Campos com imagem de periferia após décadas de maus-tratos

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Guilherme Belido Escreve
Por Guilherme Belido
9 de fevereiro de 2020 - 0h01

Depois de décadas de maus-tratos…

Anos e anos de falta de planejamento e ininterrupto descuido resultaram num visual de cidade de periferia

Não há como negar, Campos vem perdendo ao longo dos últimos 30/40 anos sua aparência de cidade tradicionalmente aristocrática, de significativa beleza arquitetônica, cujas ruas, praças, canteiros e demais espaços públicos – antes tratados e bem cuidados – valorizavam e combinavam com os traços acima citados e que em tempos de mais sorte deram à cidade as singulares características visuais que lhe eram peculiares.
Muito simples: Campos possui um centro arquitetônico riquíssimo, formado principalmente pelos prédios históricos da Praça de São Salvador e ruas em seu entorno, que de ponta a ponta exibem sobrados de arquitetura extraordinária. Contudo, se esse mesmo espaço é contaminado por ruas sujas, por falta de conservação das praças, por iluminação precária, por calçadas esburacadas, pichações, e pela ocupação indevida onde caixotes e tábuas servem de banca para camelôs, com ‘barraquinhas’ e caixas de isopor espalhadas por todo canto, evidente que a beleza arquitetônica se perde no meio de tanta bagunça.

Problema antigo 
Como dito, a questão não é de hoje; vem de longe. Ora melhora, ora volta a piorar. A transformação da antiga Praça de São Salvador – com seus bancos de madeira, jardins e canteiros arborizados – na plataforma de granito que hoje se vê, não tem volta. O que era aprazível, onde as pessoas se sentavam para aproveitar a brisa ‘do Nordeste’, virou uma grande frigideira de concreto.
Mas o restante, que pode ser revertido, segue em declínio. Exemplo está no monumento de mármore, defronte ao principal shopping do Centro, há muitos anos pichado e cujo canteiro virou depósito de sacos de lixo. Nas imediações, um visual horroroso, onde cada cantinho serve para se acorrentar bicicletas.

Imagem desgastada fere nossa rica história e longa tradição
Campos não nasceu com o perfil periférico que, com todo respeito, marca a criação de outras cidades, ‘constituídas’ a partir de siderúrgicas, de fábricas ou como consequência acessória da ocupação desorganizada do entorno de centros urbanos.
Daí existir uma larga diferença de origem para cidades como Volta Redonda ou Duque de Caxias. Campos, que a contar o período de Vila soma quase 350 anos, exibe destacada importância política desde os tempos de colônia e, principalmente, no Brasil Império.
Desde sempre foi referência econômica que, como consequência, resultou na influência política. Não por acaso foi a primeira cidade da América Latina a ter energia elétrica na iluminação pública, inaugurada pelo próprio Dom Pedro II, que por sinal com frequência visitava esta planície.
Daí a indelével tradição, os grandes casarões e o acervo arquitetônico histórico.

Omissão administrativa
Portanto – pergunta-se – se a exemplo de Petrópolis ou Friburgo não temos DNA de periferia, por que exibimos imagem como se tal fôssemos? A resposta está na omissão do poder público, que nas últimas décadas não apenas deixou de cuidar da cidade com o devido zelo, como também não investiu em projetos urbanísticos que permitissem que a cidade crescesse de forma organizada.
Hoje, a própria construção, no início dos anos 70, do Palácio da Cultura (Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima), teria que ser observada com maior cautela. Afinal, uma praça inteira (Praça da Bandeira), de dimensões como poucas outras, deu lugar ao empreendimento. Mas, há 50 anos, seria de fato difícil tal análise.
O então governo Rockefeller de Lima, de administração dinâmica e progressista, colocou o município em perspectiva de vanguarda, rompendo os laços tacanhos de então. Por outro lado, levando em conta que além da Praça de São Salvador, na área central da cidade só ficaram o Jardim São Benedito, a Praça do Liceu e o Parque Alberto Sampaio como grandes espaços de lazer, há de se pensar se a Praça da Bandeira não deveria ter sido preservada e o Palácio da Cultura erguido em outro local. Entretanto, não tem cabimento lançar crítica sobre o que há meio século, dentro de outra realidade, configurou-se como iniciativa acertada.

A tristeza de ver a cidade em decadência  
O leque do que se vem perdendo e dos problemas que se acumulam é vasto. Se a cidade não cuida de suas ruas e calçadas, tampouco fez planos para a mobilidade urbana. O trânsito é simplesmente caótico, vergonhoso, tendo piorado sobremaneira nos últimos 15 anos.
Mas a cidade cresceu! – diriam alguns. Sim, mas não há justificativa para um trânsito tão ruim numa Campos erguida em planície, o que facilita a mobilidade. Não foram construídos viadutos, não se desapropriou o que lá atrás caberia desapropriar para favorecer o acesso, não se investiu em rotatórias e o transporte público não tem eficiência.
Em outra ponta solta, também não se fez investimentos em áreas públicas de lazer, com projetos paisagísticos de qualidade, que trariam conforto para a população, aproximando as pessoas da natureza e favorecendo o visual da cidade.
Viaduto e Mercado – O único viaduto é um monstrengo de concreto que enfeia a cidade e transforma parte da avenida lateral ao Alberto Sampaio em piscinão nos dias de chuva. A ponte era necessária, mas com outra configuração. O viaduto, como foi erguido, não contemplou nenhuma sensibilidade urbanística.
Para não ir ainda mais longe, dá pena de ver o Mercado Municipal como está. Um patrimônio do povo, quase todo cercado por tapume sabe-se lá até quando.
Enfim, resta torcer para que as coisas mudem e Campos volte a ser a cidade bonita, agradável, limpa e iluminada que ainda é a marca predominante em sua história.