Campos não investiu para enfrentar as mudanças climáticas 

Nível do Paraíba recuou, mas 'Águas de Março' trazem risco de inundações  e até de enchentes

Guilherme Belido Escreve
Por Guilherme Belido
8 de março de 2020 - 12h11

Situação vista Brasil afora não precisava ser a de Campos, bilionária a partir dos 

anos 2000 com os royalties 

Nos últimos dias o nível do Paraíba do Sul, em Campos, chegou próximo da casa dos 10 metros. Portanto, a centímetros da cota de transbordo, algo em torno de 10,40 metros.

Ainda assim, não deixou de inundar alguns quintais e afetar casas de ruas localizadas em bairros periféricos próximos à margem do rio, como Coroa e Ilha do Cunha, ambos na Pecuária.

Apesar da tendência de recuo, fato é que na melhor das hipóteses a cidade esteve a dois metros de sofrer uma nova enchente, visto que o dique foi construído para ‘segurar’ até 12 m – o dobro do nível normal do Paraíba, que via de regra fica entre 5 e 6 metros.

Assim, a questão que se deseja focalizar importa em perguntas que não podem ser caladas:
1) Como aceitar que a última grande obra para conter as cheias do Paraíba foi o dique erguido há mais de 50 anos e que de lá para cá nenhuma construção de porte tenha sido realizada?
2) Que justificativa pode ser dada para que nos últimos 20 anos – período em que as mudanças climáticas se intensificaram e os grandes temporais tornaram-se cada vez mais frequentes – Campos tenha cruzado os braços ao invés de realizar investimentos capazes de enfrentar o problema da transformação do clima?
3) E – ainda mais absurdo – como explicar que os citados últimos 20 anos correspondem exatamente ao ciclo dos repasses dos royalties do petróleo, que transformaram Campos em município bilionário?
Outras indagações poderiam ser acrescentadas no sentido de advertir que estamos diante de uma questão que não deveríamos ter, ao menos nesta proporção, porque a cidade não foi capaz de pôr em prática o que no passado – em tempos de vacas magras, mas em dias de mais sorte – o poder público empreendeu, como os diques erguidos, em duas etapas, nas décadas de 50 e 60.

Agora é torcer que janeiro não ‘atrase’ para março
O conteúdo desta página não tem como alvo a construção do dique e de obras para escoamento das águas – assunto recentemente tratado pelo Terceira Via em extensa e cuidadosa matéria assinada pelo jornalista Thiago Gomes.

Mas, em outra vertente, o que se traz à superfície é o que deixou de ser feito, preventivamente, depois da referida construção, observando, ainda, que se janeiro – mês em que normalmente acontecem temporais e enchentes – ‘atrasar’ para março, ou seja, se vierem as ‘águas de março’, poderemos estar na iminência de novas cheias, visto que o nível do Paraíba subiu este mês acima do registrado em janeiro.

Trata-se aqui de advertir a absurda distância entre o que o poder público realizara há meio século e o que não fez em décadas mais recentes.
Depois de 50 anos, constata-se a quase inexistência de obras e políticas públicas que eliminem ou dificultem as inundações que afetam os bairros citados e outros, como a localidade de Três Vendas, onde os moradores frequentemente são penalizados.

Sofrimento –  Entre todas as interrogações, a mais drástica é a que deixa ao desamparo essas comunidades de famílias humildes. Em favor delas, apenas ações emergenciais, que administram os danos – o que não é suficiente. E de certo seria diferente se os alagamentos de lá afetassem, com igual frequência, áreas nobres da cidade.

As tragédias causadas aguaceiros não é um desafio apenas de Campos – várias cidades brasileiras sofrem esse infortúnio. Mas não precisava ser também de Campos, um município que após os volumosos recursos dos royalties simplesmente empobreceu e endividou-se – contraste que remete aos píncaros da incoerência.

Recursos do governo federal – Exame superficial poderia levar à conclusão que as obras para conter as cheias do Paraíba, bem como os canais de escoamento, foram realizadas pelo governo federal, e não pelo município.

Contudo, visto sob esse ângulo, a situação fica ainda pior, tendo em conta que se em meados do século passado os cofres do executivo não tinham como arcar com tais investimentos, por outro lado o município dispunha de representação política de prestígio e atuação eficiente capazes de trazer para Campos vultosos recursos.

Já em tempos menos distantes, nem os royalties foram usados para as obras necessárias e tampouco a representação política foi capaz de viabiliza-las.

Registro histórico: a enchente de 1966
A maior enchente em Campos aconteceu em janeiro de 66, quando várias ruas ficaram inundadas, entre elas a 15 de Novembro, Alberto Torres, Conselheiro J. Fernandes, Baronesa da Lagoa Dourada, Voluntários da Pátria, Marechal Floriano e outras.

Não foi um alagamento de algumas horas, mas de vários dias. Em algumas áreas, de semanas. Na rua Tte. Cel. Cardoso, por exemplo, as pessoas lançavam mão de barcos – alguns a motor – para se deslocarem, em particular no longo trecho entre a Conselheiro J. Fernandes – então ‘Rua dos Bondes’ –, e a dos Goytacazes, na época Rua do Gás. E só para atravessar a ‘Formosa’ de uma calçada à outra, a água ficava acima da cintura.
De lá para cá, o que ‘salvou’ a cidade algumas vezes foi o dique construído graças à atuação de políticos de peso junto ao governo da União, em especial do deputado federal Alair Ferreira.

Não fosse o dique, Campos teria sofrido enchentes, entre outros anos, em 1985, quando a água avançou sobre trechos da 15 de Novembro; e em janeiro de 2007, ocasião em que a força das águas derrubou a Ponte General Dutra e comprometeu a Saturnino de Brito, praticamente isolando Guarus do Centro de Campos.