O olhar por dentro da política

A água que vislumbro na qualidade de representante do povo tem cheiro, sabor e cor.

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Por Cláudio Andrade
18 de fevereiro de 2020 - 11h50
Na vida temos a árdua tarefa de fazermos análises sobre a conjuntura que nos é imposta todos os dias. Economia, família, educação e política são algumas dessas vertentes que, como seres humanos falhos, insistimos em tentar assinar o último capítulo da obra como se realmente conhecêssemos tudo e todos. Achamos que conhecemos a fundo o universo das pessoas e do espaço que dividimos diariamente.
Antes de ser vereador eu conhecia o “copo” por fora e fatalmente e humanamente fazia observações e concluía abordagens na tranquila posição de não estar dentro do copo. Fora dele, apenas recebia gotas de informação e olhando para a água nele contida avaliava se a mesma estava ou não própria para o consumo. Não conhecia o gosto e tampouco sabia como essa água chegava e era formada dentro desse copo.
Na qualidade de vereador estou tendo a nobre experiência de analisar o líquido contido no “copo” por dentro. Nesse caso, diferente de antes de ser eleito, posso mergulhar na água e até bebê-la se eu quiser. E conhecendo o gosto e sabendo de todas as nuances de como essa água é tratada torna-se, na maioria das vezes, mais difícil se posicionar. Há muito mais a dissecar, analisar, compreender…
Porém, ao estar diante do líquido que às vezes até derrama do copo estou vez ou outra – ainda não conheço o fundo desse objeto- brigando comigo mesmo, com meus conceitos e com a ardente ética que sempre será testada, seja em nossa vida privada ou no meu caso, na pública. Na vida pessoal, decisões são sempre difíceis de tomar. E mais difícil ainda é quando as decisões mexem com a vida de uma população. É necessário coerência, ética, respeito e muita responsabilidade para que a água não respingue nos que esperam de você uma postura que se adeque aos anseios dos que muitas vezes são esquecidos pelo poder público.
A água, na sua essência é inodora, insípida e incolor. No copo da vida não, com certeza não! A água que vislumbro na qualidade de representante do povo tem cheiro, sabor e cor. Essa constatação não me anima, mas também não retira de mim a disposição para virar ou até quebrar o copo se for preciso. É necessário coragem!
Como bem disse a poetisa mineira Ana Martins Marques em seu poema “Tenho quebrado copos”: “tenho observado brevemente seu formato pensando que acontecer é irreversível pensando em como é fácil destroçar.”
“Tenho embrulhado os cacos com jornal para que ninguém se machuque como minha mãe me ensinou como se fosse mesmo possível evitar os cortes (mas que não seja eu a ferir) tenho andado a tentar não me ferir e não ferir os outros enquanto esgoto o estoque de copos”.
Nobre leitor, seguirei observando e aprendendo as nuances de cada copo. Dependendo do seu conteúdo, poderei estar contemplando algo bom ou ruim para a minha trajetória. Sigamos o caminho das águas, mas como bom marinheiro, cauteloso para que não sejamos tragados por elas.