possivelmente devido ao hábito de contato com animais exóticos, reservatórios do vírus, por parte dos chineses. “É importante ressaltar que já existem evidências científicas de que o vírus não foi criado em laboratório, como alguns especulam”, ressalta.

História de vida

Ronaldo Junior nasceu em uma família de origem humilde em Campos e segue as recomendações de autoridades sobre isolamento social. Atualmente está em Petrópolis, onde trabalha pela pesquisa. A saudade de Campos tem apertado, segundo ele, mas afirma que está feliz. “Já fizemos o processo de sequenciamento e agora estamos trabalhando de casa. Estou muito feliz. Sempre tive vontade de trabalhar com genética. Poder contribuir com o que você sabe para ajudar o próximo e tentar resolver um problema mundial é surreal, sem contar o reconhecimento do cientista nesse momento. Sou a primeira pessoa da minha família a cursar universidade pública e concluir pós-graduação, meus pais não tiveram acesso ao Ensino Superior”.

O estudo sobre as bases genéticas da Covid-19 não é a primeira pesquisa que Ronaldo participa. Em 2016, ainda com 21 anos, ele foi premiado por apresentar o melhor trabalho de graduação na área de genética humana no Congresso Internacional de Genética, que aconteceu no estado de Minas Gerais. “Na ocasião eu era aluno de graduação da Uenf e trabalhava como bolsista de Iniciação Científica no Núcleo de Diagnóstico e Investigação Molecular (Nudim)”, concluiu Ronaldo.