IPS – O bairro que se reinventou

Criado num programa de casa própria para funcionários do estado, de terra batida e valão, hoje é uma das áreas mais cobiçadas da cidade

Guilherme Belido Escreve
Por Guilherme Belido
2 de fevereiro de 2020 - 11h52

Trecho da Avenida Artur Bernardes, bairro IPS (Reprodução)

Com o passar dos tempos as cidades crescem e se expandem naturalmente. É assim aqui em Campos e em praticamente todos os lugares. Sejam áreas centrais, bairros ou distritos, o aumento da taxa de ocupação é uma decorrência comum.

Entretanto, em se tratando de bairros antigos, dificilmente mudam radicalmente as características que lhe deram os primeiros contornos ou, dizendo diferente, a essência e o perfil iniciais.
O bairro do IPS, contudo, contradiz essa observação, como claramente se constata nos últimos 10/15 anos em que, diferente de todos os demais igualmente antigos e considerados de periferia, vem experimentando expressiva transformação de visual e conceito.

Para deixar claro, estamos a falar de mudança, não de crescimento. A Pecuária, por exemplo, segue crescendo, mas predominam os traços marcantes do bairro desde sua origem.
O mesmo observa-se na Lapa, no Parque Leopoldina, no Caju, no Nova Brasília, no Turf, etc. São bairros que a cada ano ganham dezenas e dezenas de novas construções, mas sem mudar o perfil relativamente periférico.

Registre-se, ‘periférico’ é uma definição relativa. Seriam as áreas residenciais fora do quadrante da 15 de Novembro até a 28 de Março, e da rua dos Goytacazes até o entorno da antiga Leopoldina, no encontro da Alberto Torres com a linha de trem, tradicionalmente definidas com área nobre. Contudo, esse é um conceito que vale apenas para os bairros mais antigos. Claro, não se está levando em conta o Flamboyant e outros igualmente recentes, mas apenas os bairros realmente antigos.

Pelinca – Explicando de outro jeito, tomemos como exemplo a Av. Pelinca. Há 45/50 anos, era basicamente formada por casarões com grandes quintais e terrenos vazios. Para se ter ideia, onde hoje está o Santander e vizinhança, havia uma pastagem para bois, que em época de chuvas formava pequenos lagos. Um visual, hoje, inimaginável.

Todavia, a mesma Pelinca ‘já’ estava entre o Parque Tamandaré, a Voluntários da Pátria e Barão de Miracema e, do outro lado, a Praça do Liceu e Fórum. Logo, ‘cercada’ por áreas nobres. Quando passou a se expandir, por óbvio manteve o curso natural, sendo hoje a área mais sofisticada e valorizada da cidade.

Por outro lado, o IPS – conforme os demais bairros citados – tem raiz periférica, ‘nascido’ praticamente onde a cidade acabava, mais distante que seus pares, mas que, contudo, mudou sobremaneira na última década e meia e hoje ganhou status de área cobiçada.

Bairro ‘nasceu’ com construção de casas para funcionários do estado 

O nome já diz tudo: IPS – Instituto de Previdência Social. Numa área então distante, com ruas de terra batida, valão e vasto canavial, o governo do Estado do RJ resolveu lotear para criação de um programa de casa própria para funcionários do estado. Eram os anos 1950 e os servidores escolhiam na planta as casas que queriam adquirir através do plano do extinto Iperj.

Bem entendido, nada a ver com as ‘casas populares’ de hoje. Ao contrário, eram boas residências, arejadas e de dimensões bem razoáveis. Não tinha luxo, mas com conforto necessário para abrigar as famílias.

A chamada ‘Pracinha do IPS’, onde está a Paróquia Nossa Senhora de Fátima, não existia. Toda aquele espaço era um campo aberto, onde as crianças jogavam bola no entorno das várias ruas onde as casas foram edificadas. Também a Primeira Igreja Batista do IPS veio como consequência da criação do bairro, hoje com 55 anos.

O lugar foi crescendo, o valão foi tapado, as casas melhoradas, as ruas calçadas, mas por várias décadas permaneceu basicamente como em sua origem: o bairro de moradores dos servidores do estado.

Disputado pela classe média e comerciantes

Numa mudança de rumo surpreendente, o IPS virou a chave. Deixou de ser “lá no IPS” e a passou a ser “ali no IPS”, sendo disputado pela classe média, com significativa valorização para moradia e comércio. Assim, diferente de outros bairros igualmente antigos, o IPS foi ganhando novo visual e hoje exibe centro comercial e polo gastronômico.

Valorização – Constatação que não deixa margem para dúvidas, se antes as ruas mais próximas da 28 de Março – que não fazem parte do IPS – eram as mais valorizadas, hoje é o contrário: o trecho pós-Princesa Isabel, principalmente pela Dr. Beda, é que recebeu maior volume de investimento.

A maioria das casas financiadas pelo estado foram reformadas, modificadas, ampliadas e estão na categoria de classe média alta. Onde antes se via terra, depois calçamento, agora se vê asfalto.
São vários restaurantes, padarias de ponta, loja de grife, pizzaria e academia. Tudo ‘nível Pelinca’. E, ainda, agência de carro, casa de eventos, lanchonetes, muitos pontos comerciais e um sem número de prédios residenciais de fino acabamento.

Um detalhe significativo ajuda a explicar o crescimento do bairro: a segurança. Inicialmente povoado quase que exclusivamente por funcionários públicos, sempre foi tranquilo, o que justifica o baixo percentual de furtos, assaltos e outros delitos, o que certamente atraiu o interesse das pessoas.

Arthur Bernardes – Importante salientar, a curva ascendente do IPS começou antes da inauguração da Arthur Bernardes, ocorrida em 2014. Contudo, a avenida deu à área um polo gastronômico, considerado um ‘point’ da cidade, com casas de vinho, cervejaria, bares, churrascaria, caldos, saladas, lanches, etc.

Por tudo isso o bairro se reinventou, mudou de cara, e a nova roupagem convive harmonicamente com os antigos mercadinhos, açougues, padarias e lojinhas que deram vida ao IPS em sua fase inicial.