Ernesto Mac​hado, – Onde o tempo parou com qualidade de vida

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Guilherme Belido Escreve
Por Guilherme Belido
16 de fevereiro de 2020 - 0h01

O que significa viver bem? Temos aí uma pergunta difícil de ser respondida em virtude do subjetivismo que envolve. É preciso ter em mente a preferência de cada um, o que é considerado como importante, a perspectiva, o temperamento de cada qual e, em última análise, o que a pessoa quer para a própria vida.
Levando em conta o tecnológico ano 2020, a primeira resposta que nos vem à cabeça seria a de viver numa grande e movimentada metrópole, repleta de boates e restaurantes; cinemas, teatros e academias; shoppings e vida noturna intensa.
Contudo, a pergunta melhor apropriada teria que incluir um quesito: qualidade de vida. E aí a ‘coisa’ muda de figura, visto que o ‘pacote’ incluiria insegurança, violência, poluição, mobilidade, trânsito caótico, 4-6 horas/dia para ir e voltar do trabalho, estresse, custo de vida, etc.
O foco desta matéria está a menos de 40 quilômetros de Campos, na localidade de Ernesto Machado, distrito de São Fidélis, um lugarejo – como tantos outros do interior – que não oferece nada do glamour mencionado mais acima no texto, mas também não sofre com as mazelas enumeradas no parágrafo anterior.

Com aproximadamente 2 mil moradores, Ernesto Machado mantém quase que os mesmos traços de 40 anos – acrescentando-se, naturalmente, as melhorias realizadas pelo poder público. Mas a essência é bem semelhante, com a população vivendo basicamente da agricultura, pecuária e pesca.
Cortada pelo Rio Paraíba, as casas situadas do lado esquerdo da rua principal – a rua da linha de trem – desfrutam do privilégio de terem o rio praticamente como quintal de suas residências, regalia que além de aplacar o calor, oferece belo visual e lhes permite interagir com natureza. Quer comer um peixinho? Basta uma vara de pescar, um pouco de paciência e o almoço está garantido.
Então é assim: além do peixe, a galinha caipira e ovos; plantação de feijão, milho, verduras e legumes; frutas, e tudo que a boa terra oferece e que permite ao morador tirar de seus quintais e chácaras quase todo alimento de que precisa. Ou alguém prefere aquele frango de peito estufado, que cresce num piscar de olhos, supostamente por alguma alteração genética?

Parada no tempo e sem estresse

A grande maioria que vive na aprazível Ernesto Machado não trocaria o lugar que ‘parou no tempo’, pelas grandes cidades. E entre os que experimentaram, boa parte voltou.
E não é difícil entender: quem já acorda de bem com a vida, não sofre estresse e pouco conhece de depressão, não ‘cai’ na armadilha da aparente facilidade do mundo moderno, à custa de pagar um alto preço.
Qualidade de vida – Viver sem poluição, engarrafamento ou barulho; sem o sobressalto da criminalidade, das balas perdidas, da violência e do assalto a cada sinal fechado; com nível de delitos perto de zero; sem consumir alimentos com agrotóxicos e, em suma, sem o corre-corre insuportável dos grandes centros – não troca a paz interior e a tranquilidade pela ilusória luz de neon.
Água – O que está se tornando problema cada vez mais grave e que assola as grandes cidades – a água contaminada – não chega a Ernesto Machado. Diria o leitor: – Ah sim! O Paraíba passa ali. Nada disso. O rio dá o frescor, o peixe e a bela paisagem. Mas os moradores consomem água límpida da nascente, canalizada para um reservatório e de lá distribuída para as casas.

Celular não liga, mas tem Whats

Como em lugar algum ‘nem tudo são flores’, também E. Machado tem suas dificuldades. Sem padaria, o pão chega todos os dias para um antigo armazém, a ‘Venda do Waldir’, onde se compra quase de tudo. Não tem farmácia nem açougue. Contudo, como S. Fidélis está a apenas 13 quilômetros – cerca de 20 minutos –, não chega a ser um problema. E se o remédio for urgente, pode ser pedido pelo telefone, naturalmente que com um custo adicional.
Em Ernesto, a oferta de emprego é mínima e a estrutura limitada. Mas no geral os moradores preferem conviver com essas dificuldades em troca de uma vida simples, porém segura, saudável e sossegada.
Sem sinal para ligação de celular, os telefones são fixos – como, aliás, no Brasil inteiro até meados dos anos 90, sem que ninguém sentisse falta. Mas o lugar tem internet, o que permite o uso de Whats.

O que dizem os moradores

Para o presidente da Associação dos Moradores, Aldair Santos, paz e natureza são fundamentais. Tanto que ele, que morou 25 anos em Nova Iguaçu, voltou há 15. Ressaltando o apoio da Prefeitura de S. Fidélis – que mantém, entre outras iniciativas, Posto de Saúde Médico-Odontológico, escola até o 9º ano com transporte para os alunos, praça com parquinho, quadra e campo de futebol com torneios – Aldair gostaria que Ernesto contasse com uma creche e local para atividade com idosos. Além disso, luta para que saia do papel o projeto do trem de turismo, que seria de grande importância para a economia e divulgação do lugar.

Célio Moura, nascido e criado em Ernesto, é outro que não a trocaria por nada. Há 18 anos montou o ‘Bar do Robalo’, que é servido com fartura, acompanhado de ótima comida caseira, num varandão bem pertinho do rio, com bela paisagem.
Paulo Sérgio Leal, que não conhecia Ernesto Machado, visitou o lugar há cerca de 4 anos, quando tinha 47, e se apaixonou. Morava no Rio, gerenciava uma firma de material de construção, mas mudou-se com a família e nem pensa em voltar. Para ele, além do que já foi dito, tem a solidariedade das pessoas. Todo mundo conhece todo mundo, são solidários uns com os outros, e isso não tem preço – disse.

Curiosidade – Sobre lugares pequenos é comum o comentário: “Ah! Mas ali não tem nada pra fazer”. Verdade! Mas a esmagadora maioria do médio do povo que mora em grandes centros, a despeito das atrações, depois de 20/21hs costuma estar em casa, vendo novela, telejornais, filmes, etc., exatamente o que fazem os que moram em Ernesto.