A culpa é da chuva?

A falta de credibilidade dos governantes também dificulta o trabalho de convencimento dos agentes públicos na remoção das famílias

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Por Cláudio Andrade
13 de março de 2020 - 8h59

Estamos acompanhando uma série de catástrofes em cidades brasileiras ocasionadas pelas chuvas torrenciais que estão assolando nosso país. Não restam dúvidas de que em certos locais choveu em vinte e quatro horas mais do que o previsto para o mês inteiro e isso compromete qualquer sistema de escoamento.

A maioria das tempestades tem gerado mortes em área de risco onde milhares de residências são construídas em locais inimagináveis e ilegais. Os meios de comunicação noticiam diariamente o desabamento de lares inteiros construídos em morros e encostas comprovando claramente o silêncio assassino do estado.

Em 2010, no morro do Bumba em Niterói, uma favela situada no bairro de Viçoso Jardim  ocorreu um deslizamento de terra, que matou 267 pessoas. Todos os moradores residiam em cima de um lixão, ou seja, culpa da chuva ou do estado?

Em 2011 outra tragédia creditada as chuvas matou, segundo dados oficiais do governo do estado do Rio de Janeiro, 918 em Petrópolis, Teresópolis e Friburgo. Grande parte das vítimas moravam em morros e encostas, todos amontoados, sem qualquer segurança.
A culpa foi das chuvas ou do estado?

Outro ponto que precisa ser relevado é o fato de não existir em nenhum governo estadual e também nos municipais com territórios formados geograficamente por morros e encostas, um projeto social de habitação capaz de retirar essas famílias das áreas tensas e direcioná-las para locais seguros e dignos.

Para muitos chefes de poder público é melhor permitir o crescimento populacional irregular através de invasões do que convencer esses seres humanos de que não é possível, nem mesmo seguro, habitar locais completamente desestruturados, verdadeiras bombas atômicas prestes a explodir.

Importante dizer que até as ações propostas pelas famílias das vítimas contra o estado visando ressarcimento, ficam comprometidas, pois como alegar mortes em áreas que juridicamente não são passíveis de serem habitadas?

A falta de credibilidade dos governantes também dificulta o trabalho de convencimento dos agentes públicos na remoção das famílias. Grande parte das pessoas prefere continuar correndo risco de morte a embarcar na aventura de ser deslocado para um lugar que não sabem se realmente existirá.

Finalizo com um trecho da música ‘Oh, chuva’, da banda Fala Mansa: ‘oi chuva, eu peço que caia devagar, só mole esse povo de alegria, para nunca mais chorar’.