EDITORIAL | Os dois lados do pronunciamento de Bolsonaro

Se estiver certo, vai colocar a culpa dos problemas econômicos inevitáveis na imprensa e nos seus desafetos

Editorial
Por Editorial
25 de março de 2020 - 15h15

O pronunciamento do Presidente da República Jair Bolsonaro, em rede nacional de rádio e televisão, na noite de terça-feira (24), quando propôs o fim do confinamento das pessoas menores de 60 anos, e a reabertura de escolas, comércio e demais atividades econômicas, pode ser analisado por dois pontos de vista.

Não se pode afirmar que o pronunciamento do Presidente foi totalmente insano, já que se disse municiado de dados estatísticos de previsibilidade, garantindo que o coronavírus pode ser controlado no Brasil com mais eficiência do que em outros países, citando condições climáticas, entre outras.

Não se pode condenar o Presidente por sua preocupação com a economia que já estava anêmica e agora foi atingida por uma espécie de vírus que, por contágio, atingirá toda a cadeia produtiva. Está certo em defender o emprego como instrumento de saúde pública.

Pode-se dizer que Bolsonaro errou exatamente no tempo do seu discurso. Se antecipou muito. Poderia fazê-lo um pouco mais adiante, e talvez convencesse assim os brasileiros. Tanto não convenceu que ninguém saiu de casa. Teve uma repercussão dramática com o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, que é médico, rompendo com ele imediatamente por conta do pronunciamento. Isso sem falar no agravamento das relações com os governadores dos dois mais populosos estados brasileiros – São Paulo e Rio de Janeiro.

O Presidente errou quando depois de usar, tirar, voltar a pôr, descartar as máscaras, apareceu de rosto limpo na televisão, contrariando o protocolo do seu Ministério de Saúde, já que ele, aos 64 anos, está incluso no grupo de risco. Como não se bastasse, ele salpicou em seu pronunciamento expressões desagradáveis como o diminutivo da gripe.

No fundo, o Presidente arriscou. Apostou todas as fichas na versão de que o coronavírus não avança no país mais do que em outros lugares. Se estiver certo, vai colocar a culpa dos problemas econômicos inevitáveis na imprensa e nos seus desafetos. Se estiver errado, o erro talvez seja um dos maiores cometidos por um Presidente.